Se o Diário do Grande ABC não voltar atrás na decisão aparentemente tomada na edição de hoje, a chamada Bancada do ABC, que o jornal cansou de propagar, vai para o banco de reservas de tranqueiras da falsa regionalidade.
Trocando em miúdos: a Bancada do ABC que este jornalista sempre denunciou como farsa ufanista, estaria sendo banida do léxico do Diário do Grande ABC. Uma ótima notícia. Faltam outras configurações editoriais, entre as quais uma posição firme sobre o separatismo no século passado.
Tivemos em meados do século passado o que chamaria de estupro territorial que torna a expressão Grande ABC uma ilusão. Mas isso é outra história. Vamos ao que interessa.
Quem não acredita que o Diário do Grande ABC teria abandonado a expressão que insistentemente veiculou durante décadas precisa ler com atenção a reportagem publicada na edição de hoje. Salvo engano, como ombudsman não-autorizado, registrei que o jornal não publica uma vez sequer a expressão “Bancada do ABC”. O que soaria natural à maioria dos leitores é uma peça preciosa para quem garimpa diariamente a genealogia regional.
EDIÇÃO MEMORÁVEL?
Na edição de hoje o jornal chegou à constatação que este jornalista expõe desde sempre: os deputados estaduais (e os federais não são diferentes) eleitos no Grande ABC não passam pelo crivo de um conjunto voltado estrategicamente a questões em comum que atormentam a região. A tal Bancada do ABC ou Bancada do Grande ABC é uma mancada histórica. Que este jornalista, repito, sempre desmascarou.
Vou reproduzir logo abaixo a reportagem do Diário do Grande ABC de hoje no pé desta análise que por sua vez reunirá na sequência desta abertura textos que produzi no passado sobre a Bancada do ABC.
O sentido disso tudo é mostrar e provar que este endereço jornalístico só tem mesmo compromisso com o leitor. E tampouco se importa com abutres pagos com dinheiro público para, nas redes sociais, atacar quem ousa fugir do encabrestamento oficial e oficioso da maquinaria que move as engrenagens dos poderosos de plantão.
Sei que sei por conhecer o Diário do Grande ABC destes tempos que a reportagem de hoje, que mereceu manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) não é obra do acaso. O material está conjugado à nova e prometida fase do também inútil Clube dos Prefeitos. Acho ótimo que assim o seja. As duas farsas não podem ser continuadamente levadas ao cume da regionalidade esfuziante.
ASSOCIATIVISMO FALSO
Quanto mais durar o endeusamento a uma regionalidade de araque, mais vamos perder terreno na competitividade econômica estadual e nacional. E vamos ver o barco afundar ainda mais.
Há dezenas de textos críticos que produzi com foco na Bancada do ABC disseminada como um conglomerado de deputados que teriam vestido a camisa regional mas que, no fundo, no fundo, não passam de individualistas. Não existe time quando cada um é por si e o resto que se dane. Ações circunstanciais confirmam a regra.
Talvez não tenha escrito ainda o que devo escrever por dever de ofício e de justiça: na maioria dos casos os deputados que passaram ao longo dos tempos como integrantes da Bancada do ABC têm menos responsabilidade do que a mídia que os instalou num associativismo falso.
NADA SEM REGIONALIDADE
Afinal, como é possível contar com Bancada do ABC se regionalidade em grau máximo é responsabilidade maior dos prefeitos de plantão e os prefeitos de plantão em raríssimas situações divergentes da realidade longeva pouco fizeram ou quase nada fizeram para atuarem em conjunto?
A Bancada do ABC é, portanto, uma versão inexequível porque esbarra na hierarquia institucional dos detentores de decisões municipais. Uma pauta regional que esmague partidarismos, individualismos, ideologismos e tantas outras barreiras seria o ponto crucial à reviravolta institucional do Grande ABC.
Sei que o temário em questão, ou seja, a Bancada do ABC, reúne complexidade inacessível aos novatos, da geração destes anos 2000. É preciso contar com estrutura histórica da região de no mínimo 30 anos de conhecimento para entender as pedras cantadas e obscuras do jogo da regionalidade.
