O melhor resultado em termos classificatórios na rodada do final de semana envolvendo equipes do Grande ABC na Série A do Campeonato Paulista foi do São Bernardo, que venceu o Noroeste de Bauru por 2 a 0 no Estádio Primeiro de Maio. Com isso, subiu cinco andares no elevador da competição e abandonou, temporariamente ou não, o paredão da zona de rebaixamento. Mas o placar mais expressivo foi do São Caetano, que ganhou no Anacleto Campanella de uma sempre complicada Portuguesa. Com isso o Azulão subiu três andares e está a três pontos do G8. Já o Santo André caiu pelas tabelas em pleno Bruno Daniel, goleado pelo acertadinho Paulista de Jundiaí. Os 4 a 0 provocaram a esperada demissão do técnico Pintado. Completar 10 jogos sem vitória é exceder-se demais. Pintado deixa de herança um diagnóstico terrível: o Ramalhão sempre melhorava depois das alterações que promovia não porque acertava, mas porque começava errado. O paredão segue incomodando.
O São Caetano, dono com sobras do melhor elenco do Grande ABC, parece que finalmente começou a achar o caminho da consolidação tática. Desta vez o treinador Ademir Fonseca não inventou e escalou centroavante de centroavante, no caso Vandinho, autor do gol da vitória.
Diversamente do que entende a maioria dos analistas, o jogo entre São Caetano e Portuguesa foi rico senão em emoções mas em coerência tática. Muitos cronistas, entre os quais me incluo, esquecem as circunstâncias de determinados jogos e exigem mais que o bom senso sugere.
Esperar que São Caetano, ameaçado pela zona de rebaixamento, e Portuguesa, instável após duas derrotas, atuassem francamente no ataque seria subestimar as implicações de novo tropeço. Tanto que o técnico Sérgio Guedes foi demitido após o jogo.
Depois de um primeiro tempo morno e levemente favorável ao controle da Portuguesa nos últimos 15 minutos, quando o São Caetano se desconcentrou com a contusão de Jean e a entrada de Marcelo Batatais, o segundo tempo foi mais intenso. Sobretudo porque Berg passou a apoiar mais e corretamente pela esquerda, especialmente após a substituição de Kleber pelo mais ofensivo Luciano Mandi. Souza também se desprendeu, avançou mais e foi de seus pés o lançamento em diagonal para Vandinho marcar, depois de o mesmo Vandinho, lançado pelo mesmo Souza, ter desperdiçado uma grande oportunidade.
O São Caetano ainda em formação tática deixa buracos perigosos pelas laterais, mas já deu sinais, de novo, de que ameaça arranjar-se. A entrada do volante-volante Erandir deu mais consistência defensiva sem prejudicar a condição de volantes-armadores de Souza e Augusto Recife. Falta ajustar Kleber e Ailton na armação mais ofensiva. Eles penetram aquém das necessidades, o que isola Vandinho. Principalmente Kleber. Luciano Mandi é mais ofensivo, mas o time perde em volume de jogo que, em determinadas situações, é muito mais importante para dar consistência ofensiva com os laterais e a aproximação dos volantes. Nem sempre velocidade rima com produtividade.
Possivelmente a única equipe do Grande ABC com potencial de chegar à fase de mata-matas, o São Caetano precisará alcançar 27 pontos ganhos para classificar-se, a manter-se a projeção aritmética após 10 rodadas. Precisaria, portanto, ganhar 16 pontos nos 27 (nove jogos) a serem disputados, o que daria índice de aproveitamento de 59,2% nessa nova trajetória. Nada impossível, porque depois de perder os três primeiros jogos o Azulão ganhou 11 pontos dos 21 que disputou, ou 52,3%. Mas também não é nada fácil, porque terá dois clássicos regionais e três confrontos com grandes equipes (Palmeiras e São Paulo no Anacleto Campanella e Corinthians no Pacaembu).
Já o São Bernardo ganhou do Noroeste por 2 a 0 e confirmou a expectativa de que finalmente se afastaria de crise. Atingir 10 rodadas com uma única vitória seria o fim da picada. Não há tabela — por mais generosa que seja — que segure as pontas.
Por mais que a torcida compareça e participe pouco da disputa, o São Bernardo tem respaldo nas arquibancadas que o credencia a um grau mais elevado de institucionalidade, quesito que sempre ajuda a fazer a diferença.
O pênalti marcado pelo árbitro em Danielzinho, quando o placar já era favorável por 1 a 0, é exemplo do quanto a presença do torcedor mesmo que discreta ajuda a decidir um lance capital. Danielzinho tropeçou nas próprias pernas, como não cansa de tropeçar ao longo de cada partida. É um bom jogador em uma jogada e um perna de pau em outra. Mas sempre participativo. Está, por enquanto, longe de ser aproveitado em equipes de porte médio ou de ponta, ao contrário do que tentam fazer crer alguns marqueteiros.
O São Bernardo não teria necessidade daquele pênalti mal marcado para vencer o Noroeste. O primeiro gol foi uma obra-prima de laboratório, jogada possivelmente muito treinada por Estevam Soares: Lucas fez um lançamento longo em diagonal para um Guto que se apresentou como ponta-direita no contrapé de uma defesa que tentava ajeitar posicionamento coletivo. O cruzamento rasante foi perfeito para Danielzinho finalmente acertar o gol.
Depois do segundo gol, aquele de pênalti, o Noroeste só não sofreu outros três porque o São Bernardo gosta de emoções. O descontrole emocional e tático do time de Bauru deixa dúvidas sobre o preparo psicológico para suportar o peso do paredão em que está medido, entre os quatro últimos colocados. O que se viu no segundo tempo foi um Noroeste insistindo em furar um bloqueio bem montado por Estevam Soares e um São Bernardo perdendo uma e outra oportunidades em contragolpes, já com Bombinha esgotado e Danielzinho o mesmo de sempre.
Certo mesmo é que o São Bernardo mudou bastante com Estevam Soares. Ele dá um toque de Primeira Divisão a um time que carrega elementos positivos e negativos de Segunda Divisão. Dirceu virou um volante-zagueiro, mais zagueiro que volante, para que Guto se tornasse mistura de ala e meio-campista pela direita. Lucas e William Favoni deram toda a proteção à defesa, enquanto Júnior Xuxa fica sempre livre para armações.
O centroavante Bombinha voltou ao ataque depois de oito partidas e mesmo fora de ritmo deu sinais de que sabe mais que qualquer outro dos atacantes do elenco marcar a diferença entre grande área e outro espaço qualquer do campo.
Para completar, o Santo André da goleada sofrida em casa para o Paulista deu sinais de que não lhe restará saída senão lutar bravamente contra o rebaixamento. Com um zagueiro jogando de volante, caso de Marcelo Grodri, com escassez escandalosa de jogadas pelas laterais de campo, e dependendo apenas de Richely em condições de perturbar os zagueiros adversários, o Santo André não poderia esperar nada diferente. Ainda que a tardia entrada de Aloísio e de Borebi tenha proporcionado mais mobilidade ao meio de campo e ao ataque, seria excesso de otimismo esperar que o muito mais organizado Paulista cedesse espaço sem que tivesse a letalidade dos contragolpes como armadilha à goleada.
O técnico Pintado caiu numa mesma rodada em que Ademir Fonseca simplificou a escalação óbvia do São Caetano e Estevam Soares ganhou mais confiança do elenco porque o time não foi apenas coração e dedicação durante os 90 minutos. O São Bernardo já começa a demonstrar que também tem cérebro. Uma temporada de Série A ajuda muito a plasmar um time de Série A.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS