Sociedade

José, o harém de sete mulheres
e a nova temporada de flores

DANIEL LIMA - 11/03/2010

José já foi dono absoluto da vida e da vontade de sete mulheres de seu harém. Pintou e bordou como nunca. Praticamente jamais teve contratempos incontornáveis, exceto em casos episódicos e distantes no tempo. Os poderes de José são afrodisíacos. As mulheres de José são diferentes entre si. Todas, entretanto, se acham dependentes de José. Inebriam-se com os galanteios de José. Umas mais que outras. Ultimamente, algumas ameaçaram desgarrar-se de José. Teriam descoberto outros homens na praça, todos a lhes oferecer o que tanto gostam — poder, prestígio — essas coisas que as mulheres mais ambiciosas gostam. Mas a fama do passado sustenta o José do presente.


Houve tempos em que José reinava soberano na força da conquista e nos métodos de manutenção das mulheres. José é espécie aparentemente indestrutível. José é José, por mais cambaleante que tenha andado, com dores aqui e acolá, consequência do desgaste natural dos anos e das mudanças socioeconômicas e culturais a que nenhum reino está imune.


As mulheres do passado geraram herdeiras que, dinasticamente, se submetem aos caprichos e anseios de José. A espada sobre a cabeça de comprometimento da reputação é a arma com que conta José para ter as mulheres a seus pés. Mas há mulheres que já não suportam submeter-se às vontades de José, como se Amélias fossem.


José, acusam essas mulheres, toma-lhes a vida, os desejos, a liberdade. Os parentes mais graduados dessas mulheres lhes puxam as orelhas, chamam-lhes a atenção. Sugerem comportamento mais edificante. Dizem que a virilidade de José já não é lá essas coisas, que a fama de sedução e de conquista se deve ao passado de juventude e beleza, de ausência de outras opções de masculinidade em alta, embora não desprezem a capacidade de José reoxigenar-se. Há sempre um tubo de balão de ensaio a que José recorre quando as forças parecem lhe abandonar.


Maria, uma das mais futurosas do reino outrora encantado de José, já não se dobra tanto às vontades de quem pretende manter a ferro e fogo a tradição de benfeitor que exige contrapartidas.


Ultimamente, mais que não se dobrar, Maria revelou faceta pouco comum entre as mulheres do harém: recusou lambuzar-se no leito de José como suas antecessoras. Bateu o pé firme. Garantiu que não permitiria que José se hospedasse em sua casa. Maria e as demais mulheres de José formam um harém diferente: elas têm seus próprios domicílios no território ocupado por José, espécie de invasor para algumas e de protetor para outras. A frequência com que José se hospeda em cada casa das mulheres depende da situação. Em algumas, nem bate na porta. Por que bater na porta se José tem todas as chaves do domicílio? Até elevador privativo José tem-se utilizado numa das sete casas.


Maria bateu e bateu os pés contra o domínio sedutor de José. Resistiu o que pode, porque um José renovado, revitalizado por conta de cirurgias diversas, voltou mais forte. Sim, José bate forte quanto lhe convém e interessa, quando sente que alguma de suas mulheres está na retranca e lhe nega atenção.


Maria diz que não tem vocação para Amélia, para apanhar, apanhar e ficar silente. Maria é rebelde porque conta, entre outras, com as amigas Januária e Petrúcia. Maria, Januária e Petrúcia formam uma trinca que aprecia praticamente as mesmas cores. As cores de um arco iris graduadíssimo. Formaram–se no mesmo colégio, frequentaram o mesmo ambiente universitário, identificam-se em vários pontos. Maria tem ascendência sobre Januária e Petrúcia porque reúne maiores posses financeiras e também porque é a predileta de um parente poderosíssimo que reina provisoriamente longe do reinado de José, onde, de fato, fez fama.


José desconfiou dessa irmandade. Por isso andou distribuindo recomendações a Maria, a Januária e a Petrúcia. Quer demovê-las do complô e atraí-las sem risco algum para seu leito. José não suporta ser desafiado. O domínio do espaço territorial que lhe entregaram de bandeja desde que assumiu o posto mor de controlador geral é questão de honra.


José tem métodos diferentes de convencimento. E não perdoa quem o desafia. Maria sabe disso, mas nem assim aquiesceu. Ultimamente, depois de encontro amistoso sem ser amoroso, porque José e Maria viviam às turras e o que mais se dizia é que o rompimento seria definitivo, ultimamente, como dizia, sinalizaram reaproximação. Mas há desconfiança mútua entre José e Maria.


