Gilvan Ferreira pegou o maior abacaxi econômico do Grande ABC ao ganhar as eleições de 2024 e se tornar o prefeito mais jovem da história local. A herança deixada pelo prefeito Paulinho Serra (e também por Dilma Rousseff) no período de sete dos oito anos já contabilizados, a bordo do desastre da maior recessão da história regional, entre 2014 e 2016, fez com que o PIB per capita de Santo André sofresse queda monumental de 783 posições no Ranking Brasileiro. Nada menos que cinco vezes a soma das perdas de São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá. Santo André desabou entre os mais de cinco mil municípios do País.
PIB per capita é a métrica mais ajuizada para aferir o desempenho econômico de qualquer endereço territorial. Diferentemente do PIB Geral, deformado pela dimensão demográfica, o PIB per capita coloca todos os municípios, estados e nações no mesmo recipiente de análises. Os resultados são divididos pelo total de moradores. Essa metodologia consagrada internacionalmente vale praticamente para tudo que precisa ser uniformizado. O ranking de criminalidade opera com essa ótica, entre tantos outros indicadores. Portanto, não há prestidigitação de qualquer espécie para esquadrinhar a situação de Santo André e dos demais municípios.
O balanço desses sete anos pós-Dilma Rousseff é dramático. O resultado principalmente de Santo André significa que o Grande ABC como um todo, embora em tons menos sombrios, é o fundo do poço de um poço que parecia ter chegado ao limite de profundidade.
PAGANDO O PATO
Afinal, quando Dilma Rousseff foi apeada do cargo de presidente, em 2016, ano anterior às eleições municipais, o desastre regional estava consumado em forma de queda de 22% do PIB Geral, desconsiderando-se, portanto, o fator populacional. Foi a maior catástrofe da história do Grande ABC e teve impacto três vezes maior que a queda do PIB Nacional, de 8% naquelas duas temporadas.
Quem está pagando o pato com um abacaxi a descascar de perspectivas preocupantes é o prefeito Gilvan Ferreira. Não bastasse a queda do PIB per capita que, em última análise, é o empobrecimento na carne, Gilvan Ferreira recebeu como herança de Paulinho Serra uma cidade que ocupa posições alarmantes também num dos principais rankings do País, elaborado pelo CLP (Centro de Liderança Pública). O estudo reúne quatro centenas dos municípios com mais de 80 mil habitantes. Santo André cai pelas tabelas em diferentes indicadores.
Se tudo isso ainda não bastasse, no ranking do G-22, integrado pelos 20 maiores municípios paulistas (menos a Capital e contando com Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra apenas informalmente), Santo André desabou à última colocação no PIB per capita. Ou seja: em qualquer critério a situação de Santo André é desastrosa. Uma realidade aparentemente compatível com o despreparo do então prefeito Paulinho Serra durante dois mandatos. Esse desabamento é registrado nesse período. Falta apenas o ano de 2024. Quem acredita em melhora na temporada final de Paulinho Serra provavelmente está sob efeitos alucinógenos provocados por eficientíssima máquina de marketing.
Tudo isso, como se observa, significa que os resultados de Santo André em confronto com diversas categorias de municípios são sempre muito abaixo do necessário para estimular a qualidade de vida e autoestima dos moradores. Pior: tem comprometido cada vez mais a dinâmica econômica e social.
MUITO MAIS DELICADA
Transformando em miúdos: o prefeito Gilvan Ferreira tem mais que múltiplos desafios pela frente: além de estancar o vazamento torrencial da Economia de Santo André pós-Dilma Rousseff, quando se imaginava que haveria alguma recuperação, precisará agir com destreza administrativa além da conta para melhorar posicionamentos em vários indicadores.
A situação de Santo André no Ranking Nacional de PIB per capita é mesmo a mais delicada no Grande ABC. Tanto que entre os cinco maiores municípios locais que constam do estudo, é a única que, nos sete anos pós-Dilma e Paulinho Serra, acusou o golpe de perder riqueza por habitantes inclusive para a inflação do período. Ou seja: houve queda real do PIB per capita de Santo André. Os demais municípios cresceram relativamente abaixo do esperado e por isso mesmo foram ultrapassados com a queda coletiva de 148 posições. Vejam a situação de cada endereço regional.
1. Santo André contava com PIB per capita de R$ 37.653,34 mil em 2016 e passou para R$ 49.312,88 em 2023. Crescimento nominal de 30,96%, abaixo portanto do IPCA do IBGE. Ocupava a posição 632 no ranking nacional, e passou para a posição 1.415.
2. São Caetano contava com PIB per capita de R$ 81.604,58 em 2016 e passou para R$ 136.147,10 em 2023, com crescimento nominal de 66,83%. Ocupava a posição 78 e passou para a posição 132 no ranking nacional.
