Não será provável novo rebaixamento que consolidará diagnóstico de que o modelo de gestão do Ramalhão é um tremendo fracasso. A alternativa agora anunciada de formação de um clube-empresa, o mesmo clube-empresa que se acreditava ser o Saged quando da privatização do Ramalhão há quase quatro anos, não é o pó de pirlimpimpim a resolver os problemas estruturais do futebol de Santo André. Não faltam clubes-empresas que estão comendo o pão que o diabo amassou no futebol brasileiro e internacional. Sem contar outros que desapareceram. O problema não é de modelo de gestão — é de competência de gestão.
Um clube-empresa não pode ser comandado com as mesmas ferramentas de passionalismo de clube associativo, da mesma forma que não pode imprimir a frieza dos balanços contábeis. Encontrar o tempero certo não é sortilégio de clube-empresa ou de clube associativo. É sobretudo resultado de planejamento bem executado.
Possivelmente o presidente do Saged, Ronan Maria Pinto, esteja pretendendo proteger-se do fracasso de uma administração centralizada e autoritária que não pode ser medida apenas pelos resultados dentro de campo. A defesa é um direito dele, especialista em capitalizar os triunfos e em socializar os fracassos. Espera-se, entretanto, que o pouco que sobrou de institucionalidade do Santo André depois de quase quatro anos de transferência do Ramalhão para o Saged não tenha avaliação estrábica de observadores inabilitados que optariam por dirigir olhares a alvo errado.
São tantos os deslizes cometidos pela gestão do Saged no futebol do Ramalhão que não vale a pena rememorá-los. Basta dizer que se houvesse uma premiação ao que chamaria de anticase, ou seja, de uma ação corporativa que representasse um manual de como perder tempo, prestígio e dinheiro, o Saged possivelmente seria favorito absoluto.
O buraco vai muito além do déficit financeiro e da derrapagem na hierarquia do futebol brasileiro, esse um golpe fatal nas pretensões empresariais de quem precisa de vitrine generosa da televisão. O buraco, que é uma cratera, é o descompasso que se alargou em termos de representatividade do Ramalhão e a sociedade.
E também a oportunidade que se ofereceu, quando da composição do Saged, para o engajamento produtivo dos acionistas, potenciais colaboradores de áreas que deveriam constar do organograma da empresa.
A configuração da transferência do futebol profissional do Esporte Clube Santo André para o Saged foi um samba do crioulo doido de desinformação ou de informação incompleta. Tinha-se como certo que se tratava de uma mudança radical. O Saged seria o clube-empresa a comandar o Ramalhão, como tanto sonhava o então mentor do projeto, Jairo Livolis, ex-presidente do Esporte Clube Santo André. Descobriu-se depois, muito depois, que o Saged não passava de uma empresa privada a administrar o Ramalhão.
O Esporte Clube Santo André é o representante legal do Ramalhão nas esferas esportivas, com possibilidades mais que amplas de vir a ser responsabilizado solidariamente na esfera comum por todos os percalços econômicos e financeiros de uma administração que jamais se deu à tarefa de prestar contas de verdade. Infração contratual suficiente para que o Ramalhão voltasse ao berço onde foi embalado durante quatro décadas e do qual foi retirado porque o tamanho das obrigações ditadas por um mercado esportivo cada vez mais exigente já não cabia no orçamento financeiro.
O Ramalhão foi retirado do Esporte Clube Santo André e entregue ao Saged com a expectativa de que se tornaria um corredor de maratona, mas o que temos, passados quase quatro anos da transferência, é um enfermo psiquiátrico a exigir tratamento de choque, porque tem a mania de grandeza.A ficha da realidade ainda não caiu.
O fato de o Saged não assumir o controle do Ramalhão em forma de clube-empresa não explica nem justifica os resultados pífios dentro e fora de campo. Tanto é verdade que, no sentido inverso, o Saged levou o Ramalhão à disputa do título paulista do ano passado. O formato jurídico pode não ser o ideal, deve mesmo, com todas as cautelas, ser readequado à realidade do mundo da bola, mas nada resiste ao voluntarismo.
A manobra do presidente Ronan Maria Pinto ao tentar imputar responsabilidades ao Esporte Clube Santo André por conta dos desencantos do Ramalhão sob o controle gerencial do Saged é uma jogada conhecida para pressionar além da conta a consecução legal de clube-empresa em pouco tempo.
Ronan Maria Pinto afirma que há grupos nacionais e internacionais interessados na aquisição dos direitos esportivos do Ramalhão, substituindo-se o Saged. Para que as medidas sejam efetivadas é indispensável a concordância da direção do Esporte Clube Santo André. O presidente Celso Luiz de Almeida já tomou providências para que a possível nova transposição passe longe de uma travessia em rio de crocodilos, como a passagem do Esporte Clube Santo André para o Saged. É preciso, para tanto, que à velocidade se alie a cautela. Um conjunto de medidas restritivas é aconselhável, sem que representem desestímulo a investidores.
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