A Bancada do ABC -- tanto quanto o Clube dos Prefeitos -- integra uma série de anomalias difundidas como motes de engabelação com o objetivo específico de dourar a pílula de uma regionalidade jamais alcançada. Essa suposta regionalidade é subproduto do municipalismo mais nocivo da face da terra – o municipalismo derivado de um separatismo emburrecedor de uma área por obra do destino com todas as características de unicidade social.
Agora, vamos retomar o passado com duas matérias que constam do acervo de CapitalSocial e que explicam o histórico da Bancada do ABC:
Bancada do ABC
é apenas miragem
DANIEL LIMA - 12/07/2002
Os deputados estaduais do Grande ABC formam de fato a chamada Bancada do ABC? Conseguem sensibilizar o governo do Estado para as grandes questões regionais? Antes de arriscar uma resposta, é preciso saber que eles são apenas oito entre 94 deputados e representam diferentes partidos. Quem acredita que sejam mesmo tão importantes coletivamente? Quem considera que são atuantes em bloco? Veja alguns exemplos de problemas crônicos que envolvem o Grande ABC e sobre os quais a Editora Livre Mercado solicitou respostas dos políticos. Eles preferiram não se manifestar:
A) O senhor acredita mesmo que exista a Bancada do ABC? Que ações relacionaria, com os respectivos resultados, que sustentem sua resposta eventualmente positiva?
B) O que o senhor individualmente e a suposta Bancada do ABC fizeram para impedir que o cronograma do trecho sul do Rodoanel não fosse esticado, em prejuízo da região?
C) O que o senhor fez efetivamente, individual e conjuntamente com os demais deputados da região, a respeito do projeto de metropolização ou submetropolização do Grande ABC?
D) Por que o senhor não se pronunciou sobre a proposta do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, e que foi motivo de Reportagem de Capa da revista LivreMercado, a respeito da criação do Estado da Grande São Paulo? Qual sua opinião sobre o assunto?
E) O que o senhor fez efetivamente, individual e em conjunto com a suposta Bancada do ABC, para tentar melhorar a vida dos pequenos negócios através da criação de um banco de fomento regional ou mesmo de um braço do BNDES?
F) O que o senhor realizou efetivamente, individual e em conjunto com a suposta Bancada do ABC, para fazer com que o governo do Estado e o governo federal devolvam mais recursos arrecadados no Grande ABC?
G) O que o senhor fez efetivamente, individual e em conjunto com a suposta Bancada do ABC, para que se aumente o efetivo da Polícia Civil e Militar na região?
H) O que o senhor fez efetivamente, individual e em conjunto com a suposta Bancada do ABC, para tornar a atuação da Câmara Regional mais dinâmica, em vez de ser instância de poder regional que vive de espasmos?
I) O que o senhor fez efetivamente, individual e em conjunto com a suposta Bancada do ABC, para impedir que mentiras sobre a improcedente manutenção da riqueza industrial da região fossem veiculadas pela mídia a partir da Agência de Desenvolvimento Econômico?
J) Diante das respostas que o senhor ofereceu às perguntas que lhe enviamos, é possível garantir que a Bancada do ABC existe de fato?
LISTA COMPROVADORA
Essa lista de prioridades do Grande ABC poderia comprovar uma realidade prática: a Bancada do ABC não existe no conceito mais preciso da expressão -- de empenho coletivo sistemático, organizado, planejadamente estratégico. Pode até ser agrupamento episódico, como o que contribuiu para a aprovação do aumento da capacidade de produção da Petroquímica União, recentemente, mas daí a constituir-se em exemplo a ser seguido são outros quinhentos.
Os próprios deputados estaduais do Grande ABC denunciam-se que não formam uma bancada, embora nos últimos meses tenham ensaiado improvisado coro de união, principalmente a partir das indagações da Editora Livre Mercado. Nada mais lógico quando se tem o calendário eleitoral a apertar a garganta de cada um deles. É preciso levar aos eleitores a ideia de um projeto consolidado, quando se sabe que são individualidades sujeitas a sazonalidades grupais. Sem respostas dos deputados, LivreMercado mergulhou nos arquivos sobre a atuação dos representantes estaduais do Grande ABC. Os resultados são péssimos.
