Sociedade

Província perde associações de
bairros e vigilância fica à deriva

DANIEL LIMA - 26/04/2012

O desaparecimento de associações de amigos de bairros, por razões múltiplas que não pretendo exumar agora, aprofundou a fragilização da vigilância social e colocou as fronteiras desta Província às portas do inferno, sobretudo no mercado imobiliário. Os sinais são evidentes. Estamos penetrando num buraco logístico sem saída, com ataques frontais à qualidade de vida. Os desdobramentos de torres residenciais construídas ao sabor de conveniências, privilégios e descuidos próprios dos incompetentes já se cristalizaram no sistema viário. Estamos ganhando definitivos ares de metrópole no que há de pior na terminologia. Província é nossa marca indestrutível, inerente à alma suburbana de origem manufatureira.
 
Sem a combatividade de associações de bairros perdemos um dos pontos de observatório social do qual comunidade alguma deve abrir mão, sob pena de ver-se entregue à própria sorte. No passado, movimentos organizados sem injunções políticas mais exacerbadas tratavam de minimizar abusos e de providenciar pequenas mas importantes intervenções públicas. Ficamos órfãos dessa institucionalidade popular que se expandia em forma de cultura participacionista em outras esferas. Diferentemente, portanto, da Capital tão próxima que, ao menos em bairros de classe média, mobiliza-se para conter o ímpeto dos gananciosos movidos à alta rentabilidade de negócios sem se incomodarem com as sequelas sociais.
 
Uma lista preliminar
 
Embora tenha escrito logo acima que não pretendo exumar as razões do desaparecimento e também da raquitinização das sociedades amigos de bairros, não resisto a pontuar alguns aspectos que poderiam explicar a debacle que tem custado muito caro ao conjunto da sociedade. Ou alguém duvida que a situação desequilibra totalmente o jogo da harmonia social? O Poder Público deita e rola e os representantes do capital não pensam em outra coisa senão no próprio umbigo. Vejam os principais pontos:
 
1. O envelhecimento da população sem a reposição de lideranças entre os herdeiros familiares, agora entretidos nas redes sociais virtuais e inócuas porque produtoras de idiotices juramentadas em forma de suposta sabedoria.
 
2. As atrações dos meios de comunicação, sobretudo a TV, a anestesiar mobilizações, mantendo a audiência presa às quatro paredes domiciliares.
 
3. A tomada dos espaços por agentes políticos, principalmente vereadores, de interesses difusos e na maioria dos casos atrelados ao Poder Público de plantão. Uma situação que reduz o ímpeto do contraditório produtivo, substituído pelo individualismo adesista.
 
4. O esgarçamento da qualidade de vida, sobretudo na área de segurança pública, a dissuadir a cultura de boa vizinhança nos bairros e a abrir espaços para forças estranhas à democracia social, porque permeadas de delinquência criminal.
 
5. A cultura do individualismo sobrepondo-se ao coletivismo como alternativa à resolução de problemas pontuais de interesse circunscrito aos seletivamente envolvidos. Troca-se o todo pela parte.
 
6. O empobrecimento econômico contínuo de uma região outrora industrializadora de mobilidade social de verdade, não apenas movida a consumo.

É claro que esta é uma lista preliminar, feita de supetão. Serve apenas para dar uma ideia do que pretendo dizer. Se é que me entendem. O fato é que há muito tempo não lemos ou ouvimos que determinada associação amigos de bairros mobilizou-se para qualquer iniciativa coletiva localizada ou abrangente.
 
Exemplo de fragilidade
 
Querem um exemplo claro, cristalino, insofismável do quanto andamos a deriva?
 
