Sociedade

FRACASSO ELEITORAL
É FRACASSO SOCIAL

DANIEL LIMA - 06/10/2026

Estou tão cansado de escrever sobre o que chamo de institucionalidade regional que às vezes me sinto imerso na experiência do Feitiço do Tempo. Tudo parece se repetir sem que se dê um sopro para valer de esperança. Os resultados eleitorais de domingo foram desastrosos para a região sobretudo porque ficamos restritos a um representante em Brasília. Tomamos uma surra que vai muito além da matemática porque tem origem e causa sociológicas. Enquanto confundirem região com regionalidade, continuaremos  a colecionar fracassos que vão muito além da política, que não passa de consequência.

Vamos contar com uma única representação política em Brasília. Justamente um político à moda antiga, embora jovem,  de viés municipalista e com curso de graduação em cenarizações que engabelam a sociedade desorganizada. Mais que isso:  um político comprovadamente incompetente como gerenciador público. Bom de voto e ruim de governo é a síntese de uma contradição insidiosa jamais vivenciada com tanta intensidade na política regional .

Paulinho Serra teve oito anos de dois mandatos à frente da Prefeitura de Santo André como participante de um modelo de marketing de espetacularização do vazio. Fez escola. Tanto fez que muitos atores políticos e sociais seguem o mesmo modelito de promessas e falsas unanimidades. Os marqueteiros que tomaram conta da gestão pública só enxergam votos.

RAÍZES PROFUNDAS

Tão verdadeira quanto a decepção da escassez de representação federal e de abundância de truques da velha política para dar um drible da vaca na sociedade, características de Paulinho Serra, é a certeza de que se contássemos com muito mais gente em Brasília, principalmente, a expectativa de sucesso deveria ser cuidadosamente contida. Como comprovam várias situações no passado.

O desastre representado mais pela atuação do que pela quantidade de representantes políticos tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal é realidade de raízes profundas e que pode ser remetida ao esfacelamento do capital social, conceito que coloca Estado, Sociedade e Economia relativamente equilibrados. No Grande ABC prevalece o Estado Municipal. A Sociedade é desatenta e a Economia decadente.

Uma sociedade restrita a castas corporativas públicas e privadas jamais registrará iniciativas  transformadoras. Será sempre e sempre um festival de perda de tempo e de varejismos  entremeado de medidas socorristas, quando não demagógicas.

MEDIOCRIDADE E MERITOCRACIA

Esse breve e incompleto diagnóstico não significa dizer que devemos jogar a toalha. Apenas faço o registro sobre causas e efeitos dessa sintomatologia que vai muito além da representação e da representatividade da classe política – no caso os efeitos que decorrem da origem clássica de baixíssimo comprometimento social. Abusivos e analfabetos, além de cínicos, são os políticos que esperam dos alarmantes níveis de abstenções eleitorais a salvação da lavoura.  Eles não se enxergam como fontes da evasão da cidadania em forma de voto.

Existe no Grande ABC camadas de empecilhos que dificultam sobremaneira a tomada de iniciativas que poderiam corrigir o ambiente social como um todo. Há enorme dificuldade de ajustar os ponteiros conflitivos entre meritocracia e mediocridade, especialmente nas instâncias públicas e em organizações que supostamente representariam empreendedores. Ou seja: governos e iniciativa privada se dão as mãos permanentemente em conluios de relacionamentos amistosos enquanto o Desenvolvimento Econômico figura numa escala hierárquica de valores muito aquém das demandas sociais.

É impossível traduzir o ambiente regional numa edição pré-definida em termos de volume de caracteres. Já escrevi centenas de artigos sobre isso, mas o encavalamento circunstancial de desastre eleitoral e inapetência organizacional da sociedade não pode ser desperdiçado.

UMA COISA E OUTRA COISA

Mais que isso: precisa ser correlacionado para que, quem sabe, descubram que uma coisa leva à outra coisa. No caso, uma coisa é a desordem institucional e outra coisa, associada, são as urnas rebeldes. A inversão hierárquica dessas enfermidades elevaria o grau de culpabilidade e punitivismo  da classe política e não faria jus a administração da terapia corretiva.