Dizem os mais radicais que a paz não será duradoura. Maria é esperta e não está disposta a deixar José tomando conta da cozinha, da sala-de-estar, dos aposentos. Quer José apenas como amante precário, circunstancial, pontual, essas coisas. Tudo para amenizar as comentadas restrições de José. Não é que José andou dizendo que Maria não era nada disso? Que Maria mal sabia se vestir, usar batom, retocar a maquiagem? José não é um bom crítico de moda, de comportamento, de gastronomia. Mas, quando fala, as mulheres temem a repercussão entre formadores de opinião.


José tem certeza que Maria não se comportará como Cleusa, mais próxima da residência, do coração e de tantos outros pontos da anatomia de José. Cleusa lhe faz todos os gostos. Estende-lhe o tapete azul, instala-o na alcova ao som de valsa. Se precisar, José terá todos os cuidados médicos de que eventualmente precise. Cleusa é especialista num dos ramos da medicina. Cleusa não serve muito para a saúde física de José porque seus pacientes são outros, de especificidade de gênero não compatível com José, que é, mesmo debilitado, garanhão de verdade.


Sabe-se que Maria, a rebelde, ou ex-rebelde, não tem afinidade maior com Cleusa, com Ernestina, também sua vizinha de residência, com Clodovina e com Oduvalina, as outras mulheres de José.


As razões são tão explicitamente claras quanto os motivos que aproximam Maria de Januária e de Petrúcia. O passado escolar, o passado universitário, o passado ideológico, o passado de relacionamentos e, principalmente, o entorno dos amigos, explicam a situação.


Maria, Januária e Petrúcia pertencem a um grupo de interesses semelhantes, mesmo que de vez em quando vaze alguma informação de que não são tão unidas assim. Cleusa, Ernestina, Clodovina e Oduvalina são mais conservadoras em tudo. Têm maiores afinidades entre si porque frequentaram ambientes semelhantes. Dizem que não gostam tanto do povo que as rodeia, mas isso é intriga da oposição. Não há mulher com a característica de Cleusa, Ernestina, Clodovina e Oduvalina que não goste de povo, porque o povo é sempre a maioria do reino de José.


As sete mulheres de José se reúnem de vez em quando em encontros sempre comemorados, sempre festejados. Até parece que as terras onde habitam são o paraíso. Fingem que se dão bem, que pensam no conjunto da comunidade às quais pertencem, esforçam-se em iniciativas que possam ajudar os habitantes. Entretanto, sabem no íntimo que os resultados serão sempre aquém do desejado. Mesmo entre os grupos em que se dividem, avermelhados e azulados, as sete mulheres cultivam idiossincrasias. José se farta com tanta divisão.


Maria, Cleusa, Januária, Petrúcia, Ernestina, Clodovina e Oduvalina só não têm dúvidas sobre os anseios e ambições de José. Conhecem de cor e salteado. Suas antecessoras lhes repassaram muitas lições, senão diretamente, por terceiros. Algumas consideram José insaciável, outras dizem que já houve tempos mais indomáveis, quando José reinava com maior proeminência e não tinha dúvida em exigir-lhes o máximo de entrega e carinho.


Há contestações, mas íntimos do poder de José confidenciam que nunca houve naquelas terras um José tão devotado à causa de seguir com as sete mulheres a seus pés. Por isso, ao procurar Maria, José espera recolher as ovelhas desgarradas sob influência dela, no caso Januária e Petrúcia.


A temporada de flores, de muita colheita de flores, que abarrota as burras de José, cultivador maior da espécie mais requisitada pela comunidade, é o mote para a retomada do processo de sedução, em vez da coerção sutil ou descarada. José sabe que não há entre as sete mulheres quem não goste das flores do campo que ele garante que cultiva e distribui com esmero e certo exagero, porque se diz o único produtor da praça.


As sete mulheres acreditam piamente nos poderes de José, mas já acreditaram mais. Mesmo assim, não querem arriscar. Não há mulher alguma no reino de José que não aprecie o aroma das flores que se avizinham. Temem mesmo os espinhos que José diz estar pronto a espalhar entre elas se não deixarem as portas abertas. As sete mulheres de José viram bichos quando comparadas às mulheres de Atenas. Admitem até que sejam adeptas de manages, de bizarrices, de brinquedinhos que levantam o astral e outras coisas, mas mulheres de Atenas não. Isso as desmoralizariam.


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