CRÍTICAS AO GOV ERNADOR
Em julho do ano passado -- portanto há exatamente um ano -- deputados da região criticaram duramente o governo Geraldo Alckmin. Principalmente os petistas, depois da rejeição de todas as 28 emendas apresentadas à Lei de Diretrizes Orçamentárias. "Não posso afirmar que na época do Mário Covas o relacionamento com o ABC era uma maravilha, mas com o Alckmin piorou em 90%" -- apontou Wagner Lino (petista de São Bernardo), que completou: "O Estado não dá mais a importância que o ABC merece. Acho que agora há outras regiões prioritárias para o governador".
Como pode funcionar uma Bancada do ABC se petistas estão de um lado e outras legendas de outro? A crítica, formulada também há um ano, é do deputado José Augusto da Silva Ramos, ex-prefeito petista de Diadema e agora no PPS, ao comentar o descontentamento de Wagner Lino e outros deputados do PT à rejeição das emendas: "A política que o PT faz na Casa dificulta o relacionamento com o governo" -- justificou. Marquinho Tortorello (PPS de São Caetano), da base do governo, afirmou que as emendas não foram contempladas porque a articulação junto ao PSDB foi malfeita. "Também estou querendo entender o que aconteceu. Vou continuar procurando o líder do governo para obter uma resposta" -- disse à época.
DESCONFORTO GERAL
Dividida, a suposta Bancada do ABC deixa evidentes rastros de desconforto. Em dezembro do ano passado apenas quatro das 51 emendas apresentadas pelos deputados estaduais da região foram aprovadas no orçamento do Estado. Mesmo assim, sem qualquer referência específica da região; isto é, são abrangentes, segundo apontou o deputado petista Donisete Braga, de Mauá. Também o petista Vanderlei Siraque, de Santo André, reagiu indignado: "O governo estadual fez o que bem quis na Assembleia Legislativa. Infelizmente, deixou a desejar, já que existem acordos entre o Estado e a Câmara Regional do ABC" -- afirmou textualmente ao Diário do Grande ABC de 21 de dezembro.
Donisete Braga foi contundente na avaliação do governo do Estado e as propostas do Grande ABC: "Infelizmente, hoje a peça orçamentária é feita dentro do gabinete e não enxerga as questões prioritárias da população".
O deputado Wagner Lino antecipou a frustração ao afirmar, duas semanas antes, que só existia uma forma de aprovar as emendas: uma audiência com o governador tendo a participação de representantes das sete Câmaras Municipais da região, prefeitos, Fórum da Cidadania e deputados. "Não adianta falar com o líder do governo. É preciso que o próprio governador assuma compromisso diante das propostas"-- disse. Sem mobilização regional, a derrota foi consumada.
REPRESENTAÇÃO FRÁGIL
Os deputados estaduais do Grande ABC reproduzem o drama de identidade dos demais legisladores. O Executivo, de fato, é que dá as cartas. Por isso, embora façam esforços para explicitar uma atuação conjunta que é frágil, todos procuram sobreviver politicamente. Balanço publicado pelo Diário do Grande ABC em novembro do ano passado traduz a fragilidade do sistema de representação: os deputados da região só conseguiram aprovar 13 leis desde que assumiram o mandato, em janeiro de 1999. A maioria das leis aprovadas refere-se a homenagens ou campanhas educativas. Violência, educação e saúde? Nem pensar.
A justificativa é um atestado da debilidade implícita do mandato: nenhum dos 94 deputados consegue aprovar mais do que uma lei por ano. "Com 94 deputados, é difícil não ser apenas mais um"-- pontuou Donisete Braga. E espetou o governador Geraldo Alckmin: "Não consigo entender como o governador até agora não chamou os prefeitos para dar sequência às discussões de Covas com o governo regional".
O discurso de Newton Brandão, petebista aliado de Alckmin e três vezes prefeito de Santo André, naturalmente é diferente: "A região nunca foi tão beneficiada como agora" -- considerou. Ramiro Neves, do PL de São Bernardo, foi mais conformista: "O governo tem apoio de 63 dos 94 deputados. Aqui funciona a política de corredores". Vanderlei Siraque completou: "Esses corredores não estão abertos para nós, até porque não queremos" -- garantiu.
