Sociedade

Diário entra com tudo na disputa
pela presidência da Acisa. Mal sinal

DANIEL LIMA - 10/01/2012

Como antecipamos aqui, o Diário do Grande ABC vai disputar a presidência da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) com o diretor Evenson Dotto, o último ramal auxiliar dos fundadores de uma empresa que já conheceu dias de glórias mas que ainda segue a editar o principal veículo impresso da região — embora isso não ofereça a mínima garantia de que os leitores são bem informados. Muito pelo contrário. Do outro lado da disputa está confirmado o empresário imobiliário Flávio Martins, há mais de uma década naquela entidade.

O desgaste a que se submeterá a imagem do Diário do Grande ABC nesse embate ainda tratado publicamente com punhos de renda é inevitável. Tanto quanto o que se dá na área esportiva-negocial com o Saged presidido pelo comandante do Diário do Grande ABC, Ronan Maria Pinto.

O Saged, como devem saber os leitores, é a representação do futebol de Santo André na próxima Série B do Campeonato Paulista. Vem de quatro rebaixamentos. Usa o uniforme tradicional do Esporte Clube Santo André por formalidade legal, porque não guarda a mínima história com o clube sediado no Parque Jaçatuba.

A Acisa é menos importante do que se propaga, sem que isso signifique dizer que não tem importância alguma. Está para as instituições assemelhadas de Santo André assim como o Diário do Grande ABC para o setor jornalístico: vive muito mais da tradição do que de ações efetivas.

Propagam agora que a disputa eleitoral envolveria potencialmente quatro mil associados. Há versões de que não passariam de dois mil. Outros garantem que um mil seria o máximo dos cadastrados e em dia com obrigações estatutárias. Sejam quantos forem, a Acisa está longe da grandiosidade sugerida por mais de meio século fundação. O distanciamento dos empreendedores de comércio e serviços (o apêndice industrial não passa mesmo de apêndice) é um mal que sempre dura e jamais se acaba.

Planejamento óbvio

Leio que um dos planos do candidato Flávio Martins é profissionalizar o comando técnico da Acisa. Provavelmente Evenson Dotto sacará do mesmo discurso. Mais que isso: nada garante que não tenha sido Evenson Dotto a sugerir a proposta. Não porque um ou outro seja gênio. Profissionalização é questão chave de entidades de voluntariados.

A Acisa é um amontoado de boa-vontade, de dedicação voluntária e de empenho individual de seus dirigentes. Tudo que uma organização competente deveria evitar. Ou ter apenas como complemento. Sem atrapalhar quem é do ramo.

Duvido que Evenson Dotto e Flávio Martins tenham tantas diferenças a apresentar como propostas de ações. Eles vivem no ambiente da entidade há tantos anos. Certamente estão institucionalizados para o bem e para o mal, para o produtivo e o improdutivo, para o lógico e para o ilógico.

Sem maldade alguma, diria que o melhor produto que a Acisa tem a apresentar ao público é a festa de natal, quanto a fachada da sede é tomada por um exército de frequentadores de nossa imaginação infantil e um coro executa canções que sempre inebriam. Juntam-se milhares de espectadores.

Desprezo do prefeito

Este ano, numa mistura de descaso e de afronta, o prefeito Aidan Ravin deu de ombros à programação. Nem apareceu para acompanhar o espetáculo que sempre emociona. Dizem alguns de seus assessores que o prefeito já teria perdido a paciência com a entidade, que não vê vantagem alguma em aproximar-se daquele endereço, porque tem carisma suficiente para alcançar mais gente sem passar pelo referendo de pressões políticas miúdas.

Aidan Ravin não teria ido à festa da Acisa porque a festa da Acisa não lhe apetece entre outras razões devido à baixa representatividade político-institucional da entidade.

Acho que o prefeito não fez bom negócio. A Acisa não é uma incubadora de votos como alguns pretendem fazer crer, mas não está jogada às traças como os mais radicais sugerem. Goste-se ou não, seja operante ou vacilante, seja conservadora ou pouco profunda, a Acisa tem grife. E grife nesta Província ajuda a fazer a diferença. Principalmente para quem de alguma forma precisa de votos.

Se o prefeito Aidan Ravin for levar a ferro e fogo o conceito de representatividade flácida da Acisa, deixará de freqüentar praticamente todas as instituições econômicas, sociais e culturais de Santo André, ligadas que estão pelo congelamento operacional.

Estou acompanhando atentamente as eleições na Acisa porque as informações ajudam a engrossar o caldo de cultura de que tanto preciso como analista social.

Se o presépio do final do ano não é de fato o melhor produto da Acisa, o mínimo que se tem a dizer é que parece ser. E se parece ser, é sinal de que a Acisa não tem competência para vender eventuais outros serviços que coloca à disposição dos associados.

Alheamento total

Certo mesmo é que, como tantas outras instituições classistas da região, a Acisa é um fracasso no campo da responsabilidade social. Entenda-se por responsabilidade social a grandeza de meter-se problemas adentro da sociedade, tanto na área econômica como comunitária. Temas relevantes como o escândalo da Cidade Pirelli não só não são abordados pela Acisa como se tornam estorvos quando nascem em outras manjedouras.

Uma entidade que tem no Conselho Superior alguém como Sérgio De Nadai, condenado pela Justiça por conta do Escândalo da Merenda Escolar e não vem a público para se posicionar quanto às razões daquele convite e, em seguida, anunciar providências para depurar o ambiente, não é uma entidade que possa olhar para o Paço Municipal de Santo André, seja qual for o prefeito de plantão, é contrapor-se como representação de forças econômicas.

Por essas e por outras a candidatura de Evenson Dotto é uma roubada para o Diário do Grande ABC. Transmite a sensação de um imperialismo a todo custo com a contrapartida indesejável de voo de camicase, em caso de derrota.

Por mais que o presidente Sidnei Muneratti afirme que a Acisa vive um momento democrático, incomum nas entidades congêneres, haja visto o mandato perene de Valter Moura em São Bernardo e de Milton Bigucci na Associação dos Construtores, entre tantos exemplos a pinçar, a condução da sucessão presidencial entrou em parafuso.

Fosse outro o concorrente de Flávio Martins, exceto Evenson Dotto, até que se permitiria acreditar em dinamismo da entidade. Como está, a Acisa vive um momento delicadíssimo, de divisionismo. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

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Complicações à vista: Diário quer assumir a presidência da Acisa



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