Sociedade

Quebrando a rotina

DANIEL LIMA - 21/12/2009

Passei uma parte da manhã de sábado numa programação pouco comum para quem tem disciplina férrea nos finais de semana, que consiste em reservar o tempo para mais leitura, mais corrida para cuidar do corpo e da mente e também para o lazer, principalmente filmes e futebol.


Passei parte da manhã de sábado com um azougue de intelectualidade, um bólido de coragem, um caminhão de coerência, um turbilhão de entusiasmo, um transatlântico de magnetismo pessoal.


Passei uma parte da manhã de sábado, com o doutor em sociologia Valmor Bolan, diretor da Escola de Administração Educacional e de Relações Institucionais da Anhanguera e reitor da Unia, em Santo André.


Valmor Bolan em campo é certeza de que o placar da normalidade morna não terminará em branco.


Valmor Bolan é tudo aquilo que alguém poderia desejar para sair da proteção do conforto enganoso e se atirar nas trincheiras da produtividade intelectual.


A performance de Valmor Bolan é um oásis para este jornalista que não consegue compreender e muito menos aceitar que formadores de opinião consumam-se num silêncio desolador sobre questões fundamentais, no Grande ABC ou no Brasil.


Valmor Bolan rompe todos os paradigmas do lugar comum. Fala com todas as letras e acentua com a voz metálica de sempre, capitalizadora das atenções de sempre, o quanto há de contraditório na área universitária brasileira com a bem-vinda massificação do ensino gratuito do Prouni e o desperdício de recursos com a proliferação de universidades federais que seguem a mesma toada das unidades que as precederam, embora os executivos educacionais tentem diferenciá-las. Executivos federais é força de expressão. Os acadêmicos à antiga têm horror à terminologia que lembre o mundo empresarial.


Valmor Bolan não manda recados. Fala publicamente — como o fez durante o discurso de sábado na Unia, quando aquela escola recentemente somada à rede Anhanguera completou 40 anos de introdução do Ensino Superior.


Valmor Bolan foi o único aliado, o único especialista em educação que, quando este jornalista resolveu botar o dedo na ferida da instalação da Universidade Federal do Grande ABC, enfrentou o politicamente correto abjeto da sociedade amorfa e desancou a estrutura filosófica daquela instituição.


Criativo como sempre, abusado na medida certa, contestador por natureza, Valmor Bolan foi fundo na transmissão da imagem que atribui tanto à UFABC como a instituições assemelhadas construídas antes e durante o governo Lula da Silva: trata-se de barriga de aluguel.


Sim, barriga de aluguel porque a UFABC e tantas outras organizações assemelhadas, repita-se, são um festival de romantismo acadêmico ostensivamente contrárias ao desenvolvimento econômico, mas que ganham o palco da admiração do gueto formado pelos próprios dirigentes e professores. Atraem milhares de alunos, mas não têm qualquer intimidade com a realidade local.


A UFABC é um corpo estranho em Santo André que ganhará ramificações em outros municípios do Grande ABC. Distancia-se da realidade local, dos atores locais, tanto quanto os dramas da Represa Billings das balas perdidas no Rio de Janeiro.


Vou resgatar matérias que produzi sobre o mundo particular da UFABC no Grande ABC, inclusive a entrevista com Valmor Bolan. A situação continua praticamente a mesma. Há alguma encenação de regionalidade no dia a dia da UFABC mas de fato, comprometimento com o futuro regional, nada, absolutamente nada.


E tudo continua como antes porque a sociedade local é incapaz de se mobilizar, menos para acompanhar em espaço público a participação de um dos finalistas do Big Brother que mora em São Bernardo ou para promover festas corporativas ou pessoais de fundo marquetológico.


Se bate forte na inoperância regional da UFABC e em tantas outras unidades federais de ensino dissociadas das necessidades e da cultura dos endereços em que se instalaram, e se apresenta como proposta a composição de uma rede mais racional e menos dispendiosa de escolas de tecnologia com raízes nas vocações locais, Valmor Bolan não economiza elogios ao Prouni.


O especialista em Ensino Superior desfila números e resultados, fala da caça aos ricos que procuram fraudar dados socioeconômicos para estudarem gratuitamente, condena o preconceito dos mesmos ricos contra a doutrina massificadora do ensino, questionando inclusive a badalada USP (Universidade de São Paulo) de pífia participação comunitária.


Valmor Bolan diz tudo o que pensa e sabe. Uma raridade nestes tempos em que a maioria nem diz o que pensa nem sabe o que deveria saber.


A quebra da rotina no final de semana valeu a pena. Aceitar o convite de Valmor Bolan para sentar à mesa diante de mais de duas centenas de professores numa festa informal, emocionante e pavimentadora da expectativa de que nem tudo está em dissolução no Grande ABC foi uma oportunidade especial que este jornalista experimentou para retemperar a confiança de que dias melhores certamente virão. Até porque, institucionalmente, chegamos ao fundo do poço da sem-vergonhice total.


A quarentinha Unia é um endereço particularmente agradável para este jornalista. Foi ali que já faz algum tempo desloquei a caravana de regionalidade de batalhão intangível de leitores, numa noite de autógrafos de lançamento do livro Complexo de Gata Borralheira.


A mesma professora a cujos alunos fui apresentado naquela noite, Heleni de Paiva, estava presente no encontro do último final de semana, entre outros mestres que, segundo Valmor Bolan, obtiveram na última pesquisa de satisfação dos alunos um índice médio de aprovação semelhante ao do presidente Lula da Silva junto ao eleitorado nacional: a nota média daqueles professores atingiu a 80 pontos, revela orgulhoso um Valmor Bolan que saiu daquela festa para outros dois programas de uma agenda que parece não ter final de semana, numa corrida maluca contra o calendário gregoriano que já vivi intensamente também, mas de uns tempos para cá virou passado. Para azar dos sanguessugas.


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