EMENDAS COMPLICADORAS
Como esperar que haja unidade regional com opiniões tão distintas e com tratamentos individuais para uns, discricionários para outros? Wagner Lino é mais contundente ainda: "A prática de os deputados do Grande ABC levarem as emendas ao orçamento da região para discutir com o líder do governo é atitude que rebaixa o Grande ABC. O líder não tem poder de negociar nada. É preciso levá-las ao Palácio dos Bandeirantes e envolver prefeitos e vereadores no processo" -- repetiu à exaustão. Daniel Marins, do PPB de São Caetano, endossou: "Contribuímos muito para o bolo, mas não recebemos o repasse compatível em obras. No Estado existe a visão de que o Grande ABC é rico".
É provável que o desencanto dos deputados da chamada Bancada do ABC seja tão intenso que prefiram fugir de qualquer avaliação mais minuciosa, como a proposta pela Editora Livre Mercado. Logo após as eleições de 1998, todos eles se manifestaram esperançosos com o mandato que assumiriam em janeiro do ano seguinte. Eram seis os eleitos que anunciavam desejo de ampliar a articulação política em torno das prioridades da região e o trabalho conjunto com a sociedade civil. Eleito para a suplência, Newton Brandão assumiu juntamente com os demais, em janeiro, enquanto Donisete Braga só chegou à Assembleia Legislativa mais tarde.
REPRESENTAÇÃO EM QUEDA
Embora o resultado das eleições de outubro de 1998 tenha sido desastroso para o Grande ABC, o então coordenador do colégio executivo do Fórum da Cidadania, Sílvio Tadeu Pina, manifestava expectativa de que a contagem de votos contemplasse a região com o mesmo número de ocupantes do Congresso Nacional e da Assembleia Legislativa. Não passou mesmo de torcida: quando todos os votos foram apurados, o Grande ABC havia reduzido a representação federal de cinco para três deputados e a estadual de oito para seis. Mais tarde, também Clóvis Volpi (PSDB-Mauá) juntou-se a Duílio Pisaneschi (PTB-Santo André), Luiz Carlos da Silva (PT-Santo André) e Jair Meneguelli (PT-São Caetano) em Brasília.
Bancada do ABC é anedota que
se repete a cada quatro anos
DANIEL LIMA -- 18/03/2019
Salvo engano, apenas o Diário do Grande ABC, entre as mídias do Grande ABC, insiste em chamar de Bancada do ABC a tropa de deputados estaduais que assume postos na Assembleia Legislativa a cada quatro anos. E se o equívoco se consolidar, na medida em que nada se materializará de associativismo dos eleitos em defesa da região (ou muito pouco, que não pode ser catalogado como sinônimo de regionalidade), a publicação acabará cedendo à realidade, lamentando o uso da expressão. Mas como a memória do jornal é curta, bastará um movimento maroto e enganador da “bancada” para que, de novo, a alce ao Olimpo.
A inexistência da Bancada do ABC ou da Bancada do Grande ABC, como quiserem, é tão límpida e clara quanto a completa ausência de regionalidade. Somos uma ficção de integração dos sete municípios, mesmo quando Celso Daniel era vivo e pretendia mudar a história.
Fossem minimamente respeitosos com a expressão Bancada do ABC, os deputados que acabaram de assumir os mandatos porque tiveram base eleitoral na região teriam se juntado antes da formalidade da cerimônia de posse e delineado algumas linhas de ações em forma de termo de compromissos.
Mas os próprios deputados eleitos confessam à reportagem do Diário do Grande ABC que não tiveram uma reunião sequer desde que eleitos. E se tivessem, pouco significaria. As durezas e as molezas dos prélios individuais e partidários nos próximos anos os afastarão.
DOURANDO A PILULA
Uma ou outra iniciativa para dourar a pílula da enganação geral será fomentada entre alguns dos deputados eleitos pela região. Alguma coisa vai aparecer no radar de marketing que os colocaria em sintonia fina. Mas tudo não passará de embromação. O dia a dia em busca de voto (é disso que cada um vai tratar de agora em diante, para se manterem na Assembleia Legislativa) os afastará compulsoriamente.
