O encontro na semana passada de Paulinho Serra com o governador Tarcísio de Freitas reuniu confluências em direção ao mesmo buraco de contradições e constrangimentos. O ex-prefeito de Santo André, que dirige a massa falida do PSDB em São Paulo, fez-se acompanhar do líder tucano nacional, o inefável Aécio Neves. Somente borralheiros encontrariam ativos éticos nessa dupla sob os rigores do que a sociedade espera ou deveria esperar de políticos.
Paulinho Serra e Aécio Neves são de gerações diferentes, mas de identidade política muito semelhante. Só faltam os escândalos nacionais na vida de Paulinho Serra. Se Paulinho Serra imagina que é possível manter a sete chaves as complicações administrativas que registrou em Santo André e que foram abafadas por ramificações dos territorialistas que tomaram conta do pedaço, é melhor se preparar para os embates estaduais e nacionais que não costumam ser tão facilmente contornáveis nestes tempos em que o jornalismo tradicional foi abatido por redes sociais que, demônios à parte, contam com muita gente de qualidade crítica e independência, além de militantes que, bem ou mal, sempre oferecem um cardápio de provocações a ser avaliado. Ou seja: o jornalismo tradicional não tem mais a unilateralidade robusta ou insana do passado.
CASO NOVA CEASA
Só para dar um exemplo: o que esperaria por Paulinho Serra numa disputa eleitoral para um cargo importante no País caso houvesse interesse da mídia de grande porte em saber timtimportimtim tudo que envolve a participação de gente ligada ao conglomerado do Banco Master de Daniel Vorcaro no caso do anunciado investimento milionário Complexo da Nova Craisa, na Avenida dos Estados?
A então chamada Nova Ceasa revelou avarias deploráveis sobre a capacidade de o então prefeito Paulinho Serra arbitrar os efeitos econômicos em Santo André. Paulinho Serra afirmou aos jornais de papel que Santo André cresceria 10% assim que a obra fosse entregue. Se entreposto hortifrutigranjeiro fosse multiplicador de riquezas, não haveria município que deixaria de incentivar empreendimentos semelhantes. O PIB de Santo André patina estrepitosamente neste século. Não há efeitos especiais que deem jeito.
Foi durante a gestão de Paulinho Serra que se anunciou e se festejou o aporte milionário na Avenida dos Estados que até agora não se confirmou e pelo andar da carruagem jamais será levado adiante porque para levar adiante seria indispensável que a gênese da Nova Ceasa não fosse integrada por golpistas financeiros.
TUDO DOMINADO
Esmiuçar o contrato firmado entre a gestão de Paulinho Serra e ramificações de Daniel Vorcaro jamais passará pelo crivo do Legislativo de Santo André ou terá atenção do prefeito Gilvan Júnior. Tampouco da mídia regional. Até porque, se a mídia for adiante, não será respeitada e poderá, em vários casos, sofrer retaliações. Afinal, grande parte dos recursos publicitários da mídia regional advém diretamente dos cofres públicos ou de empresários aliados aos respectivos paços municipais.
Deve-se admitir, entretanto, que, como a moeda no mundo de votos e poderes é volátil, não seria insensatez encontrar vestígios positivos sob a perspectiva do pragmatismo naquele encontro de um Paulinho Serra de rabo entre as pernas com o governador à cavaleiro.
Há um faixa de eleitores que desprezam notabilidade ao preferirem notoriedade. Aliás, é o que mais temos nas praças. Não fosse isso, as muitas tranqueiras eleitas e reeleitas não passariam perto de qualquer coisa que lembrasse competência sem marquetismo.
Eleitores que desprezam tranqueiras políticas que se preparem, porque muitos dos representantes dessa fauna estão aí e devem se reeleger. As emendas parlamentares, além de cronicamente incentivadoras de falcatruas e de distorções na organização técnica dos recursos públicos, desequilibram o jogo sempre favorável aos detentores dos cargos.
CONSTRASTE LEGISLATIVO
Basta dar uma reparada em períodos eleitorais do quanto os eleitos no passado recente expõem visibilidade pública diante de concorrentes sem grandes investimentos partidários. A retroalimentação da mediocridade é incentivada pela legislação eleitoral e o sequestro do Executivo pelo Congresso Nacional. Nos municípios, como se sabe, é algo totalmente diferente. Vereadores são vaquinhas de presépio ou rebeldes inúteis.
