O Clube dos Prefeitos (também Consórcio de Prefeitos) é uma réplica institucional de uma corrida de revezamento às avessas. A cada troca de bastão, que se daria regulamente em sete etapas, mais o relógio da competitividade do Grande ABC é cada vez mais avariado.
A posse do prefeito de Mauá, Marcelo Oliveira, na última sexta-feira, fortalece nova projeção de fracassos. Quem viu o encontro e desconhece a realidade do Grande ABC e também do Clube dos Prefeitos, deve ter imaginado que vivemos num paraíso terrestre.
Vou ser bonzinho com todos os prefeitos e conjuntos de prefeitos que participaram ou fingiram participar do Clube dos Prefeitos desde a criação, em dezembro de 1990. Já são nove turmas diferentes a colecionar derrotas.
O que é ser bonzinho rigorosamente com todos eles? Ora, é não estabelecer neste texto juízo de valor de eficiência individual dissociada do confronto coletivo.
DISPUTA SIMULTÃNEA
Vou me limitar a manter e a fortalecer a imagem da corrida de revezamento com troca de bastão.
A diferença em relação às provas olímpicas é que esta é de brincadeira, uma licença poética jornalística. E ganha elasticidade porque são sete os participante, ante quatro das regras oficiais.
Não somos unidade exclusiva de representação municipal e regional no País como alguns botocudos imaginam ou fingem acreditar porque a conveniência fala mais alto.
Estamos num universo de mais de seis mil municípios e de inúmeras regiões e aglomerados metropolitanos. Temos, portanto, um jogo a ser jogado. E jogamos muito mal. O Grande Oeste, de Osasco, Barueri e outros municípios tão próximos daqui, é prova viva. O PIB dos sete é muito maior que o PIB dos sete nossos.
CAINDO PELAS TABELAS
Ainda outro dia mostrei o quanto caímos no ranking do PIB Geral dos Municípios Paulistas quando se colocam os números em forma per capita. Praticamente nenhum Município da região escapou à degola neste século. Pior que isso: apanhamos vergonhosamente.
Isto posto, está claro, claríssimo, que o revezamento presidencial no Clube dos Prefeitos é um jogo de constantes perdas, independentemente do desempenho do prefeito dos prefeitos de plantão.
Paulinho Serra entregou o Clube dos Prefeitos para Marcelo Oliveira em situação pior do que a encontrou.
Os prefeitos do Clube dos Prefeitos esquecem que não são o centro do universo nacional. Tampouco internacional. Se não olharem para valer, fixar os olhos no futuro e botar sebo nas canelas, vamos continuar empilhando fracassos econômicos e sociais.
FUNERAL FESTIVO
Por essa razão central é que ao acompanhar a posse do novo prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos na última sexta-feira (foi mais de uma hora de gravação num site, acho que do Repórter Diário) fiquei irritado, quando não indignado, para não dizer revoltado.
Afinal, o que tivemos? Ora, bolas: um oba-oba demagógico próprio de uma agenda anacronicamente festiva tendo como palco o que deveria ser um velório.
Pior que o conteúdo do que ouvi, repleto de elogios pessoais e nenhuma frase sequer sobre coisas sérias que abatem região, foi a repercussão na mídia regional.
Os veículos que se dedicam a apenas relatar as informações que mais lhe interessam devem ser compreendidos nos limites das características editoriais.
OBA-OBA PREVISÍVEL
Entretanto, entretanto e entretanto, os veículos que se metem a interpretar os fatos sem base histórica e muito menos com sensibilidade, cometem crime de lesa-informação.
O oba-oba era previsível entre os protagonistas daquelas cenas, porque política é isso mesmo. Entretanto, avalizar os disparates é mesmo demais.
Se não bastassem todos os fatos que transformam o Grande ABC numa cidadela de inesgotável perda de riqueza e de sonhos seriam suficientes aos festivos participantes do evento na sede do Clube dos Prefeitos respeitarem o luto mais atualizado do que ocorreu com o Grande ABC nos anos Dilma Rousseff, os dois anos de maior recessão da história nacional e que foram muito, mas muito mais terríveis no Grande ABC.
No período entre 2015-2016 perdemos 20% do PIB e -- até que se fechasse o ano de 2000, conforme dados do IBGE – elevamos o esboroamento do PIB para 22%. Quando forem apurados os dados de 2021 e 2022 a situação não terá abrandado.
Perder um quinto do PIB em duas temporadas é comprometer o PIB de uma década.
CALIBRANDO DESEMPENHOS
Não podem os prefeitos do Grande ABC, do presente e do passado, apontar o dedo da crítica fácil a este jornalista por causa do que temos analisado neste espaço.
Sou cuidadoso ao distribuir responsabilidades pelos fracassos do Grande ABC entre as esferas de governo (Federal, Estadual e Municipal) dentro dos limites em que poderiam atuar de forma mais incisiva.