Não vou particularizar algumas iniciativas já tomadas pelos deputados estaduais, antes mesmo de tomarem posse. Há um aparato que pretende antecipar ações que já constam das perspectivas de carreira de cada um. Todos sonham um dia chegar ao comando do Paço Municipal a que estão atrelados ou não politicamente. Nada que fazem fogem a essa projeção.
Sempre recorro ao passado de jornalista que conhece muito bem as peças do tabuleiro da baiana desastrada da região para consolidar prognósticos que, de fato, são diagnósticos em quinta dimensão.
BASE ROBUSTECIDA
A base de leitores desta publicação e deste jornalista sempre se renova ou se robustece nestes tempos de tecnologia digital que invade bolsos e bolsas de consumidores de informação.
Por isso recorro a análises do passado para melhor compreensão do presente. E também para os leitores antigos sem memória e os novos sem conhecimento entendam que não está aqui um escriba malvado, destruidor de reputações individuais e coletivas.
Distante disso: está aqui um maluco beleza que sabe muito bem quanto custa enfrentar as feras de procrastinadores, enganadores, ufanistas e tantos outros pecadores capitais quando se lida com a credulidade da sociedade.
Fiz esse parêntesis porque decidi recorrer a um texto que publiquei na revista LivreMercado de agosto de 2007 sob o título ”Clube, não bancada”. Fazia referências tanto ao Consórcio de Prefeitos quanto à suposta Bancada do ABC. Leiam alguns parágrafos para entenderem aonde pretendo chegar:
Quando decidi repassar aos leitores da revista LivreMercado identidade mais palatável e didática do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, imprimindo a marca “Clube dos Prefeitos” na Reportagem de Capa de julho, acabei por invadir um campo que se apresenta bastante fértil em retórica explicativa e objetiva. Sim, porque ao Clube dos Prefeitos adicionei o Clube dos Deputados, que vem a ser os parlamentares que supostamente representam a região tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal.
Por que acho que Clube dos Prefeitos e Clube dos Deputados são marcas mais interessantes e, do ponto de vista jornalístico, muito mais recomendáveis? (...) Clube dos Deputados porque se contrapõe com mais clareza e sensibilidade instigante à alternativa lançada já faz tempo, chamada de Bancada do Grande ABC. Até porque, como se sabe, Bancada do Grande ABC não passa de projeção por demais otimista, para não dizer ufanista, de sugerir que, embora divididos e subdivididos em várias instâncias partidárias, os parlamentares da região algum dia formariam de fato base de operação conjunta. Bancada do Grande ABC transpira engodo ao destilar algo que de fato não existe. É um jogo de palavras que anestesia o senso crítico e torna válido um movimento de valorização da regionalidade que jamais se integrou de fato.
DISSECANDO O CLUBISMO
Notaram os leitores que naquele texto de 2007 minha preocupação foi explicar em detalhes o conceito de cada clube em questão?
Mal poderia imaginar que um dia um juiz de Direito, despreparado para entender o trabalho jornalístico, me condenaria à prisão, entre outras questões exclusivamente de comunicação, de liberdade de expressão com responsabilidade social, porque utilizei a expressão “Clube dos Construtores do Grande ABC”, referindo-me, como me referi, àquela entidade sediada em São Bernardo e que por 25 anos foi congelada pelo presidente de então Milton Bigucci.
Mas, voltando ao que alguns chamariam de azedume em relação ao Clube dos Deputados quando de fato o que temos é a exumação de um fracasso coletivo que se repetiu a cada quatro anos, procurei, em seguida, naquele texto de 12 anos já completou, esmiuçar as expressões utilizadas. Leiam:
(...) Clube dos Deputados não pressupõe que exista entre os parlamentares e a sociedade regional relacionamento estreito, tanto quanto não existe entre o Clube dos Prefeitos e essa mesma sociedade regional. Clube dos Deputados é um agrupamento de origem geográfico-domiciliar-eleitoral dos chamados representantes do Grande ABC na esfera legislativa. Goste-se ou não, admita-se ou não, eles estão umbilicalmente compromissados com a vida social, econômica e política da região. Podem até um e outro estar equidistantes do balanço deste navio de complicações ditadas pela globalização ensandecida, mas de alguma forma, mais cedo ou mais tarde, principalmente quando as águas das eleições lhes batem nas nádegas da sobrevivência política, eles se perfilam individualmente em defesa das respectivas cores dos municípios que mais lhes dão sufrágios. Como essa participação é intermitente na melhor das hipóteses, nada mais correto do que os introduzir no Clube dos Deputados, em vez de lhe entregarem de bandeja a sustentação marquetológico de Bancada do Grande ABC.
