O Santo André perdeu mais uma vez ontem à noite na Série B do Campeonato Brasileiro (2 a 0 para o lanterninha América, em Natal) e caminha célere para o rebaixamento à Série C. O que o leitor provavelmente pergunta é como um time que chegou ao vice-campeonato paulista está à beira do abismo no Brasileiro? Simples, muito simples: a simplificação do complexo, sem considerar que o complexo exige conhecimento para ser simplificado, desmascara arrogantes e pretensiosos.
Da mesma forma que Ronan Maria Pinto levou o Diário do Grande ABC à Série E do Campeonato Brasileiro de Qualidade Editorial, por acreditar que comandar jornalistas é como dirigir motoristas de ônibus, está conduzindo o Santo André ao matadouro. Ainda há esperança. Precisamos rezar, mas não há como negar que o Ramalhão tem cara de rebaixamento.
Indagará o leitor: rebaixamento tem cara? Tem, tem cara sim. Tanto quanto título. São subjetividades que parecem explícitas para quem tem tempo de bola mas indecifráveis aos menos detalhistas.
A cara do Ramalhão é a cara do terror do rebaixamento. Olhem, reparem, prestem atenção no semblante dos jogadores, do técnico, do torcedor. Há um cheiro de Terceira Divisão no ar.
Independentemente da queda mais que provável, embora ainda passível de reversão, a campanha do Santo André na Série B do Brasileiro é um atestado de fracasso do comando autoritário e excludente do Saged, empresa que, ao arrepio da ética e da responsabilidade social, privatizou o futebol até então sob os cuidados do Esporte Clube Santo André.
Ronan Maria Pinto desfilou toda a verborragia de sabe-tudo no início da competição nacional, mesmo sob a desconfiança generalizada de que o inevitável desmanche da equipe que perdeu para o Santos na decisão do Campeonato Paulista pouco tempo antes cobraria preço alto.
É claro que não se imaginava que o preço seria tão alto como o que se está observando, mas não seria nada fácil competir com uma maioria de equipes que não passou pelo mesmo processo de substituição de jogadores por conta do sucesso estrondoso de um time que encantou o País.
Mais que isso: adversários com capacidade de investimento, dotados de respaldo institucional de torcedores e da comunidade e também capazes de, conforme o andar da carruagem, recorrerem a contratações tópicas, para preenchimento de eventuais buracos. Foi o que se viu.
Ao acreditar piamente que descobrira a fórmula do sucesso no futebol, o presidente do Saged e também do Diário do Grande ABC subestimou as armadilhas desse que é um esporte sujeito demais a chuvas e tempestades. Se forem contabilizadas todas as escalações do Ramalhão na competição, com trocas sucessivas de jogadores, pelo menos dois novos desmanches se deram nas 30 rodadas realizadas. Assim como uma redação competente é resultado de investimentos, de preparação e de manutenção do quadro de colaboradores, um time de futebol passa por processo semelhante. O coletivo valoriza o individual e o individual respaldado pelo coletivo torna-se muito mais produtivo.
O Santo André do Campeonato Paulista foi formado com certo grau de competência e elevada porção de acasos que se somaram à sensibilidade do técnico Sérgio Soares de explorar as características individuais dos melhores jogadores sem submetê-los a enquadramentos táticos pré-definidos. Também o equilíbrio diretivo teve peso, é claro, sobretudo porque não se colocou acima do elenco e da comissão técnica. O deslumbramento remeteu o Santo André à situação atual.
O time que perdeu ontem à noite em Natal é um desfilar interminável de equívocos. Diante da pior equipe da competição, que só nos dois últimos jogos havia sofrido 10 gols e que por isso mesmo exibia auto-estima ao rés do gramado, o Santo André deixou escapar três pontos fáceis. Dono do pior ataque e da pior defesa do campeonato, e lanterninha na pontuação com o mesmo número de pontos do Santo André (a desvantagem está no saldo de gols) o América de Natal conseguiu se apresentar menos mal arrumado que o Ramalhão. O jogo foi uma disputa de foice no escuro. Os melhores times da Série C, para onde provavelmente irão tanto o Santo André quanto o América-RN, são muito superiores.
É muito difícil acreditar que o Ramalhão possa acertar o passo nas oito rodadas que restam. É verdade que o técnico Jair Picerni já conseguiu encontrar o mapa da mina para impedir o aprofundamento da crise técnica e tática. Ele colocou em campo uma equipe mais leve, mais dinâmica. Mas leveza e dinamismo não são suficientes para formatar uma boa equipe. Muito menos excesso de cautela. Atuar com dois volantes quando o adversário ficou todo o tempo na defesa é restringir demais as opções ofensivas.
O excessivo número de passes errados, o posicionamento defensivo a convidar o adversário aos contragolpes, a ausência de alguém no espaço vazio na bola rebatida pela zaga adversária, tudo isso e tantas outras situações de jogo exibem um conjunto aparvalhado. Cada metro quadrado do gramado vira latifúndio duramente percorrido pela equipe. Compactação, uma das questões vitais ao sucesso no futebol, é ficção. Possivelmente só consta do quadro nos vestiários.
Em resumo: quem disser que o Santo André é uma equipe de futebol para valer, possivelmente precise de reciclagem ou de minucioso exame oftalmológico. Agora só restam 24 pontos a serem disputados, dos quais o Santo André, para atingir o mínimo necessário de 40% de índice de rendimento, precisa ganhar 16. Dezesseis pontos de 24 dá 66,66% de rendimento nos jogos que restam. Para quem em 30 jogos só conseguiu 32,22%, convenhamos que a perspectiva não é nada entusiasmadora.
Ronan Maria Pinto, noviciado em futebol como dirigente, deve ter descoberto que só existe mesmo uma certeza quando a bola começa a rolar: o absolutamente garantido com base no passado é absolutamente volátil. O consolo é que, num olhar extremamente otimista, panglossiano, o axioma vale também para o Santo André na competição como perspectiva de mudança. O problema é que mesmo o Sobrenatural de Almeida que salvou o Fluminense no ano passado precisa de um grande empurrão da equipe em direção a vitórias. O Santo André que perdeu um pênalti ontem quando poderia ter empatado ao final do primeiro tempo, depois de o goleiro Júlio César sofrer um gol defensável, parece estar sendo empurrado de fato por uma força estranha. Rumo ao buraco.
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