3. Diadema contava com PIB per capita de R$ 32.321,86 em 2016 e passou para R$ 53.985,47 em 2023, com crescimento nominal de 67,02%.Ocupava a posição 903 e passou para a posição 1.186 no ranking nacional.
4. São Bernardo contava com PIB per capita de R$ 52.567,04 em 2016 e passou para R$ 88.766,77 em 2023, com crescimento nominal de 68,86%. Ocupava a posição 239 e passou para a posição 371 no ranking nacional.
5. Mauá contava com PIB per capita de 31.766,98 em 2016 e passou para R$ 59.773,04 em 2023, com crescimento nominal de 88,16%.Ocupava a posição 934 e passou para 944.
MAUÁ MUITO MELHOR
O peso relativo do que poderia ser chamado de responsabilidade de um prefeito no resultado final do comportamento da economia do Município em determinado período precisa ser observado com atenção. Cada realidade municipal e mesmo nuances de uma região como o Grande ABC representa essa relatividade. No caso da derrocada de Santo André no PIB per capita, o que se constata é a inabilidade, quando não a incompetência, de Santo André de Paulinho Serra reagir às barbeiragens do governo Dilma Rousseff.
Mais e mais Santo André sofre com a Doença Holandesa Petroquímica e Química quando se observa o comportamento do PIB por habitante. Afinal, por que a mesma enfermidade econômica está elevando o PIB per capita da vizinha Mauá, enquanto Santo André sofre efeitos adversos?
Acontece que a dependência de Mauá do Polo Petroquímico e ramificações da indústria química é muito maior que a registrada por Santo André. Como o setor petroquímico gera muito imposto, acaba por alimentar os recursos orçamentários da Prefeitura, mesmo sem dar densidade ao mercado de trabalho como o setor automotivo, por exemplo.
Menos dependente do Polo Petroquímico em relação a Mauá, Santo André sofre a cada temporada com o desmoronamento de cadeias produtivas dos demais setores industriais. Isso vem do passado e se agrava no presente, porque não se encontra alternativa de produção.
RIQUEZA PERDIDA
Santo André sofreu tanta queda de produção industrial de setores variados que a riqueza acumulada pela população perdeu fôlego e se contraiu. A vantagem relativa do PIB per capita de Santo André sobre Mauá foi se desmanchando ao longo dos anos. O prefeito Paulinho Serra nada fez de efetivo para instaurar um ambiente de reação.
Pior que isso: o marketing de que tudo está cor de rosa prevaleceu o tempo todo, com mistificações que não se sustentaram. O setor de serviços de Santo André e da região como um todo está longe de oferecer tração econômica que minimize as perdas industriais porque é de baixo valor agregado. Longe, portanto, da exuberância da Capital.
Embora Mauá apresente no balanço do PIB per capita de 2023 resultados mais positivos que Santo André, é preciso considerar que o crescimento desses sete anos analisados ainda é temporalmente insuficiente para superar Santo André em qualidade de vida. Os dados estatísticos da Agencia de Liderança Pública mostram isso.
Explicando: a qualidade de vida média de Santo André conta com indicadores superiores aos registrados em Mauá. Afinal, a riqueza interrompida de Santo André veio do passado, acumulou vantagens sobre a vizinhança petroquímica e com isso conta com reservas de valor que se contraem a cada nova temporada.
A trajetória inversa do PIB per capita registrada nos últimos sete anos obedece a duas curvas assimétricas: Santo André cai gradativamente enquanto Mauá sobe também gradativamente, mas a distância anterior em acumulação de riqueza consolidada especialmente no PIB de Consumo garante eventual ultrapassagem bastante improvável na próxima década.
PROVA DA DERROCADA
Em outubro de 2024, pouco depois da vitória eleitoral de Gilvan Ferreira em Santo André, escrevi sobre pelo menos 19 desafios que o aguardavam na Prefeitura. E advertia que tapar o sol da realidade com a peneira do triunfalismo seria a pior alternativa de administração. “Isso significa, sem exceção, que Gilvan Júnior precisará exorcizar inclusive o entulho econômico que recebeu do prefeito que o levou à eleição. Isso significa, também, que Gilvan Júnior vai precisar rasgar a fantasia de continuidade festiva porque a continuidade não é nada interessante se for levada a cabo como continuidade mesmo” – escrevi naquela edição de CapitalSocial.
Também escrevi que Santo André ocupava em Desenvolvimento Econômico a posição 207 entre os 404 municípios brasileiros com mais de 80 mil habitantes. “Pior que isso: a decadência se acentua a cada nova temporada. É um desfiladeiro sem fim. Só existe uma avaliação pior do que a própria avaliação econômica de Santo André que Gilvan Júnior receberá em janeiro: a negação de que a situação é crítica” -- analisei. E fui adiante nas ressalvas: “ É uma situação que está crítica, mas muito crítica mesmo. Santo André sofre do que poderia ser chamado de efeito-sapo. Todo sapo com Síndrome de Sapo morre na medida em que é metido em água fria e não se dá conta de que a água vai ganhando temperatura até ferver”.
