Sociedade

UFABC É NOTA ZERO
EM REGIONALIDADE

DANIEL LIMA - 25/02/2026

Não foi por falta de alerta deste jornalista que a Universidade Federal do Grande ABC, próxima do vigésimo aniversário de criação, não alterou em nada o desempenho cambaleante da economia regional. A UFABC foi concebida para frequentar passarelas internacionais com artigos de acadêmicos em vez de contribuir para curar as chagas econômicas de um território violentado nas últimas quatro décadas. Por isso, nota zero para a UFABC em qualquer critério entre muitos que trate de regionalidade.

E regionalidade no caso do Grande ABC começa e termina com Desenvolvimento Econômico. Ou alguém conhece outra vertente que gere riqueza social com direito a tudo que interessa a uma sociedade mais justa? 

A UFABC surgiu na manjedoura de um partidarismo ideológico inapropriado às demandas sociais e econômicas do Grande ABC  -- essa foi uma de minhas batalhas denunciatórias no passado, e passei maus bocados por isso. Nenhuma novidade, portanto. Mais uma, apenas.

A UFABC  deveria ser um centro catalizador e difusor de conhecimento técnico voltado especialmente ao setor químico-petroquímico, uma das duas vocações que restam à região (a outra é a automotiva), mas o movimento reivindicatório girou sempre em torno de especialidades sem conexão direta com a realidade regional. Uma reportagem de Capa da revista de papel LivreMercado, antecessora deste CapitalSocial,  com o título “Nosso Futuro é de Plástico” é exemplar nessa equação. 

RUF ESCLARECEDOR

A prova mais contundente de que a UFABC é uma tremenda roubada regional está impressa a cada edição do Ranking Universitário de Folha, um dos melhores e mais respeitados (embora enviesado por conta do viés exageradamente acadêmico) documentos vinculados à eficiência no setor.

A UFABC se destaca no conjunto da obra da RUF porque dá-se muito mais peso ao que não interessa ao dinamismo econômico. Quando se faz um corte no ranqueamento e se pega a participação da UFABC no mercado de trabalho, é um desastre total. Tanto que ocupa a posição 185 entre pouco mais de 200 concorrentes. É uma barbaridade de ruim.

Por ser  um corpo estranho no organismo econômico do Grande ABC, a UFABC jamais se empenhou para valer em busca de protagonismo ou mesmo de figurante de uma regionalidade no deserto de instâncias tradicionais. Como essas instâncias tradicionais não estão nem aí com a brilhantina, porque vivem num modelo arcaico de corporativismo narcisístico, o que temos passadas duas décadas é uma instituição exatamente dentro do invólucro com que foi concebida.

Não existe fórmula mais perfeita para se consagrar e se desiludir como jornalista no Grande ABC do que conhecer os mandachuvas e mandachuvinhas em diversas áreas. Eles jamais acertam.  A UFABC é um caso típico, com ingrediente adicional de que os formuladores, longe das fronteiras da região, criaram um santuário acadêmico em meio ao inferno econômico regional.

PESO ECONÔMICO

A UFABC brilha intensamente em tudo que se distancie de referência econômica, de mercado de trabalho, de aporte a projetos e ações de cunho minimamente relacionados com o PIB, com a geração de empregos, com tecnologia industrial, com modernização do setor de serviços. Ou seja: no que de fato faz a diferença para a sociedade de três milhões de habitantes, a UFABC é um peso morto.

Os bajuladores de sempre provavelmente vão desfilar artigos comemorativos à criação da UFABC, mas quem conhece bem a trajetória que demandou, cristalizou e executou iniciativas para tornar o pleito regional realidade sabe que a história é outra. O PT moldou a Universidade Federal do Grande ABC sob a doutrina de um elitismo pedagógico-curricular que não combina com qualquer contraponto do empobrecimento regional.

Ninguém definiu melhor a UFABC há muito tempo, e nas páginas da revista de papel LivreMercado, precursora deste CapitalSocial, que o professor universitário Valmor Bolan, especialista em Ensino Superior. Ele sintetizou a universidade criada por Lula da Silva como “barriga de aluguel”. A Universidade Federal “do” Grande ABC deveria ser reformatada na marca que ostenta e adotar o Universidade Federal “no” Grande ABC. A diferença, aspada, pode ser sutil na grafia, mas é imensa na prática educacional.

CETICISMO CERTEIRO

O que temos de fato e para valer lamentavelmente é uma instituição que confirmou a expectativa cética deste jornalista há mais de duas décadas, antes mesmo de ser implantada. O isolamento vai além da materialidade ocupacional de espaços em Santo André e São Bernardo. Muito pior que isso é o distanciamento de qualquer agenda que coloque o Grande ABC como prioridade.

