A maior surpresa das eleições nesta temporada no Grande ABC tem nome de batismo e endereço político consagrado : Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo e até outro dia eficiente e badaladíssimo secretário de Segurança Pública da cidade de São Paulo. Orlando Morando era um dos favoritos a constar da lista dos 10 candidatos a deputado federal mais votados entre os paulistas. Projeções predominantes de cerca de 300 mil votos pareciam conservadoras. Orlando Morando totalizou 102.086. Terminou entre os 50 primeiros, mas o regulamento eleitoral tem critérios de distribuição de vagas que relativizam a quantidade. De deputado eleito virou primeiro suplente. Deve estar em Brasília no próximo ano.
A pergunta mais insistente na região ganha tom especulativo sobre as razões que levaram Orlando Morando a amargar o placar. É o que tentamos responder em seguida, com a advertência em forma de cautela: dados disponíveis e subjetividades eleitorais interrompem o circuito de afirmações peremptórias. Tudo o que se segue, portanto, conta com alto teor de arbitrariedade autoral.
Há vulnerabilidades à mineração de números e contextos de microcosmos eleitorais, principalmente em São Bernardo, reduto que se esperava garantidor da vitória de Orlando Morando. Os pouco mais de 40 mil votos se converteram em revés. Um resultado, portanto, muito aquém da condição elementar ao triunfo de políticos que contam com redutos próprios.
SANTO ANDRÉ DE VIA ÚNICA
Basta comparar com Paulinho Serra, também ex-prefeito de dois mandatos seguidos, como Orlando Morando, e que somou 103 mil votos em Santo André, volume suficiente para assegurar vaga em Brasília.
É verdade que a disputa política em São Bernardo é muito mais encardida. Três grupos distintos jogam pesado. Paulinho Serra atua num território em que o PT municipal há muito vive na miséria eleitoral e não há nem sombra de terceira via. Em São Bernardo há três vias competitivas, do prefeito Marcelo Lima, de Orlando Morando e de um PT resiliente no berço-símbolo que sempre o embalou.
Tudo isso quer dizer que talvez o somatório dos potenciais fatos e subjetividades registrados domingo passado envolvendo Orlando Morando possa iluminar o caminho de análise que dê consistência a um diagnóstico que não flerte com a chutometria. Ou seja: quem juntar as avaliações dos cinco quesitos abaixo pode ter a configuração mais apropriada e mais factível do resultado eleitoral de Orlando Morando.
1. MÁQUINA PÚBLICA.
2. AMBIENTE COMPETITIVO.
3. CAPITAL CONGENTIONADA.
4. CAPITAL PRIVILEGIADA.
5. REDES SOCIAIS.
O destrinchamento de cada um desses quesitos precisa ser observado com cuidado. Há sim maleabilidade e porosidade especulativa provocada sobretudo porque não se tem disponível algo como o mapeamento geográfico e consequentemente socioeconômico dos eleitores que registraram apoio a Orlando Morando. Sem instrumentos de precisão técnico-científica, é inevitável que o alicerce de observações sofra abalos.
Um exemplo: como foi a votação de Orlando Morando em São Bernardo quando se comparam os percentuais de aproveitamento dos eleitores em bairros cristalizados de classe média e de classe rica em contraste com bairros populares? Mais que isso: como o ex-prefeito concorreu em alinhamento com Carla Morando, sua mulher e reeleita deputada estadual, e que também teve votação abaixo das expectativas em São Bernardo? Seria possível estabelecer uma linha de resultados com os dados da disputa anterior à Assembleia Legislativa. Afinal, Carla Morando obteve praticamente o dobro de votos em São Bernardo em 2022.
Outros candidatos com domicílio eleitoral em São Bernardo também poderiam ser escrutinados e confrontados com Orlando Morando e Carla Morando. Certo é que a baixíssima votação dos Morando em São Bernardo afetou fortemente o resultado geral. Carla se safou, mas o ex-prefeito ficou no meio do caminho.
1. MÁQUINA PÚBLICA
Um peso relativamente forte e por isso mesmo definidor do potencial doméstico do capital eleitoral é a máquina pública, que consiste em ter o suporte do prefeito de plantão em diferentes formas de cooperação. Orlando Morando perdeu esse incremento eleitoral porque o prefeito eleito em outubro de 2024, Marcelo Lima, rompeu as relações que os colocavam como parceiros. Marcelo Lima foi eleito em 2017 na chapa de Orlando Morando. Contou com o apoio da máquina chefiada por Orlando Morando em seguida, quando virou deputado federal, cargo do qual foi apeado numa cassação de mandato bastante intrigante. Filigranas jurídicas o tiraram do cargo. O lançamento da sobrinha para a sucessão em detrimento de apoio a Marcelo Lima, que se imaginava pouco competitivo, acabou frustrando a projeção de Orlando Morando na sucessão municipal. Viraram adversários.