Diria de maneira mais didática que possivelmente a menor parcela de culpa no cartório pelo empobrecimento do Grande ABC ao longo de décadas caberia aos administradores municipais.
Entretanto, isso não significa que seja pouco e muito longe disso, que a situação os exime de maiores cobranças.
Até porque, outros municípios igualmente impactados por políticas macroeconômicas e fiscais deram um nó nas dificuldades ao cresceram e ainda crescem.
AGENDA DEFASADA
É nesse ponto que recomendo muito cuidado com a próxima gestão do Clube dos Prefeitos. Marcelo Oliveira deverá confirmar a regra de entregar um produto público pior que o que recebeu.
E há outra razão para tanto, além da concorrência de outros endereços.
A segunda força a atuar nocivamente contra os interesses do Grande ABC é que toda nova gestão do Clube dos Prefeitos segue o funeral de agendas escassas, improváveis, ou repetidamente infrutíferas. É um tal de seguir o comboio sem qualquer senso crítico. Entregam-se todos à inercia da improdutividade festejada e alquebrada.
Não quero dizer com isso que o Clube dos Prefeitos deveria jogar tudo o que consta de seus arquivos de propostas, ideais e sugestões, no lixo do descarte estratégico. Não é exatamente isso.
Mas uma reprogramação geral, com olhos críticos, estabelecendo uma corrida de espermatozoide para eliminar tudo o que é tranqueira, isso não pode ser adiado.
PT LOCAL E FEDERAL
Há indicações de que o PT Federal tem todo o interesse em influenciar o PT regional a dar certa prioridade ao Clube dos Prefeitos.
A ordem inversa da equação também é válida. Ou seja: há indicações de que o PT Regional tem todo o interesse em influenciar o PT Nacional a dar certa prioridade ao Clube dos Prefeitos.
Tanto é verdade que além da dobradinha no comando da instituição (Marcelo Oliveira de presidente e o prefeito de Mauá, José de Filippi Júnior de vice), acaba de ser contratado como secretário-geral o ex-prefeito de Diadema, e também ex-prefeito dos prefeitos, Mário Reale.
Tudo seria resumido numa ótima sinalização, uma sinalização de que pelo menos há um lado da banda que toca o poder no País estar envolvido com o Clube dos Prefeitos.
INOPERÂNCIA HISTÓRICA
O problema é que uma leitura nas propostas de Mario Reale, que de fato vai comandar o dia a dia da entidade, remete ao acervo ao qual me referi anteriormente, ou seja, ao conjunto de parafernálias que estão no histórico de inoperância do Clube dos Prefeitos.
É claro que a liderar o processo de petização do Clube dos Prefeitos está o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, biprefeito de São Bernardo e que também já ocupou o cargo de presidente da entidade.
Entre todos os prefeitos que passaram pelo Clube dos Prefeitos desde Celso Daniel, idealizador do organismo, foi Luiz Marinho quem mais se aproximou de uma valorização efetiva da entidade. Isso não é juízo de valor qualitativo, mas indicativo.
Tanto fez Luiz Marinho que as prefeituras colaboravam muito mais em termos financeiros. Uma pena que tenha filtrado o enquadramento do Clube dos Prefeitos sob viés sindicalista.
Ouvir naquele período o que ouvi outro dia de um vereador de São Caetano, que votou pela retirada da cidade do Clube dos Prefeitos, seria impensável.
Não vou repetir a manifestação de estupidez porque seria dispensável. Quem não enxerga a regionalidade na dimensão extracampo do municipalismo é ruim da cabeça de responsabilidade social ou doente do pé da inutilidade com agente público. Ou então é um falastrão bem-pago por quem defende tamanha asneira de isolamento regional.
Essa conclusão conceitual – ou seja, de que o Clube dos Prefeitos é indispensável ao futuro do Grande ABC – não significa dizer que tanto o prefeito José Auricchio Júnior, de São Caetano, quanto Orlando Morando, de São Bernardo, devam ser carbonizados porque retiraram os dois endereços da instituição.
GOLPES E CONTRAGOLPES
Aquela decisão não pode ser observada sem se analisar detidamente o passado que alimentou a ruptura.
É algo como chamar de golpistas manifestantes e vândalos que invadiram a praça dos Três Poderes em oito de janeiro, desconsiderando o enredo sobre o qual todos têm medo, vergonha, cara-de-pau e outras coisas do processo eleitoral.
Foram mais contragolpistas do que golpistas. Golpistas foram os primeiros que chamam os segundos do que são de fato e para valer.
A regionalidade do Grande ABC passa por uma estrada que precisa ser construída juntamente com o governo do Estado e suplementarmente pelo governo federal.
Troquei mensagem outro dia com José Police Neto, ex-secretário de Santo André, e agora no governo Tarcísio de Freitas. Ele está no lugar certo e na hora certa para contribuir com o Grande ABC. Se me ouvir, só terá de agradecer. E nós também.
Total de 526 matérias | Página 1
09/04/2026 SERÁ QUE FINALMENTE ESTAMOS DESPERTANDO?