Sociedade

Dez motivos para o trânsito
metropolitano virar um inferno

DANIEL LIMA - 12/12/2011

A revista sãopaulo, da Folha de S. Paulo, voltou a colocar em Reportagem de Capa o caos no trânsito paulistano. Nada mais lógico. Essa é a maior preocupação dos paulistanos e também dos moradores das regiões metropolitanas brasileiras. Uma ampla reportagem aponta os 10 maiores problemas para quem tem de superar distâncias na Capital. Vejam só quais são:

bullet_quadrado Festejos de fim de ano.
bullet_quadrado Veículos quebrados.
bullet_quadrado Super Prédios.
bullet_quadrado Casa Longe do Trabalho.
bullet_quadrado Eventos e Obras.
bullet_quadrado Transporte Coletivo.
bullet_quadrado Carros demais.
bullet_quadrado Infrações.
bullet_quadrado Semáforos.
bullet_quadrado Chuva.

Uma pena que a reportagem da sãopaulo não tenha preparado um ranking desses problemas que infernizam quem vive em metrópoles. Fosse ouvido, não teria dúvidas em hierarquizá-los. Vejam bem como ficariam:

1. Super Prédios.
2. Casa Longe do Trabalho.
3. Carros Demais.
4. Transporte Coletivo.
5. Eventos e Obras.
6. Semáforos.
7. Veículos Quebrados.
8. Infrações.
9. Chuva.
10. Festejos de Fim de Ano.

Qual seria a ordem de importância dos leitores? É possível que haja outros apontamentos. Talvez os cinco pontos principais remetam às dificuldades que imperavam até recentemente sobre a ordem classificatória final do Campeonato Brasileiro. Não faltaram palpites ante tanto equilíbrio.

No caso dos vilões do trânsito, cravaria seco como campeão absoluto de aceleração do processo de congestionamentos a liberalidade excessiva, o mercantilismo despudorado, as vantagens espúrias que envolvem o mercado imobiliário e os setores públicos, irmãos siameses nas safadezas do aqui e agora, tudo isso embutido no quesito Super Prédios.

Não existe consciência coletiva para acompanhar atentamente o que se passa nos gabinetes de Executivos e nos corredores de Legislativos. Nem todo gestor público tem o cuidado de José Auricchio Júnior, pioneiro em aplicar mudanças no Plano Diretor para valorizar a qualidade de vida do Município. Nem de Luiz Marinho, que ataca de frente o lobby dos verticalizadores.

Haja vista que a Prefeitura de Santo André acaba de aprovar com o aval sempre dócil e entreguista do Legislativo uma nova legislação que possibilitará até 30 andares de torres residenciais e comerciais. Tudo feito de afogadilho, no apagar das luzes da temporada, ante a pressão mais que sedutora de latifundiários urbanos. Gente conhecida de quem é do ramo, mas que não aparece para o grande público consumidor de informações porque a discrição é a alma do negócio.

Disputa por espaço

Corrobora com meu apontamento à liderança classificatória (para não dizer desclassificatória) da baixíssima qualidade de vida metropolitana uma declaração breve mas cortante de um dos entrevistados da revista sãopaulo. O que disse o professor Michael Marville, especialista em políticas de transporte da Universidade Cornell? Que o fator que determina os congestionamentos em uma cidade é a competição por espaço.

Para os predadores de plantão, como Milton Bigucci, presidente da Associação dos Construtores, que, ainda outro dia, em defesa da superverticalização urbana, citou Nova York como exemplo a ser seguido, entre outras grandes cidades, não custa nada lembrar um dado da reportagem da revista da Folha de S. Paulo: os congestionamentos na pequena ilha norte-americana apontam custo de US$ 9,8 bilhões no ano passado.

E olhem que Nova York tem um sistema de transporte público considerado eficiente, alto grau de utilização desse serviço, uma das menores proporções de veículos por pessoa dos Estados Unidos e um percentual elevado de moradores que se deslocam a pé. Mesmo assim, explica a reportagem, o trânsito é terrível. Daí a preciosidade definidora do especialista Michal Manville.

Insisto que a Folha de S. Paulo, com sua revista sãopaulo, poderia ter estabelecido uma classificação de importância dos 10 problemas apontados. Bastaria ter ouvido os mesmos especialistas que constam da reportagem. Talvez a verdade não fosse conveniente. Atingiria em cheio os interesses do mercado imobiliário, porque não há como sofismar uma realidade cristalina: a produção em massa de torres comerciais e residenciais em áreas cada vez mais restritas, coladíssimas a corredores viários disputadíssimos, é o núcleo de todas as demais questões que desafiam a mobilidade urbana.

Descentralização induzida

Aliás, é exatamente por isso que, entre as propostas da Agenda de Sustentabilidade do Mercado Imobiliário, sugiro que as operações onerosas, que aumentam os potenciais construtivos mediante contrapartidas financeiras ao Poder Público, deveriam ter o gradualismo como raiz. Ou seja: quanto mais próximos os prédios dos viários mais concorridos, mais onerosas as operações seriam.

Quanto mais distantes, mais suaves. A descentralização ocupacional estimulada seria um tiro de misericórdia nos especuladores. E estaria sujeita a reavaliações na medida em que novos viários começassem a dar sinais de comprometimento.

Fosse essa proposta aplicada no estouro da boiada de investimentos que infestam o raio de dois quilômetros do Paço Municipal de São Bernardo, não teríamos uma previsão de congelamento viário quando todos os malucos que adquiriram apartamentos e salas comerciais ocuparem os espaços ainda em obras.

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