A principal dimensão daquele encontro no Palácio dos Bandeirantes, costurado para evitar que os tucanos paulistas se despedaçassem de vez, foi constrangedora para Paulinho. De passado político-partidário incolor e inodoro, incapaz de sugerir legado a eventuais admiradores, exceto a torrencial capacidade de produzir mentiras e meias-verdades, Paulinho Serra teve de engolir a seco e dobrar-se às evidências.
Quais evidências? Sem aportes mesmo que simbólicos do governador do Estado, os tucanos sumiriam de vez do mapa eleitoral paulista e, entre eles, até mesmo potenciais vitoriosos, como Paulinho Serra.
CAINDO DO MURO
Há uma espada chamada quociente eleitoral na cabeça de Paulinho Serra. Os resultados das urnas podem não ser suficientes para alcançar a cota mínima de eleição. É verdade que a federação mantida com o Cidadania vai ajudar a construir votos, mas partidariamente está mais que encaminhada a completa dissolução do PSDB.
O tropeço de vender a bandeira de neutralidade disfarçada de maturidade provocou feridas profundas. Paulinho Serra execrou a direita bolsonarista e a esquerda petista num passado recente. Apostava no eleitorado de centro, rotulado de moderado.
Paulinho Serra acreditou no papo furado do marqueteiro Duda Mendonça de que a polarização política iria se desmanchar nestas eleições. Candidatos de centro estariam fadados ao sucesso. Só faltou combinar com o eleitorado.
Os eleitores centristas são cautelosos, quando não covardes, quando não procrastinadores. A vocação de todos eles ou grande parte deles é fazer eleitoralmente um regime de transição lento e gradual em direção aos extremos. Paulinho Serra precisou engatar uma marcha-a-ré e voltar-se ao bolsonarista Tarcísio de Freitas. Oportunista, correu para os braços bolsonaristas que antes execrou.
PASSADO PETISTA
O governador de bobo não tem nada. Sabe que Paulinho Serra tem muitos votos em Santo André, cidadela política sem polarização municipal porque o Partido dos Trabalhadores desmilinguiu-se de vez e os populistas que não podem ser chamados de direitistas, porque direitistas de verdade não têm o Estado como salvador da pátria, fizeram a festa nos oito anos de dois mandatos do tucano.
Um tucano, a bem da verdade, que só chegou à vitória no primeiro mandato ao incorporar parte da cúpula partidária do PT, despertíssima durante o desastroso governo de Dilma Rousseff. Era preciso saltar do barco petista do prefeito Carlos Grana e entregar-se ao vale-tudo de Paulinho Serra para se manter no poder municipal. A gestão de Carlos Grana estrebuchou por conta de Dilma Rousseff. Grana foi uma das vítimas preferenciais da presidente deposta na reta de chegada da disputa municipal.
O cacife que Paulinho Serra ofereceu ao governador para dizer nas entrelinhas ou no escurinho de gabinete foi a pesquisa do Datafolha para o governo do Estado. Ao oscilar entre 4% e 7%, dependendo dos concorrentes listados, Paulinho Serra revelou mais uma vez, estendendo portanto os dados do Instituto Paraná, que poderia ser no Estado o que se tornara em Santo André – um candidato bom de voto.
Entretanto, convém comedimento porque essas pesquisas que introduziram a alternativa de voto em Paulinho Serra sem que houvesse lastro para tanto, exceto as combinações de bastidores, não são necessariamente o que parecem ser.
IDENTIDADE FALSA
Primeiro, o contingente de eleitores que declararam voto de forma espontânea, de bate-pronto, não contemplou Paulinho Serra e vários dos pretensos concorrentes. E na pesquisa estimulada, quando se apresentam os nomes dos concorrentes, Paulinho Serra salta alguns pontos entre uma imensidão de eleitores que ainda não decidiram em quem votar. Provavelmente foi embalado por dois homônimos muito mais famosos: o comediante Paulinho Serra e o ex-governador José Serra. Faça um experimento no Google para ter certeza.
O marqueteiro Duda Mendonça, que cuida de Paulinho Serra como produto vendável, não determinou a caça ao diminutivo Paulinho Serra e introduziu a marca Paulo Serra senão com o objetivo já deliberado, após a eleição de 2016, de dar certa sobriedade ao vencedor daquela disputa eleitoral. Toda a mídia, a partir do primeiro mandato de prefeito de Paulinho Serra, passou a tratar o vencedor de Paulo Serra. Mantive Paulinho Serra assim como mantenho Gilvan Júnior e não Gilvan Ferreira porque não tenho apreço vocação a massa de manobra.
A política nacional está repleta de políticos que não se envergonham de diminutivos nominais. Basta dar uma espiada na relação de deputados federais, de deputados estaduais e também de senadores para constatar a realidade. Não é o aumentativo ou o diminutivo, ou a forma clássica, que altera a ordem de qualificação de políticos.
Paulinho Serra de CapitalSocial e Paulo Serra das demais mídias da região e do País são o mesmo produto político. A pasteurização dos marqueteiros é, portanto, uma iniciativa subjacente de desprezo pelo eleitorado. Ou não seria exatamente isso, desprezo pelo eleitorado, trocar o nome depois de o mesmo nome ter sido tomado de domínio público? No caso de Paulinho Serra, apesar das forçadas de barra da mídia, os eleitores de Santo André o identificam mesmo pelo diminutivo.
Segue, para comprovação de que a patacoada do grupo de Paulinho Serra não é uma análise sem fundamentação, a análise que fiz em agosto do ano passado. Está no texto que se segue a origem da capitulação de Paulinho Serra ao bom-senso e a cristalização do oportunismo político.
PAULINHO SERRA VAI MESMO
PEITAR LULA E BOLSONARO?
DANIEL LIMA -- 12/08/2025
Uma pesquisa do Instituto Ipsos-Ipec divulgada há alguns dias bota fogo na expectativa de sucesso da Terceira Via eleitoral que tem no ex-prefeito de Santo André, Paulinho Serra, um dos divulgadores, adesistas e pretensos beneficiários. Não tenho dúvida alguma de que Paulinho Serra, experimento do marqueteiro Duda Lima, excomungará a iniciativa porque a iniciativa é um tiro no pé. Aliás, essa operação já foi deflagrada. Dar um chega-pra-lá nos dois candidatos seria estupidez eleitoral.
O resumo da ópera é o seguinte: duvido e aposto com Paulinho Serra se ele terá coragem de confirmar na campanha eleitoral já posta nas ruas, nas telinhas, nas telonas e em tudo quanto é lugar, que execra tanto o bolsonarismo quanto o lulismo, como disse recentemente de forma literalmente suicida num País dividido ao meio, ou quase ao meio.
A coluna que Paulinho Serra assina no Diário do Grande ABC (Mais Gestão, Menos Polarização) é o eufemismo dos marqueteiros de Paulinho Serra para amenizar o prejuízo da declaração insensata do ponto de vista eleitoral até que esse ponto de vista eleitoral eventualmente se altere. O que está longe de ocorrer. No caso, o longe são as disputas do ano que vem.
RESISTÊNCIA RELATIVA
Mesmo com restrições a qualquer pesquisa eleitoral que seja divulgada sem que tenha acesso à metodologia, porque pesquisas eleitorais são em geral uma maneira de propagandismo de vieses não declarados, mas consumados em dados, mesmo assim acredito firmemente no Ipsos-Ipec. Há evidências que dispensam confirmações.
Afinal, a polarização com aderência de adesismos de áreas menos extremistas é uma realidade do ambiente político nacional. Não há espaço à Terceira Via que conhecemos há muito tempo e da qual Paulinho Serra é um dos exponentes da região. Terceira Via eleitoral é muito estreita – como mostrarei em seguida – e conta com grau de deslocamento à direita e à esquerda mais que oportunista.
Duvido que o político Paulinho Serra tenha a coragem de dizer ao povo em geral durante a campanha eleitoral que já começou que tanto Lula da Silva como Jair Bolsonaro não são flores de votos que se coloquem nas urnas eletrônicas.
