Sociedade

Será que OAB-Santo André saltou
mesmo do muro ou é apenas fita?

DANIEL LIMA - 20/04/2012

O apagão que marcou a cerimônia de adesão da direção da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santo André ao projeto Ficha Limpa proposto pelo vereador Almir Cicote foi uma penalidade do destino à opacidade institucional da entidade. Os jornais não dizem se o sistema de som funcionou. Provavelmente não. Mas isso é apenas detalhe. O que se coloca em dúvida -- e há uma montanha de razões para se agir com cautela -- é se a entidade presidida por Fábio Picarelli está patrocinando pirotecnia discursiva ou saltou mesmo do muro da insensibilidade, metendo-se para valer no Escândalo do Semasa.
 
Disse o dirigente da OAB-Santo André, em matéria sucinta publicada na edição de hoje do Diário do Grande ABC, sobre o Escândalo do Semasa, que a instituição prima pela presunção constitucional da inocência, até o encerramento das investigações, e que lamenta o triste cenário que se evidencia em todos os noticiários. Tomara que a frase rebocada da Carga Magna não seja um atalho preventivo ao voyeurismo institucional, parente muito próximo da covardia avaliativa.
 
Negligência tem preço
 
Faltou a Fábio Picarelli confirmar aos convidados que foi negligente com as denúncias desta revista digital sobre as irregularidades cometidas no projeto Cidade Pirelli, as quais foram levados até ele por este jornalista no ano passado e que são em última instância o fio da meada do Escândalo do Semasa. Tivesse agido como prometera, a OAB teria capitalizado o respeito dos associados, dos advogados que não querem nem ouvir falar da entidade por causa de omissões e descasos e principalmente teria se aproximado da sociedade, estimulando-a a reagir também em outras fronteiras.
 
Até prova em contrário o discurso de Fábio Picarelli não passará de jogo de cena, a reboque de situação constrangedora. Ou não seria o fim da picada, ou não seria a confissão de alheamento social imperdoável, que se realizasse uma cerimônia de apoio ao projeto Ficha Limpa municipal sem que se colocasse em pauta o Escândalo do Semasa, autarquia municipal ao alcance dos olhos de qualquer convidado do evento de ontem a uma simples esticada de pescoço em direção às janelas. A fachada da sede do Semasa e os concretos armados do Paço Municipal são fronteiriços à OAB.
 
A OAB-Santo André teria o respeito da classe e da sociedade se o enxerto da pauta do cerimonial  não parecesse improvisado por conta do contexto. Como descartar, entretanto, a possibilidade de que tudo não passou de uma oratória emergencial?
 
Comissão de Notáveis?
 
Fosse a OAB-Santo André decididamente preparada a dar exemplo de que está vocacionada a dialogar com a sociedade, o evento teria marcado não apenas um discurso moralizador, mas uma ação prática de interferência política mas não partidária na barafunda de governabilidade da Administração Municipal, engolfada por denúncias cabeludíssimas. Uma comissão de notáveis da OAB seria a senha de uma empreitada que, mais que frases de impactos, reuniria um plano de ação vigoroso de acompanhamento e monitoramento das investigações.
 
Até prova em contrário não acredito sinceramente que a OAB-Santo André tenha autonomia para suportar pressões multilaterais que ameaçam jogar as apurações do Escândalo do Semana na vala comum de postergações, esvaziamentos e, finalmente, esquecimento. Há laços de família, de interesses negociais, de transversalidades institucionais que inviabilizariam medidas vigorosas, transparentes e democráticas, para empurrar a cronologia de esclarecimentos em direção a um limite compatível com critérios de resolutividade. Quanto mais se esticar a corda de apurações, uma corda que parece ganhar novos nós a cada dia, mais provavelmente o Escândalo do Semasa será deslocado à penumbra.
 
Há nomes de peso nos quadros diretivos da Ordem dos Advogados do Brasil em Santo André que poderiam imprimir novo ritmo de comprometimento da entidade com a apuração do Escândalo do Semasa. O silêncio coletivo desses quadros, subordinado a um presidencialismo quase inerte, para não dizer omisso, será condenatório quando se exumar a história dessas irregularidades. A presunção constitucional da inocência alardeada por Fábio Picarelli no discurso às escuras de ontem à noite não pode se converter em porta de entrada e de saída para a omissão ou para uma reação teatral.
 
Marcar posição cuidadosa agora e esperar o desenlace para alardear independência são medidas que podem integrar o manual de sobrevivência ética recomendado por marqueteiros  especializados em imagem pública, mas não suportariam o crivo crítico de quem conhece muito bem as regras desse jogo de cartas marcadas.


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