As instâncias de poder formal e informal do Grande ABC precisam passar pela terapia mais recomendável a transformações, em forma de competição em busca das melhoras alternativas de mudanças. O que temos hoje é um enredo mais que manjado de lantejoulas e falsos brilhantes.

Ninguém está aqui destilando a ideia de que é preciso botar fogo nas relações institucionais do Grande ABC. Longe disso. Mas esse ritual em que parece crime deixar de agradar com verdades inconvenientes está mais que comprovado como retaliação ineficaz. Mais que isso: na medida em que articulações priorizam interesses pessoais e grupais distantes de estratégia coletiva de correção de rumos, mais se torna desafiadora a premissa de desacelerar os estragos.

NOBRES SINDICALISTAS

Talvez nem precise, mas reitero o ponto de vista central de que, nestas circunstâncias, parece ser o melhor enfoque do inventário atual: o fracasso eleitoral do Grande ABC nesta temporada está diretamente vinculado às fragilidades do Grande ABC que até hoje não entendeu que região e  regionalidade são porções distintas de um território institucionalmente fantasioso.

Abundam divisões em várias situações de conotações destrutivas. Basta observar, por exemplo, o entusiasmo dos nobres sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo em defesa da invasão automotiva chinesa, alinhados que estão ao governo federal de viés socialista. E ninguém reage a essa estupidez.

O fato é que estou cada vez mais convicto de que o Grande ABC consolida posição de alheamento à regionalidade e de mistificação dessa mesma regionalidade a ponto de que qualquer tentativa de cutucar a fera da inoperância institucional se torna exercício condenável. Sinto na pele e na alma o quanto é complicado pregar em terreno infértil. Complicado no sentido de que tenho consciência plena de que estarei cada vez mais próximo do cadafalso da discricionaridade e da perseguição severa na medida em que mantenho faróis de milha críticos nos pontos centrais das barbaridades apontadas.

TRIPÉ SEM EQUILÍBRIO

Num sociedade em que o capital social é escasso, onde a mobilidade social se retrai, onde a classe média tradicional desmorona e onde a classe média precária respira com um dos pés na pobreza e na miséria, numa sociedade em que prevalecem falsas soluções estruturais, o que esperar em períodos eleitorais?

Pelo menos 30% da População Economicamente Ativa do Grande ABC desembarca diariamente na Capital vizinha e com isso subtrai parte da capacidade de relações sociais. O esvaziamento econômico leva ao esvaziamento no sentido de pertencimento. A decadência econômica insiste em roubar a esperança no futuro.

Tudo isso e muito mais pesam na hora de votar. Votos assistencialistas típicos da gestão de Paulinho Serra e de outros políticos populistas que infestam o País destroem a autoestima e tornam o eleitorado escravo de políticos oportunistas. O modelo Bolsa Família saiu do quadrado de atenção aos mais carentes e invadiu a área de uma abrangência incentivadora à indolência.

O Grande ABC aproxima-se cada vez mais do retrato do Brasil. A construção de riquezas perdeu velocidade, atravessou o canteiro e se esborrachou na contramão.

Como escrevi acima,  a abundância de análises que já produzi tendo a regionalidade no amplo sentido do conceito como agenda visceral, me leva ao Feitiço do Tempo. Não é exagero. Antes fosse. E para não esticar esse texto que se colocaria como redundância quando visto em retrospectiva e mesmo em perspectiva, reproduzo abaixo, sem mexer numa vírgula sequer, uma das análises que preparei sobre o que chamei de Entidade Cerebral. O texto foi publicado na edição de maio de 2003 (portanto há 23 anos)  na revista de papel LivreMercado, antecessora de CapitalSocial, sob o título “ Um antídoto eficaz

contra charlatanismo”. Acompanhem:

ENTIDADE CEREBRAL

Um exemplo dos efeitos de cidadania, de capital social, que advirão da constituição de uma entidade cerebral no Grande ABC: não ficaremos mais indefesos, ou quase indefesos, nem precisaremos de eventuais mártires, diante de atiradores estatísticos tão certeiros quanto o vocabulário do seu Creisson, aquela caricatura de político brasileiro que o Casseta & Planeta popularizou e, analisado com atenção, longe está de ser caricatura, mas síntese de boa parte da classe sobre as quais invariavelmente depositamos nossos destinos. Na medida em que o Grande ABC for capaz de tapar os buracos por onde geralmente penetram convidados indesejáveis que nos fazem de otários, estará na verdade se livrando de pestes que insidiosamente nos tiram a necessária pitada de indignação e inconformismo, armas indispensáveis para que uma sociedade se mantenha alerta, democraticamente madura e comprometida com o fluxo de informações.