Aquela análise de outubro de 2024 também registrava: “ A água do Desenvolvimento Econômico de Santo André já ferveu há muito tempo. Muitos já se deram conta do efeito-sapo, mas ainda há resistência. O prefeito Paulinho Serra passou oito anos desfilando entusiasmo tecnicamente vazio. É isso que se coloca diante de Gilvan Júnior. O sapo do prefeito Paulinho Serra era ilusoriamente um sapo sempre na água fria”.
MAIS PROVAS
O artigo concentrou-se no desempenho de Santo André então consumado nos estudos da Agência de Liderança Pública. “A posição 207 na dimensão de Desenvolvimento Econômico entre 404 municípios brasileiros é reveladora da inoperância do Poder Público Municipal na gestão econômica de Santo André. Mas os estragos não se limitam ao Desenvolvimento Econômico. Santo André também vai mal em Gestão Fiscal e Gestão Social, que reúnem 46 indicadores”.
Detalhe: “ O Ranking de Competividade dos Municípios Brasileiros na dimensão de Desenvolvimento Econômico reúne quatro macroindicadores e 19 indicadores. Os estudos analisaram dados referentes à Capital Humano, Inovação e Dinamismo Econômico, Inserção Econômica e Telecomunicações. Um dos nós górdios à reação de Santo André sob o comando de Gilvan Júnior a partir de janeiro do ano que vem é o PIB per Capita. Não se trata de um quesito qualquer. Para melhorar o PIB per Capita é preciso série de intervenções econômicas. A perspectiva é das piores. O movimento é lento, gradual, e envolve série de condicionantes!”—escrevi.
E segui adiante na análise: “Para melhorar na colocação e também nos números precisará superar quem está em melhor condição. Ou seja: não basta crescer, mas é preciso crescer mais ante municípios que estão em vantagem. PIB per Capita não é uma corrida de 100 metros rasos. É uma maratona. E Santo André vem perdendo fôlego há mais de 40 anos. Gilvan Júnior terá grau máximo de dificuldade para conseguir sucesso nesse indicador. O PIB per Capita está incluído no Macroindicador de Inovação e Dinamismo Econômico. Nesse recorte, Santo André está na posição 118 entre os 404 municípios. Ou seja: melhor do que no Macroindicador de Desenvolvimento Econômico” – expliquei naquele outubro de 2024.
MAIS PROVAS
E prossegui: “A melhor posição de Santo André no Macroindicador de Inovação e Dinamismo Econômico está na área de Recursos para Pesquisa e Desenvolvimento Cientifico, ao ocupar a posição 60. Um pouco abaixo está Complexidade Econômica, na posição 65. Os demais indicadores de Inovação e Dinamismo Econômico são frustrantes. Em Crédito per Capita Santo André é a colocada 205, em Crescimento da Renda do Trabalhador Formal é a 214ª. Em Crescimento do PIB per Capita é a 174ª colocada. Em Empregos do Setor Criativo é a 206ª colocada. Em Renda Média do Trabalhador Formal é a 115ª colocada”.
Mais análise pós-vitória eleitoral de Gilvan Ferreira: “No Macroindicador de Capital Humano a posição geral de Santo André é sofrível: 177ª colocada. São quatro indicadores no Ranking de Competitividade dos Municípios Brasileiros. A posição 204 em Qualificação dos Trabalhadores em Emprego Formal é a pior. Não fica tão distante da posição 171 de Taxa Bruta de Matrícula de Ensino Técnico Profissionalizante. Nem da posição 162 de Taxa Bruta de Matricula no Ensino Superior. Menos lastimável é a posição 93 de Santo André no Macroindicador de Inserção Econômica, que reúne três indicadores. Mas o único indicador menos grave é o de População Vulnerável, ao ocupar a posição 59. Nos demais, só fracassos: posição 226 em Crescimento de Empregos Formais e posição 145 em Formalidade do Mercado de Trabalho”.
A análise se completou com o macroindicador de Telecomunicações: “Para completar o ranking de Desenvolvimento Econômico de Santo André entre 404 municípios com mais de 80 mil habitantes, o macroindicador de Telecomunicações é o desastre final: está na posição 386 ao fim do balanço de cinco indicadores. Chegou-se ao caos absoluto. O que poderia ser uma vantagem para Gilvan Júnior. Afinal, piorar é impossível. No indicador de Acesso de Banda Larga, Santo André ocupa a posição 88. É a melhor entre as cinco mensuradas. Em Acesso de Banda Larga de Alta Velocidade é a 198ª colocada. Em Acessos de Banda Larga de Fibra Ótica é a 393ª colocada. Em Acessos de Telefonia Móvel é a 285ª colocada. E em Acesso de Telefonia Móvel 4G ocupa a posição 375” -- completei.
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