Aconselho os leitores, para reflexão geral da sociedade, que tomem muito cuidado com as notícias que viram peças publicitárias disfarçadas de jornalismo. Tenho sempre os pés atrás quando leio manchetes e notícias que dão conta disso e daquilo de avanços públicos em áreas diversas, especialmente de Saúde e Educação, quando não de Economia e Segurança Pública. Para não dizer de movimentos na arena político-eleitoral. O despudor tomou conta do pedaço.
Isso mesmo: os marqueteiros tomaram conta dos sete pedaços regionais como jamais tomaram conta ao longo da história. Os marqueteiros regionalizaram especialidades que vão do ilusionismo ao seletivismo. Os marqueteiros chegaram ao ponto de até tentarem levar o público a acreditar que o Clube dos Prefeitos funciona, embora seja uma algazarra estratégica. Com perdão do significado de estratégia.
A esculhambação metodológica é geral e não distingue prefeitos ou vereadores, deputados ou assessores políticos. O Grande ABC – e vamos tratar de onde vivemos – é uma festa aos falsificadores da realidade. Só falta combinar com indicadores sustentáveis.
CICLO INTERMINÁVEL
Notícias alvissareiras frequentam manchetes e manchetíssimas, e proliferam, sempre com viés político-eleitoral implícito. Pena que o tempo passa na catinga da fumaça e logo pipocam a contragosto dos marqueteiros novas manchetes que diluem temporariamente o entusiasmo, logo retiradas do realismo com novas ondas de manipulações. Trata-se de um ciclo interminável ocupado por longos e falsos aplausos e breves suspiros de verdades indesejáveis. A linha do tempo é implacável porque coloca tudo no devido lugar, mas sem o impacto transformador sempre protelado.
O intervalo entre o passado sofrível e o presente indesejado é tomado pela irresponsabilidade que adia permanentemente a tomada de decisões profiláticas. Os marqueteiros manipulam o tempo e o senso comum, tornando o primeiro supérfluo e o segundo anestesiado.
Preto no branco mesmo, só existe uma verdade consistente no ritmo amalucado com que jornais de papel e digitais circulam no Grande ABC nestes últimos tempos: a criminalidade no sentido mais amplo da expressão deu uma bela recuada, embora, paradoxalmente, o ambiente criminal de indicadores intangíveis coloque a Segurança Pública na prateleira principal de demanda social. É verdade que praticamente todos os indicadores declararam guerra à bandidagem miúda. O paradoxo entre os números em queda e ambiente inquietante é explicado pela diversidade delitiva mais discreta e rentável do crime organizado.
VISIBILIDADE TECNOLÓGICA
A razão básica da derrubada das infrações criminais detectáveis é a tecnologia avançada como dedo-duro do ambiente urbano. Flagram-se com facilidade delinquentes em amplas áreas da metrópole. Inibe-se a pratica criminal sensível as câmeras de monitoramento. O policiamento ostensivo tornou-se rotina como complementaridade tecnológica.
Portanto, o crime visível tornou-se controlável. O invisível, cheio de maracutaias, diferentemente disso, fortalece-se nas relações pecaminosas entre agentes criminais e agentes públicos, principalmente.
O leitor mais atento desta revista digital sabe quais são os ranqueamentos que filtramos tendo como critério consistência metodológica e robustez técnica dos formuladores institucionais. Não caímos na vala comum dos marqueteiros de plantão que carnavalizam dados de instituições fajutas para levar clientes às manchetes e manchetíssimas.
COMBINAÇÃO PERTURBADORA
Não sei como os marqueteiros interpretam minhas evoluções teóricas quando os chamo de marqueteiros. Eles já devem ter percebido que a conotação é mesmo depreciativa. Não é generalizada, claro, mas é depreciativa. Por mais que entenda as funções que exercem, acho que conhecimento sociológico, materialismo indomável e narcisismo social os levam a uma plataforma de desprezo e irresponsabilidade que impacta por muito tempo a sociedade. Esse é um juízo de valor dirigido à maioria dos marqueteiros, não às exceções.
Os marqueteiros do mal não estão apenas na política, transformando-a em atividade ilícita do ponto de vista ético e de responsabilidade social. Também os meios de comunicação carregam vieses formulados direta ou indiretamente por agentes estranhos às demandas dos consumidores de informação. Em alguns casos são extensão da teia de interesses dos mandatários políticos de plantão. Poucos percebem.
A prática do jornalismo ganhou tanta flexibilidade nos últimos anos, com o advento da tecnologia portátil, que é praticamente impossível chegar às entranhas dessa transformação. Joga-se um jogo de subserviência tamanho que alguns encaminhamentos sofrem atropelos, entre as ações diretas dos marqueteiros e comandos de redações. É uma mistureba dos diabos. E os pobres leitores acreditam na virgindade de conteúdos estupradores.