O pior de tudo é que essa própria agenda há muito foi soterrada pela incúria programática do Clube dos Prefeitos. Um soterramento que de vez em quando é negado em campanhas de marketing que vendem mentiras em forma de anúncios de medidas que não passam de requentamento mal-ajambrado de antigas pautas públicas jamais levadas a sério. 

Como gosto de matar a cobra de avaliações e mostrar o pau de conclusões, reproduzo abaixo, integralmente, a análise que produzi em junho de 2004. Portanto, muito antes de a UFABC virar o que virou, previsivelmente. Há 226 textos nesta publicação que se referem direta e indiretamente à UFABC. E não se trata, como se sabe, de matérias rasas. Muito diferentemente disso: é insistentemente uma gourmeteria.  Nada melhor contra o fastfood geral. 

 

Mais investimentos

e menos diplomas

 DANIEL LIMA -- 06/04/2004 

Os intransigentes defensores da Universidade Pública Federal no Grande ABC, que até agora foram incapazes de apresentar um projeto minimamente consistente, precisam recorrer a uma leitura imperdível. Trata-se de “O espetáculo do crescimento”, obra assinada por William Easterly, experiente economista do Banco Mundial. Easterly resume na apresentação do capítulo “Panaceias que fracassaram” o extraordinário senso de racionalidade e conhecimento que expõe em mais de 400 páginas. Acompanhem:

 Muitas vezes durante os últimos cinquenta anos, nós, os economistas, pensamos ter encontrado a resposta certa para o crescimento econômico. Começou com a ajuda externa para preencher a lacuna entre investimento “necessário” e poupança. Mesmo depois que alguns de nós abandonaram a rigidez da ideia do investimento “necessário”, ainda pensávamos que o investimento em máquinas era a chave do crescimento. 

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 Complementando essa ideia vinha o conceito de que a educação seria uma fórmula de acumular “maquinaria humana” que traria crescimento. A seguir, preocupados com a forma como o “excesso” de população poderia avassalar a capacidade produtiva da economia, promovemos o controle populacional. Então, quando percebemos que as políticas dos governos impediam o crescimento, promovemos empréstimos oficiais para induzir os países a realizarem reformas administrativas. Finalmente, quando os países viram-se em dificuldade de restituir os empréstimos a que haviam recorrido para fazer as reformas administrativas, nós oferecemos o perdão da dívida. Nenhum desses remédios mágicos funcionou conforme o prometido, já que nem todos os participantes da criação do crescimento econômico receberam os incentivos certos.

ILUMINANDO O DEBATE

No capítulo relativo aos investimentos em Educação, o economista do Banco Mundial ilumina o debate. Acompanhar seu texto é obrigação de todos que, por qualquer que seja o motivo, coloca a criação da Universidade Pública do Grande ABC como prioridade absoluta num contexto econômico em que ultrapassamos persistentemente a marca de 20% de desempregados. Acompanhem outros trechos da obra:

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 Tem sido claramente decepcionante a resposta do crescimento à espetacular expansão educacional das quatro últimas décadas. O fracasso do crescimento educacional patrocinado pelo governo deve-se mais uma vez ao nosso lema: as pessoas respondem a incentivos. Se não se apresentarem os incentivos para investir no futuro, de pouco vale a expansão educacional. Fazer o governo obrigar os indivíduos a frequentar a escola não muda os incentivos deles para investir no futuro. Criar pessoas altamente capacitadas em países cuja única atividade rentável é fazer lobby junto ao governo pela obtenção de favores não é uma fórmula de sucesso. Criar capacidades onde não existe tecnologia para usá-las não promoverá o crescimento econômico — escreveu o economista do Banco Mundial. 

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 Entre 1960 e 1990 — continua o economista –, refletindo o louvor à educação nos círculos decisórios governamentais, deu-se uma notável expansão da escolaridade. Alimentadas pela ênfase colocada na educação básica pelo Banco Mundial e outros doadores, em 1990 a matrícula no Ensino Fundamental havia alcançado os 100% na metade dos países do mundo. Em 1960, apenas 28% das nações do mundo haviam alcançado 100% de matrículas no Ensino Fundamental. A média de matrícula no Ensino Fundamental subiu de 80% em 1960 para 99% em 1990. 

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 Por trás desses números estão milagres educacionais como o Nepal, que saiu de 10% de matrículas no Ensino Fundamental em 1960 e chegou a 80% em 1990. Em 1960, havia desastres do Ensino Médio, como o Níger, onde na faixa etária desse nível escolar só uma em cada 200 crianças estava cursando a escola. Desde 1960, praticamente quadruplicou a taxa média de matrículas do Ensino Médio no planeta, que subiu de 13% dos alunos dessa faixa etária em 1960 para 45% em 1990. No ingresso à universidade verifica-se uma explosão semelhante. Em 1960, 29 países não tinham um só estudante de nível superior. Por volta de 1990, somente três países estavam nessa situação (as ilhas Cômores, Gâmbia e Guiné-Bissau). De 1960 a 1990, em matéria de ingresso à universidade, a taxa média dos países do mundo aumentou mais de sete vezes, de 1% para 7,5%. 

