Esportes

Ramalhão vive nos últimos 40 meses
maior crise da história de 43 anos

DANIEL LIMA - 23/08/2010

Vou fazer o possível para não me alongar neste texto, mas de antemão aviso que não será fácil. Fiz uma relação do que chamaria de “Os 10 pecados capitais” do Ramalhão, 40 meses depois (em maio de 2007) de o futebol de Santo André ser transferido do controle do Esporte Clube Santo André para o Saged (Santo André Gestão Empresarial e Desportiva) comandado no período de fato ou de direito pelo empresário Ronan Maria Pinto, presidente do Diário do Grande ABC. Antes de listar os 10 pontos sobre os quais costuro avaliações, conclusões, impressões e o que os leitores entenderem como posicionamento crítico, vou resumir a concepção jurídica que move o futebol de Santo André.


Ramalhão deve ser entendido como o time de futebol que atua na Série B do Campeonato Brasileiro, hoje na zona de rebaixamento, ontem vice-campeão paulista, no passado campeão da Copa do Brasil. Quem administra o Ramalhão é o Saged, comandado por Ronan Maria Pinto.


Até maio de 2007 o Esporte Clube Santo André, em regime de voluntariado, como clube associativo, gerenciava o futebol da cidade. O EC Santo André, então com a denominação de Santo André Futebol Clube, foi fundado em setembro de 1967. Em 1974 ganhou nova identidade: Esporte Clube Santo André. A história não sofreu mudança alguma. A troca de “Futebol Clube” por “Esporte Clube” foi apenas formalidade jurídica na tentativa de evitar cobranças de dívidas do “Esporte Clube”, medida preventiva adotada inutilmente pelo então novo presidente da agremiação, o empresário Acyr de Souza Lopes. Ficou Esporte Clube Santo André como substituto de Santo André Futebol Clube.


O Esporte Clube Santo André é reconhecido historicamente como continuidade do Santo André Futebol Clube. Apenas a partir de maio de 2007, quando surgiu o Saged, o Esporte Clube Santo André desvinculou o departamento de futebol profissional de suas atividades. Ou seja: o Ramalhão seguiu como marca do Esporte Clube Santo André, mas virou objeto principal do clube-empresa chamado Saged. Feitos esses esclarecimentos, esse texto se torna mais didático.


Quais são os 10 pecados capitais do Ramalhão?


1. Falta de perspectiva econômica.


2. Fôlego financeiro escasso.


3. Imagem desgastada.


4. Complicações corporativas.


5. Penumbra institucional.


6. Marginalidade comunitária.


7. Pendências jurídicas.


8. Definhamento estrutural.


9. Dificuldades esportivas.


10. Mistureba política.


Poderia me estender pelos próximos 10 dias sobre cada um desses tópicos, mas a paciência dos leitores talvez não suportasse tanto. Por isso, faço resumo certo de que estarei atendendo à demanda reprimida de informações que parcela importante de esportistas do Grande ABC exige como contrapartida à função jornalística. E certo também quanto me custará, mais uma vez, opor-me a situações cujos protagonistas pretendem manter submersas.


1. Falta de perspectiva econômica. Esse é o principal nó que coloca o Ramalhão na marca de pênalti. As receitas disponíveis são limitadas demais para as ambições e o atrevimento do presidente Ronan Maria Pinto. Embora tanto os dirigentes do Esporte Clube Santo André como do Saged façam segredo do balanço de 40 meses do clube-empresa, fontes asseguram que o déficit já está consumado em R$ 8 milhões e chegará a R$ 12 milhões até o final do ano. Ou seja: em 45 meses dessa nova modalidade de gestão do futebol de Santo André, o buraco será descomunal. O total de R$ 12 milhões significará mais que a receita bruta do Saged nesta temporada. Ou seja: o Ramalhão atingirá dívida muito acima da capacidade de amortização num quadro de normalidade. A capacidade de o Saged gerar receitas para manter o Ramalhão está muito aquém do necessário. O presidente Ronan Maria Pinto desafia os números. Joga com a sorte de negociar jogadores. O time vice-campeão paulista foi desmantelado por valor total que não chegaria a R$ 3 milhões, uma ninharia para os custos do Saged. Esse número não é oficial. O Saged em primeiro plano e o Esporte Clube Santo André, subalternamente, desprezam transparência. Seguramente, entretanto, o valor apontado é muito próximo da realidade.


2. Fôlego financeiro escasso. Sem perspectiva de equilíbrio orçamentário, o cotidiano de gerenciamento do Ramalhão é um tormento para o Saged. Por isso os empréstimos de terceiros e dívidas com fornecedores, somando-se impostos, já alcançam R$ 8 milhões em 40 meses. Trata-se de calamidade financeira. O repasse do futebol do Ramalhão foi um Negócio da China para o Saged. Não vou entrar em detalhes sobre as razões que me conduzem à definição de Negócio da China, mas procurarei detalhar a operação nos próximos dias. Resumidamente, o Ramalhão foi entregue ao Saged sem dívida alguma, já que o Esporte Clube Santo André ficou com compromissos financeiros anteriores à data da transferência da administração do futebol. Mais que isso: a capitalização do clube-empresa gerou receitas unicamente para o Saged. Na toada em que o Ramalhão vai indo, estará integralmente comprometido em menos de cinco anos. Será um mico do qual todos fugirão.


3. Imagem desgastada. O Ramalhão não tem boa imagem pública fora do campo esportivo, e mesmo assim de abrangência bastante restrita, apesar do sucesso no Campeonato Paulista. São muitas as razões, mas principalmente porque não se introduziu jamais um plano de marketing. Embora existam muitas dificuldades para os clubes que vivem na penumbra tecnológica, sem emissoras de TV abertas, o Ramalhão aceita passivamente a situação como fatalista. As recentes críticas de Ronan Maria Pinto aos jogadores foi um tiro no próprio pé empresarial. Situação inconcebível num regime de fato econômico e que soa como esculhambação de uma linha de produtos pelo próprio fabricante.


4. Complicações corporativas. Acionistas do Ramalhão vivem às turras com o presidente Ronan Maria Pinto. Os bastidores fervem, mas ninguém tem coragem suficiente para encarar o dirigente. Entretanto, aos poucos a insatisfação ganha corpo, principalmente entre quem não está sob o guarda-chuva do presidente. O quadro de acionistas do Saged é majoritariamente Ronanzista. De forma direta e indireta o dirigente se apossou da maioria das ações. O Esporte Clube Santo André está numa enrascada porque tem 20% das ações mas não detém qualquer porção de poder. E poderá ficar com grande soma dos prejuízos acumulados. Ronan Maria Pinto dirige o Ramalhão com mão de ferro e blindagem obsessiva à transparência.


5. Penumbra institucional. O Ramalhão não tem relacionamento produtivo com entidades sociais, econômicas, culturais e esportivas. É, como a maioria dessas próprias instituições, um pedaço isolado do mundo municipal e regional. O fracasso na venda de ações que levaram à composição do Saged é uma das faces de representatividade apática. Ainda há vagas para acionistas, mas faltam interessados entre outros motivos porque o regime é absolutista.


6. Marginalidade comunitária. O Ramalhão é um estranho no ninho de Santo André e do Grande ABC, porque não mantém integração com a sociedade. A contratação do ex-voleibolista Antonio Carlos Moreno para pretensa massificação popular é apenas um tiro numa guerra de mísseis, porque a ação exige participação coletiva de dirigentes, conselheiros, acionistas e entidades diversas, além de suporte de marketing. O quadro associativo do Esporte Clube Santo André, com mais de 40 mil pessoas entre titulares e familiares, jamais foi devidamente tocado para engrossar a torcida do Ramalhão. Mais que isso: com a constituição do Saged, o Esporte Clube Santo André foi praticamente deslocado do planejamento do futebol. O Tobogã ocupado por menos da metade de torcedores ramalhinos na decisão do Campeonato Paulista contra o Santos é o retrato da viuvez esportiva do Ramalhão.


7. Pendências jurídicas. A relação entre Saged e Esporte Clube Santo André estimula complicações jurídicas. Há pontos mal-aparados e clara desobediência a um até prova em contrário misterioso contrato de autorização ao gerenciamento do Ramalhão pelo Saged. Há informações seguras de que o Saged já deu motivos de sobra para rompimento do contrato. Entretanto, no Esporte Clube Santo André ninguém tem suficiente determinação para avocar impropriedades. As dívidas de 40 meses tornaram-se obstáculo à volta do futebol ao berço clubístico. Teme-se que Ronan Maria Pinto decida abandonar o barco na Série C ou, em operação de salvamento de novo rebaixamento, comprometa ainda mais as finanças.


8. Definhamento estrutural. O Saged é um clube-empresa que tem o presidente Ronan Maria Pinto como senhor absoluto. A estrutura funcional é limitada demais para as obrigações orçamentárias. Ou seja: o Saged é uma organização de pequeno porte para os objetivos que se anunciaram revolucionários na condução do Ramalhão. Os acionistas não têm participação efetiva na administração do clube-empresa. Trata-se de uma sociedade limitada administrada personalizadamente.


9. Dificuldades esportivas. O momento dramático da equipe na Série B do Campeonato Brasileiro, competição em que ocupa a zona de rebaixamento, é consequência, entre outras variáveis, do centralismo de Ronan Maria Pinto e das armadilhas orçamentárias que já debilitam a sustentação de uma equipe de nível superior. Resultados extraordinários, como foi o caso do vice-campeonato paulista, são uma exceção, um ponto fora do padrão. Já ocorreu antes, inclusive com a conquista da Copa do Brasil, de consequências financeiras incontornáveis na sequência, por conta da deficiente infra-estrutura. O Ramalhão não pode ter orçamento de time médio porque a estrutura é de clube-empresa pequeno. O sucesso eventual contrata novos patamares de investimentos que de fato são insustentáveis.


10. Mistureba política. No passado recente, por conta do apoio da Prefeitura de Santo André do então prefeito Celso Daniel, o Ramalhão deixou-se levar pela política partidária. Deu vez aos interesses do Paço Municipal em troca de suporte financeiro que redundou na conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior e, dois anos depois, da Copa do Brasil. Agora, na gestão de Ronan Maria Pinto, o Ramalhão virou campo político-partidário diferente. Primeiro foi Marcelinho Carioca, depois o vice-presidente Romualdo Magro Júnior, candidatos nestas eleições proporcionais. Também há acionistas envolvidos em disputa eleitoral. Todos sob o embalo de Ronan Maria Pinto. A mistura entre futebol e política contribui para azedar relações institucionais e agrava problema de imagem.


Todas ou quase todas essas questões não são recentes na história do Ramalhão. A diferença em relação ao passado de Esporte Clube Santo André e de presente de Saged é que houve agravamento do quadro de pecados capitais. Tudo muito diferente das promessas de um novo Ramalhão.


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