2. ADVERSÁRIOS COMPETITIVOS
Some-se à ausência da massa crítica que uma Administração move para o lado dos parceiros à participação de adversários no mesmo campo eleitoral e se encontra receituário de preocupação. A classe média de São Bernardo, principal reduto de Orlando Morando, foi ocupada também pela candidatura de Alex Manente, deputado então em terceiro mandato com o apoio do prefeito Marcelo Lima. Por outro lado, a conquista de votos na periferia não se viabilizou sem a máquina pública. O prefeito Marcelo Lima lançou dois candidatos supostamente preparados para preencher os espaços populares à Assembleia Legislativa com ressonância nos votos federais. Entretanto, Ivan Silva e Fran Silva contaram com a divisão dos territórios populares e acabaram se dando mal. A medida se provou contraproducente. Uma única candidatura popular teria assegurado vaga na Assembleia Legislativa. Marcelo Lima também apostou em Julinho Fuzari como ponta de lança na classe média, em candidatura a deputado estadual. O vereador somou pontos suficientes para ajudar a desidratar Carla Morando, com extensão a Orlando Morando, mas não fez o suficiente para ser eleito.
3. CAPITAL CONGESTIONADA
Secretário de Segurança Pública na cidade de São Paulo, onde alcançou sucesso midiático com a eficiência do Smart Sampa por ele lubrificado e aperfeiçoado, Orlando Morando capitalizou estoque de voto (pouco mais de 11 mil) muito aquém dos efeitos técnicos e criminais. A concorrência por uma vaga na Câmara Federal tornou-se desvantajosa na medida em que se apuraram os votos como expressão das complicações que encontrou: nada menos que sete dos atuais vereadores da Capital foram eleitos deputados federais, enquanto outros três consagraram-se deputados estaduais. Os distritos paulistanos, ocupados por especialistas na conquista de votos, tornaram-se praticamente inacessíveis a Orlando Morando. Ironicamente, a queda vertiginosa de indicadores criminais no período que antecedeu as eleições, acabou incorporada aos discursos dos representantes do Legislativo da Capital, mais assiduamente frequentadores dos respectivos currais eleitorais.
4. CAPITAL PRIVILEGIADA
Há também uma estranha e contraditória conjectura explicativa à baixa votação de Orlando Morando em São Bernardo. O que pareceria um contrassenso ganharia foro de realidade. O suposto e bastante provável orgulho de São Bernardo em ver um filho da terra como expoente politico na vizinha Capital teria a contraface de desencanto. Orlando Morando teria provocado determinado grau de insatisfação dos eleitores locais na medida em que concentrou todos os esforços políticos e técnicos à vizinha Capital, afastando-se de vez do cotidiano de articulações em São Berrando. Morando teria retomado de forma discreta as atividades políticas em São Bernardo após desincompatibilizar-se para concorrer em outubro. Essa variante é espécie de Complexo de Gata Borralheira às avessas. Morando teria encantamento popular pela projeção politica na Capital, mas deixou um rastro de orfandade na medida em que São Bernardo passou à condição de espécie de reserva numa hierarquia sobre a qual o eixo de aprovação exigiria prioridade de atenção. O rompimento com o prefeito Marcelo Lima praticamente interditou a presença política-administrativa que Orlando Morando exibia na Capital.
5. REDES SOCIAIS
O mundo digital de aparelhinhos revolucionários que cabem na palma da mão ainda precisa ser mais avaliado nas disputas parlamentares. São inúmeros os casos em que a presença física dos candidatos e currículos fundamentados em ações públicas são simplesmente descartados por grupo seletivo de influenciadores com capacidade de acertar na mosca o contexto político e de comportamento social. O padrão convencional de campanhas eleitorais sofre impactos extraordinários nas redes sociais e em aplicativos. Há talentos estelares conectados na forma e no conteúdo que arrebatam corações e mentes. Enquanto campanhas eleitorais convencionais se utilizam entre outros instrumentos de winnebanners, os inovadores cortam caminho e multiplicam visibilidade praticamente sem percorrer exaustivas caminhadas. Por mais que todas as modalidades já consagradas de caça ao voto devam ser recorrentemente utilizadas, há distinções de produtividade eleitoral que, no caso de disputas parlamentares, sugeririam operações mais sofisticadas e abrangentes, mas de engajamento voluntário maciço que apenas os mais criativos respondem com competência comprovável. Apesar de tudo isso, vincular fortemente parte da frustração de baixa eleitoral de Orlando Morando no cômputo geral poderá ser um exagero. Os arrasa-quarteirões digitais abalaram todas as demais candidaturas, embora não se tenha garantias de que o estrago foi linear ou contou com peculiaridades que impactaram mais alguns que outros.
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05/10/2026 LULACÁ E LULALÁ: FIM DE CARREIRA?