Moro no Jardim do Mar, em São Bernardo. Sou vizinho dos moradores e comerciantes instalados na Avenida Vergueiro. Estou a menos de 500 metros do Paço Municipal ocupado por Luiz Marinho. Também estou muito próximo da avenida reservada aos desfiles carnavalescos. Parece-me que se chama Aldino Pinotti, ex-prefeito de São Bernardo. Estou bem  próximo das antigas instalações da Tecelagem Tognato, colada ao Shopping Metrópole. Não mais de mil metros separam minha residência da badalada Avenida Kennedy, onde se constrói um shopping que vai dar com os burros nágua, porque é direcionado aos ricos da região, poucos como se sabem. E metidos a consumir em São Paulo. A mesma Avenida Keneddy de onde se observam quatro gigantescas torres de apartamentos em fase de construção, na Rua Continental. São torres são iguais que aos desavisados podem parecer enormes espelhos multidimensionais de uma única unidade. Aliás, toda essa região está tomada de espigões. A farra é geral. A especulação é total.
 
Ninguém fez absolutamente nada para questionar até que ponto essa loucura ocupacional estava adequada à legislação e também ao suporte do sistema viário de modo a garantir mobilidade urbana razoavelmente compatível com os princípios de civilização motorizada.
 
Mais que isso: até que ponto a legislação não foi usurpada por interesses mesquinhos?
 
Mais que isso, de novo: até que ponto aquelas torres da Rua Continental não infringiram a legislação em vigor, porque me chegam informações de que se construíram mais apartamentos do que seria permitido, mas que haveria gente de coturno elevado por trás do negócio.
 
Mais que isso, ainda: a ocupação da antiga área da Tecelagem Tognato também se deu com alta voltagem de riscos e contrapartidas para bolsos específicos.
 
Pandemônio viário
 
Independentemente de tudo isso, o que sei é que essa área de São Bernardo, Jardim do Mar e vizinhança, como tantas outras na região, está virando um pandemônio viário. E diferentemente do que pensa o staff do prefeito Luiz Marinho, não haverá monotrilho que dará jeito, se monotrilho de fato passar por São Bernardo. O caos está instalado. Prevêm-se novos ramais, agora de bairros, de grandes engarrafamentos para, acreditem, acessar a Via Anchieta, aqui tão próxima. Quando não engarrafamentos à saída das torres, como na Capital.
 
Sinceramente, nem sei se existe associação amigos de bairro onde moro. Jamais ouvi qualquer coisa a respeito. Estamos órfãos. Os veículos de comunicação, em larga escala, estão comprometidíssimos com os aproveitadores imobiliários. Esperar que a Associação dos Construtores, de Milton Bigucci, ao menos se incomode com tudo isso, seria muita ingenuidade. Como se sabe, Milton Bigucci fez daquela suposta entidade sua fortaleza de marketing e de lobby.
 
Fica, então, a pergunta: a quem recorrer para obstar os passos dos trambiqueiros éticos e mercantilistas que fizeram do solo da Província do Grande ABC uma extensão do que impingiram à população da Capital, mesmo com a Capital dando alguns sinais de vitalidade com mobilizações de entidades sociais e uma mídia não tão decididamente entregue às interesses imobiliários?
 
Estamos metropolizados de vez. Ganhamos ares da Capital sem ter qualquer contrapartida de ser Capital. Mais que isso: estamos multiplicando todas as desvantagens de ser Província. Somos uma Gata Borralheira que se acha Cinderela e que assiste passivamente o construir de fortunas imobiliárias sintomaticamente simbolizadas pelo Escândalo do Semasa.
 
O resumo desta ópera é que não temos capital social suficiente para mudar mesmo que parcialmente a ordem de um jogo integralmente dominado pelos detentores de poder político e por uma raia graúda de espertalhões econômicos. Nossa sociedade está morta e enterrada.
 
Há alguns sobreviventes, é verdade, como demonstram depoimentos do Conselhão Regional desta revista digital. Mas somos uma minoria tão incômoda quanto discriminada pelos donos do pedaço ou mesmo por uma grande maioria de vítimas que preferem o silêncio à luta.


Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1125 matérias | Página 1

12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO
11/06/2025 PÁGINAS VIRADAS DE UMA MUDANÇA DESASTROSA
05/06/2025 VIVA DRAUZIO VARELLA, VIVA A REGIONALIDADE
30/05/2025 RANKING DE QUALIDADE DE VIDA: SANTO ANDRÉ SOFRE