FALTA COMPROMETIMENTO
Para não repetir neste texto, mesmo com alguma criatividade e formulação diferenciada de explicação, de que se trata o Clube dos Deputados, ao invés de Bancada do Grande ABC, sigo com aquele texto de 2007 da revista LivreMercado:
Clube dos Deputados pressupõe grupo de parlamentares com objetivos eventualmente em comum, mas sem representatividade efetiva do Grande ABC, exceto quando de fato apresentar resultados concretos, coletivamente ou não. Bancada do Grande ABC pressupõe grupo de parlamentares com total delegação e interação com o Grande ABC, espécie de conquista de um título sem disputar nenhum jogo. Clube dos Deputados é um campeonato de acesso à Bancada do Grande ABC, assim como Clube dos Prefeitos é um campeonato de acesso ao Consórcio Intermunicipal – escrevi.
BURACO NEGRO
Feitos esses esclarecimentos, contextualizando-os à nova-velha formação do Clube de Deputados do Grande ABC, o que lamento é o buraco negro que os distancia da sociedade. Fossem previdentes e fosse a sociedade mais participativa, das duas uma: ou eles não teriam sido eleitos ou se eleitos fossem carregariam a obrigatoriedade tácita de seguirem à risca uma cartilha rígida de demandas urgentes para sensibilizar o governo estadual.
AGORA, O DIÁRIO
Agora, vamos reproduzir integralmente a reportagem de hoje do Diário do Grande ABC:
Deputados do Grande ABC são
10,6% da Alesp, mas falta união
Angelica Richter
O Grande ABC é uma das regiões mais importantes do Estado de São Paulo, seja por sua localização estratégica, por seu parque industrial ou por ser um dos maiores mercados consumidores do País. Além disso, tem grande representatividade na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), com 10,63% dos 94 parlamentares da Casa, ou seja, dez parlamentares (ver quadro ao lado).
No entanto, a falta de unidade entre os representantes locais tem enfraquecido a força política da região, que poderia ter maior influência nas decisões do Estado.
Segundo o cientista político Diego Sanches Corrêa, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), os interesses individuais dificultam a construção de políticas regionais. “A lógica da atuação parlamentar na Assembleia Legislativa não é regional. É muito mais partidária e setorial. Essa bancada de dez parlamentares reflete um pouco o conflito que acontece aqui na região. Seria quase inimaginável, por exemplo, a oposição, que hoje conta com Luiz Fernando (Teixeira-PT) e o (Teonílio) Barba (PT), compondo com a Carla Morando (PSDB) e a Ana Carolina Serra (Cidadania) ”, pontuou.
Corrêa destacou que esse tipo de postura não é exclusiva do Grande ABC, mas também acontece em outras regiões do Estado. Conforme o cientista político, outro fator que neutraliza as questões regionais é que os deputados estão mais preocupados em se reeleger ou expandir sua base eleitoral para buscar “coisas maiores”.
“Nesse sentido, os parlamentares fazem, sim, um esforço para buscar recursos às suas regiões e depois reivindicar os créditos desse trabalho. Fazem isso de forma competitiva, porque sabem que estão disputando com os outros membros da bancada. O incentivo é muito mais de competição do que de colaboração.”
Para Ricardo Ceneviva, professor de Ciência Política e Políticas Públicas da UFABC, a desunião dos deputados do Grande ABC é decorrente da filiação partidária, principalmente no contexto de polarização vivenciado hoje, e do peso que traz para as siglas a proximidade com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Não é porque os deputados são da mesma região que vão se aliar. Isso pode acontecer para projetos pontuais. Porém, o peso que se tem nas comissões e nas secretarias é a filiação partidária dos deputados”, destacou.