OBSERVAÇÃO APURADA
Os leitores em grande parcela da sociedade jogam o mesmo jogo dos ministros supremos: imaginam que sabem ler o que deve ser lido, ou que sabem ouvir e ver o que deve ser ouvido e visto. Essa massa de leitores não passa da superficialidade bem elaborada pelos marqueteiros.
Os efeitos deletérios do desconhecimento com ares de conhecimento são dramático porque a ingenuidade lubrifica a consistência cognitiva. A leitura fastfoodiana é a regra geral e irrestrita e como regra geral e irrestrita solidifica a ignorância. Junte-se a isso o radicalismo político-ideológico e temos um caudal de desinformação calcificada.
Se os leitores forem espertos para valer e procurarem preservar a natureza das coisas, devem desconfiar sempre das fontes de informação. Sem exceção. Confira o que os jornalistas escrevem hoje e escreveram ontem. Não tirem conclusões precipitadas, mas não sejam ingênuos. Escrevo cada parágrafo sempre com essa sensibilidade crítica. Ou seja: tenho compromisso com a sociedade e não posso abrir o flanco colocando eventuais interesses pessoais a serviço de conveniências.
Sou tão obsessivo com isso que não tenho dúvida do quanto o jornalismo se tornou uma atividade prejudicial à pessoa física que sou. Cada jornada crítica sinaliza descontentamento de mandachuvas e mandachuvinhas. Tanto que sei o que andam e sempre fizeram para tentar me calar. Tempo perdido. Faz 60 anos que abracei essa função pública e não vejo maneira de parar. Deixar de escrever seria algo como deixar de respirar.
PRÁTICA E AVALIAÇÃO
Tenho um faro fino para ler principalmente as entrelinhas dos jornais e revistas. No caso específico do Grande ABC, não há parágrafo seguido de parágrafo de qualquer jornal de papel ou digital que não decifre sem dificuldades, porque é um exercício continuamente prospectivo.
Depois que descobri por ações próprias a diferença entre leitor comum e ombudsman, passei a adotar a segunda alternativa e tudo ficou mais apropriado a desmascaramentos. O leitor comum teria dificuldades de seguir essa trajetória evolutiva, por assim dizer, porque é preciso conhecer a prática do jornalismo para, em seguida, alcançar a interpretação da prática de jornalismo. Isso não é esnobismo. É realidade. Uma pena que assim o seja. Os marqueteiros fazem a festa ao venderem contaminações como se purezas fossem.
Os leitores mais longevos sabem de minhas loucuras como jornalista. A centralidade do Grande ABC nestas páginas digitais é uma questão de foco de vida, independentemente do aspecto profissional. Devassar o Grande ABC possível, repleto de mentiras e meias-verdades, é tarefa diária que exige atenção máxima, fontes confiáveis e independência. Tudo que é contraproducente a quem pretende ter uma vida tranquila.
Os inimigos da informação sustentável em fatos e indicadores são implacáveis. Eles geralmente se odeiam, mas se unem contra quem eventualmente os coloca desnudos diante da sociedade, principalmente dos formadores de opinião.
Para esses delinquentes sociais a vida está uma maravilha porque podem jogar o jogo que quiserem sem grandes riscos. Está tudo dominado. Até prova em contrário. Há um controle social organizadamente instrumentalizado por agentes políticos. O vértice da Sociedade e o vértice Econômico estão sequestrados. A essência do que a literatura resolveu chamar de capital social foi para o beleleu há muito tempo.
Um território em que a Economia vira pó e em que os representantes sociais, também por conta disso, se entregam aos territorialistas que se fingem regionalistas, um território com essas características não passa de um bando de zumbis. Com o agravante de que grande parte dessa mesma sociedade de alienados se acha especialista em política nacional. Mal conseguem identificar localmente o que tanto criticam ou aplaudem no palco maior de sem-vergonhice chamada Brasília.
Como escrevi em 1994, entre outras oportunidades, falta ao Grande ABC o que sempre chamei de “entidade cerebral”. Os mandachuvas e mandachuvinhas não têm interesse em qualquer iniciativa que redunde em democratização do espaço regional porque é na repartição de poderes sob controle e no fingimento de que lutam pela regionalidade que eles se organizam para reinar cada vez mais, distribuindo favores e perseguições de acordo com o comportamento individual ou mesmo grupal dos agentes sociais.
E os marqueteiros pragmáticos por natureza e safadeza estão sempre prontos para formularem planos e ações tratados com zelo e aplausos pela mídia oportunista.
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25/02/2026 UFABC É NOTA ZERO EM REGIONALIDADE