MAIS ENTIDADE CEREBRAL

É praticamente impensável que outros atentados sejam perpetrados contra a realidade factual do Grande ABC por gente contratada para promover dissimulações se a entidade cerebral com que sonhamos viceje para valer o sentimento de responsabilidade regional. Uma entidade cerebral vai colocar ordem no galinheiro de bobagens que, industrializadas, emburreceram a coletividade mesmo que bem intencionada. A massificação de conceitos econômicos regionais, portanto, ganha ares de salva-vidas. Precisamos sepultar ramificações do nosso Complexo de Gata Borralheira. Um dos quais, que não é exclusividade nossa mas de toda comunidade que se sujeita ao colonialismo cultural, está na estupidez de acreditar em tudo que nos dizem os visitantes ilustres ou ricamente diplomados, contrapondo-se a constatações enraizadamente históricas e consagradas pelos nativos de berço ou por adoção.

MAIS ENTIDADE CEREBRAL

Numa entrevista ontem à noite ao amigo Glenir Santarnech, na TV São Caetano, lembrei-me de um fato envolvendo o ex-ministro e hoje deputado Delfim Netto, reconhecida sumidade em macroeconomia. Em palestra no Tênis Clube de Santo André para plateia predominantemente empresarial, Delfim Netto, ignorante em Grande ABC, simplesmente disse que não contávamos com áreas livres para novos investimentos industriais. Já faz uns bons pares de anos esse encontro, mas a realidade daquela época não comportava tamanha imprecisão porque já se abriam imensas clareiras de áreas industriais de deserções à espera de investimentos. Infelizmente, o efeito das declarações de Delfim Netto foram terríveis.

MAIS ENTIDADE CEREBRAL

Se fosse um consultor internacional que se expressasse no idioma de Sheakspeare, então, o dilúvio seria muito maior. Mesmo que jamais tivesse botado os pés no Grande ABC e que tivesse se expressado com a probabilidade de acerto de quem joga na loteria, só o fato de exigir um tradutor ou mesmo de pronunciar-se em inglês aportuguesado lhe conferiria a distinção de oráculo. Não é assim, afinal, que estrelas internacionais levam lideranças paulistanas e nacionais a considerarem gol de placa todo tipo de chute de canela avaliativa? É assim que somos -- um bando de nativos que se encantam com espelhinhos de visitantes graduados. Para mudar essa cultura de servilismo só existe o remédio da consolidação de um projeto de coletivizar, doutrinar, estimular e fazer expressar as cabeças mais preparadas da região. E, como escrevi ontem neste espaço, não falta esse insumo no Grande ABC.

MAIS ENTIDADE CEREBRAL

Além da dispersão, há também muita gente escondida simplesmente por omissão ou porque nossa sociedade seletivista pela consagração material em detrimento do intelectual sufoca os talentos subjacentes em várias esferas. Os conceitos de capital social que poderiam forjar um Grande ABC diferente da Gata Borralheira que temos passam necessariamente pela força da intelectualidade regional num fórum unificador de comportamentos, propósitos e estratégia. Longe de nós qualquer pretensão de estabelecer o ritual de batalhão nos movimentos que se vislumbram. Nada disso. O que se espera é que se estabeleçam procedimentos técnico-operacionais que sejam tão eficientes na identificação imediata de charlatães locais ou não quanto na descoberta de pedras preciosas desprestigiadas, locais ou não. Nossa seleção de cérebros está tão desentrosada quanto desunida. Quem ganha com isso são os pernas-de-pau oportunistas.


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