Segundo Ceneviva, a questão partidária não influi na busca de recursos para as regiões de origem. “Entretanto, ser aliado ao governador facilita na hora de o parlamentar atender as demandas de sua região.”
Parlamentares da região
defendem diálogo
Os deputados estaduais do Grande ABC defendem maior união para fortalecimento de políticas regionais. Luiz Fernando Teixeira (PT) afirma que desde seu primeiro mandato – o petista está no terceiro – tenta reunir os parlamentares da região para atuar de forma coletiva, a fim de ter mais poder de negociação das pautas regionais.
“Por exemplo, vamos pegar a segurança. Se juntassem os dez deputados, que são mais de 10% da Assembleia, e fossem negociar com o governador (Tarcísio de Freitas-Republicanos) o aumento do efetivo, nós teríamos força política para fazer a defesa do (Grande) ABC. Nós somos dez pessoas que julgamos as contas do governador e poderíamos usar essa força. Porém, essa força fica dissipada na medida em que o governador vai cooptando individualmente os deputados”, destacou.
Para Atila Jacomussi (União Brasil) há alguns entraves para união dos deputados do Grande ABC, dentre os quais a dependência de alguns terem sido eleitos com apoio de lideranças partidárias e prefeitos.
“São poucos deputados que têm independência de se posicionar e sobre como dirigir seu mandato. De como trilhar sua carreira política por meio de conquistas e de muito trabalho. Me incluo nisso. Fui deputado, prefeito e retornei agora para a Assembleia. Nunca tive o pai prefeito. Pelo contrário. Tive de batalhar muito e conquistar (o mandato) por meio da atuação política e trabalho junto à população”, disse.
O unionista destacou que muitos levam para a Alesp as divergências partidárias e regionais, atrapalhando o desenvolvimento da coletividade. “Hoje temos uma grande bancada, mas com poucos deputados que conseguem realmente dialogar e chegar a pontos convergentes, para que a gente possa melhorar os resultados para o Grande
ABC”, pontuou.
Segundo Ana Carolina Serra (Cidadania), a região possui uma bancada forte e representativa na Assembleia, atuando sempre em prol da sociedade. A parlamentar destacou a união e o diálogo como ferramentas de fortalecimento das políticas públicas. “Acredito ser possível fortalecer ainda mais esse vínculo, inclusive com a representatividade do legislativo estadual nas entidades regionais, como o Consórcio (Intermunicipal) do Grande ABC e a Agência de Desenvolvimento Econômico, responsáveis pelos programas e projetos comuns aos sete municípios”, declarou.
Na mesma linha, Thiago Auricchio (PL) também ressaltou a representação parlamentar ativa e comprometida dos pares. “Prova disso são os avanços recentes, como o início das obras do Piscinão Jaboticabal, do BRT-ABC, a reforma das estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), a descentralização das farmácias de alto custo, além do aumento de repasses para o Nardini. Embora cada deputado priorize as demandas de sua base eleitoral, há uma convergência significativa de ideias, independentemente das diferenças ideológicas. Durante a CPI da Enel, por exemplo, tivemos três membros da região atuando conjuntamente, e essa colaboração continua na CPI das Telecomunicações. Esse esforço coletivo tem sido fundamental para colocar as necessidades do Grande ABC em destaque na agenda estadual.”
MAIS REGIONALIDADE
Apesar da defesa dos parlamentares da base do governador sobre a força da bancada do Grande ABC, nem todos os políticos veem essa atuação em prol da regionalidade. O subsecretário de Desenvolvimento Urbano do Estado de São Paulo, José Police Neto, é um dos que questionam a falta de união entre os parlamentares. “Temos dez deputados com voto e prestígio na região. Temos duas ex-primeiras-damas (Ana Carolina e Carla) e um filho de ex-prefeito (Thiago). Porém, onde estão as ações regionais? São duas esposas de pessoas que mandaram no Grande ABC. Alguma coisa tem de se tirar. Tem de se encontrar um projeto estratégico para atuação conjunta”, destacou.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL