Economia

JÁ IMAGINOU SE REGIÃO
FOSSE SÃO CAETANO? (4)

DANIEL LIMA - 11/06/2026

A complexidade e os desafios de uma Administração Pública não podem ser subestimados nem simplificados entre outras razões porque as peculiaridades de uma população navegam ao sabor de expectativas e demandas. Por isso, avaliar o destino de São Caetano como exemplo de suposta facilidade de governar só porque conta com muito mais recursos orçamentários que a vizinhança do Grande ABC pode ser um equívoco.

São Caetano é mesmo um exemplo disso. E os vizinhos do Grande ABC também. Os sete municípios separados em meados do século passado são uma prova dos nove à compreensão da própria individualidade no conjunto regional. Por isso que o guarda-chuva em forma de regionalidade pode ser o instrumento mais eficaz a determinadas resoluções.

Aparentemente, com os dados a seguir, seria impossível deixar de sustentar a ideia de que comandar a Prefeitura de São Caetano, qualquer que seja o titular do Palácio da Cerâmica, é substancialmente diferente dos demais prefeitos da região. Vejam um exemplo claro nessa direção.

MAIS QUE O DOBRO

Se o Grande ABC fosse São Caetano, o total de receitas com tributos de diversas origens municipais e de transferências governamentais, seria mais que o dobro da registrado. Os dados são os mais atualizados pela Secretaria do Tesouro Nacional em 2024.

O orçamento geral das sete prefeituras da região em 2024 (os dados do ano passado devem ser anunciados nos próximos meses) registrou o total de R$ 17.459.817 bilhões. Comparar dados orçamentários sem levar em conta o que conta de fato, ou seja, os valores relativos traduzidos em números por habitante, seria um tropeço avaliativo monumental. Não se podem comparar números, em qualquer tipo de confronto, sem considerar o tamanho demográfico dos endereços.

Os mais de R$ 17 bilhões da soma das receitas totais dos sete municípios seriam nada menos que R$ 41. 550.463 bilhões caso as sete cidades divididas  no passado dessem lugar a  São Caetano no Grande ABC, com a diferença de que ao invés de quase 170 mil habitantes, o comparativo envolveria quase três milhões.

SUPERANDO ESTRAGOS

Projetar o Grande ABC do presente com base nos dados individuais de São Caetano em qualquer tipo de indicador econômico, social ou fiscal é a maneira que encontrei não para desenhar o irrealismo num ritual de choradeira. Nada disso. O sentido é outro. É uma forma de mostrar como o Grande ABC está longe de ser uniforme como gente precipitada acredita que seja, botando tudo no mesmo balaio de gatos.

Se na metade do século passado poderia parecer que São Caetano se deu mal porque desmembrou-se como pequeno pedaço do território de Santo André, o tempo provou que foi a melhor jogada do mundo. Como já escrevi, os 15 quilômetros quadrados então industrializados, a vizinhança com bairros mais bem organizados da Capital e a praticamente ausência de espaço de periferização habitacional deram a São Caetano trajetória de robustas vantagens ocupacionais.

Tanto que basta consultar o mapa demográfico de São Caetano ao longo de décadas para constatar que houve baixíssima variável populacional e, mais que isso, de perfil econômico que a manteve como território acentuadamente de classe média. Nem a desindustrialização que colheu São Caetano (e toda a região)  de frente abalou a distribuição socioeconômica, como mostramos em outro capítulo.

DISTÂNCIA ELEVADA

São Bernardo é a cidade do Grande ABC que mais se aproxima do valor per capita orçamentário da líder São Caetano. Aproxima não é bem o verbete apropriado. Afinal, São Bernardo registrou R$ 7.582,38 per capita em 2024, valor correspondente à metade dos R$ 15.119,92de São Caetano. Santo André vem em seguida com R$ 5.319,21 por habitante. Um pouco acima de Diadema, que registrou R$ 4.763,03. Ribeirão Pires registrou R$4.728,36. Mauá vem em seguida com arrecadação total de impostos de R$3.952,94 por habitante. Rio Grande da Serra está do lado oposto de São Caetano, com arrecadação geral de R$ 3.490.80 por habitante. Quase cinco vezes menos.

O que colocaria os sete municípios do Grande ABC em termos de relatividade de exigências dos moradores poderia ser resumido com o uso de analogias. São Caetano é um condomínio residencial de ricos e de classe média tradicional. Santo André e um pouco menos São Bernardo reúnem classe média-baixa. Diadema e Mauá contam com classe média precária e Rio Grande da Serra com pobres e miseráveis. Quatro categorias diferentes, de acordo com os valores por habitante do balanço orçamentário.

Pagam-se comparativamente mais impostos para morar em São Caetano do que nos demais municípios do Grande ABC, e por isso mesmo o nível de exigências da população também está acima da vizinhança. Uma cidade que poderia sim ser rotulada de primeiro mundo com serviços públicos de terceiro mundo seria o caos. E seria impossível uma cidade de terceiro mundo acomodar população com infraestrutura de primeiro mundo. É assim que a banda toca.

MUITA DIFERENÇA

A conta que leva em conta que o Grande ABC em formato de São Caetano teria receitas públicas mais que o dobro da média do próprio Grande ABC é de cálculo simples, mas irrebatível. Basta pegar o valor per capita de São Caetano (R$ 15.119,92) e multiplicar pela população do Grande ABC de 2024 (2.721.909 habitantes). Resultado? R$ 41.550. 463 bilhões.

No mundo real, entretanto, o Grande ABC de 2024 e sete cidades distintas no orçamento público, registrou R$ 17.459.817 bilhões. Uma diferença de R$ 23.675.338 bilhões. A média das receitas das sete prefeituras em 2024 chegou a R$ 6.414.55 mil. Se o Grande ABC fosse São Caetano chegaria ao já mencionado valor de R$ 15.119,92 mil por habitante.

É uma pena que o perfil econômico e social de São Caetano não possa servir de meta aos demais municípios do Grande ABC. Os requisitos tão específicos e incrustrados nos 15 quilômetros quadrado tornam eventual tentativa nada além de onírica. Como transplantar para o Grande ABC como um todo a divisão socioeconômica de São Caetano já explorada nesta série? Praticamente nada do que é São Caetano serviria mesmo de benchmarking aos demais municípios locais.

MUITAS VANTAGENS

Nenhum outro município da região tem na vizinhança bairros de classe média da Capital. Nenhum outro município da região atraiu moradores prevalecentemente de classe média tradicional como São Caetano. Nenhum município da região conta com perfil de indicadores sociais de São Caetano, sempre entre os principais endereços nacionais em dezenas de dados devassados por especialistas. Nada que São Caetano tenha de melhor como condomínio habitacional de luxo, ou próximo disso, está ao alcance do entorno regional, exceto, claro, em nichos como alguns bairros de Santo André, principalmente.

Nesse caso, diante de impossibilidades práticas, só restaria paradoxalmente ao Grande ABC como um todo inspirar-se em São Caetano para, na medida do possível que os respectivos orçamentos permitem,  chegar o mais próximo possível de resultados inalcançáveis, mas muito mais factíveis caso não houvesse, de novo paradoxalmente, uma São Caetano tão próxima e invejável para os padrões da região e do País como um todo.



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