Regionalidade

TITE SABOTADOR?
TITE COERENTE!

DANIEL LIMA - 17/01/2025

O prefeito Tite Campanella está sendo assediado sem parar. A meta dos novos interventores do Clube dos Prefeitos é fechar o círculo com sete prefeitos no Clube dos Prefeitos. A ausência de São Caetano tem significado broxante e emblemático.  A reunificação vale mais pela integralidade da entidade do que propriamente pela força político-econômica de São Caetano numa região em que esse oásis social não pesa muito no balanço geral, embora seja importante.

Tite Campanella é sabotar de uma regionalidade que se pretende para valer, embora se deva desconfiar muito disso, ou Tite Campanella resiste numa  correnteza sustentada na coerência? Acho melhor você escolher a segunda alternativa. Mesmo que lev e em conta a primeira.

O problema todo é que Tite Campanella é filho de Anacleto Campanella e Anacleto Campanella foi um dos líderes do processo emancipatório de São Caetano em meados do século passado. São Caetano trata a separação como conquista histórica, uma libertação. E tem motivos de sobra para comemorar. Goste-se ou não.

Tite Campanella sofre pressões de todos os lados. Ninguém  ainda atribuiu a ele a sentença condenatória de sabotador porque ele ainda poderia reintegrar São Caetano.

DISCURSO E AÇÕES

Há discursos de Tite Campanella como vereador enaltecendo os separatistas. Nenhuma surpresa. Se vazassem mensagens do que emite no celular provavelmente seria bem mais contundente.

Tite Campanella sabe que vai desagradar a muita gente que quer vender a ideia de que o Clube dos Prefeitos com sete não é um Clube de Prefeitos de mentirinha. O Clube dos Prefeitos com qualquer número de participantes é um Clube de Mentiras e Omissões Escandalosas.  

Querem um exemplo, entre dezenas? Procure em qualquer endereço midiático, no site da própria entidade, qual foi o tamanho do desastre econômico da região durante os dois anos demolidores da presidente Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016. Mais que isso: procure algum artigo, alguma análise, de quem quer que seja, exceto deste jornalista e desta publicação, que expõe as vísceras daquele que foi o período mais vilipendiado na história do Grande ABC.

Entendeu por que você não pode dar-se ao luxo da ignorância ou da negligência como consumidor de informação ao cair na conversa fiada de quem quer que seja, principalmente da mídia controlada, a respeito do desempenho do Clube dos Prefeitos? 

REPENSANDO POSIÇÃO

Tire dos 35 anos de trajetória do Clube dos Prefeitos alguns períodos produtivos, principalmente com Celso Daniel, idealizador da instância, e o restante, que é o quase-todo, mal serve a anotações.

No começo dessa história toda de utilizar o viagra motivacional da integralidade regional,  Tite Campanella admitiu recolocar São Caetano no Clube dos Prefeitos. Condicionou de passagem que para tanto deveria haver arrumação geral na entidade. Chegou a participar, antes mesmo da posse, de um encontro festivo em São Bernardo, com os demais prefeitos recém-eleitos. Divulgou-se que em seguida haveria novo encontro, agora em São Caetano. Não houve desdobramento algum.

Tite Campanella foi chamado elegantemente às falas pelas lideranças mais tradicionais de São Caetano. Gente que conviveu durante décadas com os separatistas. Lideranças que já foram para o outro plano. Resta apenas um deles, próximo a completar o centésimo aniversário. Mario Porfirio Rodrigues, o penúltimo, morreu há alguns dias. Estava prestes a completar 100 anos. Não faltaram homenagens. Mas nem tudo é perfeito. Mario Porfírio, jornalista dos anos 1940, foi sepultado em São Paulo, eterna Cinderela de nosso gataborralheirismo.

CONDENAÇÃO TÁCITA

Dos políticos em atividade que se manifestaram nos últimos tempos sobre o Clube dos Prefeitos, apenas o já ex-prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior, foi o único a desfilar sérias críticas à instituição, considerando-a caótica.

São Caetano de Auricchio se afastou do Clube dos Prefeitos há dois anos  juntamente com São Bernardo de Orlando Morando. Agora São Bernardo está de volta com o prefeito Marcelo Lima, a quem foi garantida a presidência do colegiado. Ou seja: será o prefeito dos prefeitos.

Mesmo sem parentesco com qualquer dos emancipacionistas da região, uma região cortada em sete pedaços indigestos entre si, não aceitaria colocar no Clube dos Prefeitos uma cidade supostamente sob minha titularidade no Paço Municipal. Faria série de condicionantes para não entrar numa fria. Acho que Tite Campanella nem assim aceitaria. O Clube dos Prefeitos, funcionando ou não, é uma condenação tácita ao esquartejamento territorial da região. Uma região na qual desembarquei na segunda metade dos anos 1960 e que aprendi a entendê-la como região, não cidades repartidas. 

GATA BORRALHEIRA

Não escrevi “Completo de Gata Borralheira” sob a intensidade da morte de Celso Daniel por outro motivo senão para mostrar o quanto a região sempre me preocupou e preocupa.

Por essas e outras quando ouço ou leio um determinado político da região soltar os pulmões -- numa ação típica de xenofobismo  -- e ressaltar o fato de ter nascido em Santo André,  fico fulo da vida. Primeiro porque é um desrespeito aos que não nasceram em Santo André. Seriam cidadãos de segunda categoria. Segundo porque é uma burrice política sem tamanho. Meu sentimento pessoal é também de milhares de moradores de Santo André. E no meu caso específico, homenageado que fui com o título de Cidadão Honorário, nada se altera.

Não precisaria de nada disso para me sentir cidadão de todos os municípios locais no sentido profissional, embora pessoalmente tenha minhas preferências em função de residência há mais tempo. Morei em três dos municípios da região e prefiro São Bernardo aos demais, embora meu coração seja mais andreense por conta do Ramalhão.

Faço essa digressão para tentar entender o que se passa com Tite Campanella ante a pressão que vem sofrendo. A mídia tenta vender a indecisão de Tite Campanella como algo natural, que vai se esvair em poucos dias. A mídia da região tem horror a escrever sobre emancipacionismo, como se emancipacionismo condenado fosse crime. 

EMANCIPACIONISTAS DO ADEMIR

Talvez alguns que me leem e sabem que não vou mais deixar de lado essa pauta que explica entre outras coisas o Complexo de Gata Borralheira da região,  provavelmente interpretem que  condeno as lideranças separatistas. Embora as veja como uma ação política, essencialmente política, não coloco no banco dos réus todos os adoradores daquela decisão.

Meu amigo Ademir Medici tem produzido  série de artigos no Diário do Grande ABC que remetem ao movimento de separar o que era único. Leio todos os textos com avidez. Admiro os propagadores do separatismo. Eles o fazem com convicção doutrinária, por assim dizer. Contam com grupos organizados, realizam eventos e prometem mais coisas.

Enquanto isso, é impossível contar mais que meia dúzia de regionalistas e muito menos dar um exemplo sequer de mobilização em torno da regionalidade. O que existe e não canso de afirmar são oportunistas em instituições supostamente regionais.

DATA INALCANÇÁVEL

Acho que quem perguntar aos atuais prefeitos do Clube dos Prefeitos ou a qualquer vereador qual é a data de criação do Clube dos Prefeitos, provavelmente recorrerão ao Google. Quem perguntar aos cultivadores do emancipacionismo a data de cada libertação municipal, receberá a resposta na lata.

A demagogia em torno da integração regional é espantosa e vem do passado distante. O prefeito de São Caetano dos anos 1990, Luiz Tortorello, era completamente avesso a qualquer coisa que fugisse do território de 15 quilômetros quadrados.

Entre as razões de Tortorello detestar a regionalidade, a principal  era um contemporâneo que o colocava no banco de reservas de grandiosidade que São Caetano tanto o reverenciava como homem público capaz de decifrar o DNA de cada morador que o elegeu.

Tortorello não suportava o brilho de Celso Daniel. Como determinados craques de futebol que tiveram a má sorte de contemporaneidade com gênios da bola. Tortorello nos dias de hoje seria um prefeito sobre o qual todas as luzes de reconhecimento e admiração o teriam como foco. Há mediocridades demais na praça.

Tite Campanella está a léguas de distância de Luiz Tortorello, quanto mais de Celso Daniel. Mas o ambiente regional o torna um prefeito com possibilidades de ocupar espaço destacado porque, repito, a concorrência está muito aquém da tradição popular de que políticos são magnetizadores. Temos prefeitos pirotécnicos na praça. As mídias sociais os expõem diariamente.

ATESTADO DE INGRATIDÃO

Fosse um prefeito esplendorosamente midiático, desses que arrancam aplausos a cada clicada no celular, Tite Campanella poderia até mesmo meter-se no Clube dos Prefeitos sem sofrer sequelas locais. Mas provavelmente ele não tomaria essa decisão. Contrariar o pai morto e enterrado seria imperdoável para a família Campanella. Uma admissão de passivo diante das consequências regionais daquela sucessão de fraturas expostas.

Acho que os prefeitos do Clube dos Prefeitos deveriam dar paz a Tite Campanella. Não o remetam à catacumba de uma culpabilidade que não é sua, mas está na raiz da frondosa família. Uma glória para São Caetano, cidade-exceção da região, mas uma tormenta à vizinhança desmembrada.

O Clube dos Prefeitos é uma tentativa de revogar o passado que não volta mais entre outras razões porque os 35 anos incompletos da instituição foram uma sucessão de fracassos. Enquanto isso, São Caetano é o único pedaço regional que deu certo, conforme estou registrando com dados insofismáveis numa série imperdível.

Deixem Tite Campanella em paz. Se ele recolocar São Caetano no seio do Clube dos Prefeitos, grande parte da população conservadora de São Caetano o crucificaria. Afinal, filho de emancipacionista que assina atestado de óbito das emancipações é filho e cidadão ingratos.



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