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 Qual tem sido a reação — continua o economista — do crescimento econômico à explosão educacional? Infelizmente a resposta é: pouca ou nenhuma. A ausência de associação entre crescimento da escolaridade e crescimento do PIB foi notada em diversos estudos. A ausência de crescimento africano apesar da explosão educacional deu margem, num estudo, à pergunta: “Para onde foi essa educação toda?”. Esse estudo construiu uma série sobre o crescimento do capital humano (educação) e não conseguiu encontrar nenhuma associação positiva entre o crescimento da educação e o crescimento da produção por trabalhador (na verdade encontrou uma relação negativa e significativa de alguns exercícios de estatística). 

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 Os países africanos de crescimento acelerado em capital humano durante o período de 1960 a 1987 — países como Angola, Moçambique, Gana, Zâmbia, Madagascar, Sudão e Senegal — foram, no entanto, desastres em matéria de crescimento (econômico). Países como o Japão, de modesto crescimento em capital humano, foram milagres do crescimento (econômico). Outros milagres do Leste Asiático como Cingapura, Coréia, China e Indonésia tiveram um rápido crescimento em capital humano, porém igual ou menor que o dos desastres do crescimento na África. Para estabelecer uma comparação, Zâmbia teve uma expansão de capital humano ligeiramente mais acelerada que a da Coréia, porém a taxa de crescimento de Zâmbia foi sete pontos percentuais menor. 

MAIS PANACEIAS

 Esse estudo também assinalava que, em anos de escolaridade alcançados, o Leste Europeu e a antiga União Soviética se comparavam favoravelmente com a Europa Ocidental e a América do Norte. No entanto, agora sabemos que naqueles países o PIB por trabalhador era só uma modesta fração dos níveis da Europa Ocidental e da América do Norte. Por exemplo, os 97% de matrículas no Ensino Fundamental dos Estados Unidos são um pouco mais altos que os 92% da Ucrânia, mas a renda per capita dos Estados Unidos é nove vezes a da Ucrânia — escreveu William Easterly.

CAIAM NA REAL

Espero que os nobres deputados federais e estaduais decididamente empenhados em construir a Universidade Pública Federal do Grande ABC — e que agora contam com alguns apoios voluntariosos — corram em direção à primeira livraria e mergulhem no trabalho do economista do Banco Mundial. Nos dois textos que publiquei virtualmente nos últimos tempos nesta newsletter, em 16 e 23 de novembro do ano passado, quando desconhecia a obra do norte-americano, acredito que tenha fixado os suportes conceituais sobre o assunto.

Embora não desqualifique o movimento em prol de uma universidade pública, evidencio naqueles artigos que está muito longe da prioridade necessária para uma região abatida em 36% do PIB nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso e que provavelmente acrescentou mais alguns pontos percentuais no primeiro ano do governo Lula da Silva de PIB abaixo de zero.

Até porque, seria uma mistura de estupidez e precipitação concordar tacitamente com o que se apresentou até agora como simples slogan em que prevalece tanto um regionalismo seletivamente educacional quanto eleitoral.

Aliás, não é por outra razão que estão à frente do movimento no âmbito federal os deputados Ivan Valente e Luizinho Carlos da Silva, professores de origem profissional e deputados de ramificação educacional.

QUESTÕES ESQUECIDAS

A luta que se pretende regional por uma universidade pública federal está, por isso mesmo, muito distante das verdadeiras questões que nos afligem. Por mais boa-vontade e mesmo pureza doutrinária que os deputados Ivan Valente e Luizinho Carlos da Silva eventualmente apresentem ao liderarem a iniciativa, a realidade prática se impõe de forma soberana no sentido de que a proposta não se apresenta com substância consistentemente defensável, exceto pelos patrioteiros de um regionalismo mambembe.

A obra do economista do Banco Mundial à qual recorro para consolidar argumentos anteriormente impressos nesta newsletter provavelmente exorciza o Complexo de Gata Borralheira que abate a todos que frequentam o ambiente do Grande ABC. Foi proposital o reforço de um profissional que associa experiência teórica e prática para desmistificar frases feitas que se tornaram palavras de ordem.

Estamos cansados de ver nas filas de desemprego economistas, advogados, jornalistas e tantos outros profissionais graduados em busca de uma ocupação qualquer. Precisamos de mais PIB per capita e de menos PHDs. Pelo menos até encontramos a estrada da salvação.



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