VASELINAGEM PREVALECERÁ
No caso de Paulinho Serra, a vaselinagem ancorada em conselhos de marqueteiros prevalecerá, ou será restaurada, como já se nota. E Duda Lima, seu cuidador de votos, não cairá na besteira de que para ganhar votos Paulinho Serra deve deixar o muro em que geralmente se mete. Tanto é verdade que o programa de 30 minutos na TV Bandeirantes (que ainda não assisti) é, pela propaganda de lançamento, uma engenharia que foge da nominação de quem consta do senso nacional como direitista e esquerdista. Prevalece o conceito de gestão acima de polarização, como nas colunas do Diário do Grande ABC.
Escrito isso, importante para situar os leitores à ancoragem de regionalidade num tema nacional, caso da pesquisa do Instituto Ipsos, vamos então a algumas considerações, levando-se em conta, justamente, aqueles dados.
Leio com atenção de sempre no Valor Econômico o resultado da pesquisa do Ipso-Ipec sobre a polarização nacional e a margem de manobra, por dizer assim, àqueles que não querem nem Lula da Silva nem Jair Bolsonaro. Aparentemente, os 22% dos eleitores que rejeitam conjuntamente os dois principais líderes políticos do País podem sugerir uma margem de manobra razoavelmente robusta. Mas não é exatamente isso. Há condicionantes que demarcam o terreno a movimentações da Terceira Via. Aliás, está faltando uma pesquisa qualitativa e quantitativa para dissecar no sentido sensorial o que os eleitores interpretam como Terceira Via. A expressão está tão degastada que a esperteza de Duda Lima, o homem de Paulinho Serra, nem de longe foi levada a campo. Mais Gestão, Menos Polarização é a síntese de algo que não pode ser pronunciado.
REJEIÇÃO RECÍPROCA
Mas vamos de novo ao que interessa: além dos 22% que desprezam tanto Lula quanto Bolsonaro, os dois líderes têm o peso de 29% de rejeição individual (Lula) e 30% (Bolsonaro). Os dados da pesquisa são elucidativos porque até outro dia vários institutos de pesquisa alçavam às manchetes de jornais uma muito mais volumosa montanha de rejeição e, num tratado de estultice, alguns chamados especialistas no assunto, interpretavam como medida abrangente à totalidade dos eleitores.
Simplesmente esses analistas esqueceram que tendo maiores nacos de eleitores, não haveria como, numa sondagem de rejeição, tanto Lula quanto Bolsonaro absorverem pesos negativos mútuos. Por conta disso, a pesquisa Ipsos-Ipec descontamina reciprocidade entre lulistas e bolsonaristas dos dados finais. Sobraram 22% que, teoricamente, seriam o total de potencial eleitoral de um eventual reduto próprio. De fato e para valer, boa parte desses 22% vai aderir a Bolsonaro ou a Lula da Silva na possível reta de chegada de segundo turno no próximo ano. Completando os dados divulgados, 18% do eleitorado não rejeita Lula ou Bolsonaro.
Traduzindo tudo isso em termos práticos: apenas um quinto do eleitorado brasileiro estaria supostamente fora do enquadramento de polarização que o marqueteiro de Paulinho Serra tanto dissimila depois de soltar a franga de um antipetismo e um antibolsonarismo sem qualquer parentesco com o passado de adesismo à direita e à esquerda.
QUEM TEM CORAGEM?
O que isso significa é o que já expressei acima: quem terá a coragem, ou cometeria o suicídio eleitoral, de bradar conjuntamente contra Lula e Bolsonaro? Bradar conjuntamente quer dizer expor publicamente ojeriza ou algo semelhante aos dois concorrentes presidenciais.
O mais provável é que o andar da carruagem eleitoral para concorrentes a parlamentos determinará a desistência a qualquer intenção de libertação para valer da polarização. Os concorrentes correrão em direção a uma das extremidades. De fato são extremidades relativas porque o centro é um ponto de aglutinação e difusão de interesses tanto à direita quanto à esquerda, separando bolsonaristas e lulistas em forma de disfarces de autossobrevivência. A Terceira Via, portanto, não passa de uma faixa bem mais estreita do que os 22% apontados e que têm todas as características de voyerismo político até o bote final.
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10/03/2026 GUERRA ENSANDECIDA E PAZ SOB CONTROLE