Sociedade

Uma agenda para as associações
comerciais da Província de Gelo

DANIEL LIMA - 03/05/2012

Sem cobrar um tostão sequer (continuo com a mania besta de levar a regionalidade à sério) vou preparar nos próximos dias uma espécie de agenda que poderia fazer a diferença institucional das Associações Comerciais (e pretensamente Industriais) da Província do Grande ABC. Vou realizar exatamente aquilo que esperava de Evenson Dotto e a nova (nova?) diretoria da Acisa (Associação Comercial de Santo André),  tradicional porta-voz (sempre com deficiências crônicas) do setor na região.
 
Se fosse um consultor paulistano, a Cinderela da Região Metropolitana de São Paulo, os provincianos das associações comerciais da região (nem todos os dirigentes, é claro) me pagariam uma fortuna para produzir a agenda em questão. Complexo de Gata Borralheira é nossa marca indelével.
 
Como não sou oficialmente consultor e muito menos tenho em meu cartão de visita algum endereço da Capital reluzente, o que vou apresentar é mais uma simples colaboração na tentativa de auxiliar no processo de modernização dessa carcomida região. Sei que vou dar com os burros nágua. Ainda recentemente preparei uma agenda para o mercado imobiliário regional, a reboque, provocativamente, da tentativa do dirigente Milton Bigucci calar-me neste espaço, indo à Justiça com baboseiras típicas dos ditadores.
 
É claro que a inutilidade diretiva de Milton Bigucci (em contrapartida à carreira vitoriosa de empresário) como suposto comandante da Associação dos Construtores é a principal e provavelmente única barreira a transformações. Não é por outra razão, aliás, que um movimento de rebeldes já está instalado. Uma incubadora oposicionista já se movimenta para tirá-lo da vitaliciedade presidencial de uma entidade que se tornou ficcional.
 
Realidades diferentes
 
A realidade operacional das associações comerciais da Província do Grande ABC é diferente do desprezo classista da Associação dos Construtores, na qual pequenos e médios empreendimentos são lançados à própria sorte. Entretanto, do ponto de vista institucional, de articulação com a sociedade e com a classe, há muitas semelhanças. É claro que a Associação dos Construtores é imbatível em alheamento social e classista-- até porque, insisto, é ficcional.  As relações da entidade de Milton Bigucci não passam de extensão mercantil dos fornecedores do Grupo MBigucci.
 
Tivesse a direção da Associação Comercial de Santo André disposição para valer (e preparo técnico) para iniciar uma grande revolução nas relações entre comerciantes, prestadores de serviços e profissionais liberais do Município, o tiro de partida de uma nova jornada já teria sido disparado. O que temos na Acisa de Evenson Dotto é o ensaio da mesmice da mesmice dos mandatários anteriores, por mais que uma ou outra ação seja levada a campo seletivamente para sugerir à platéia que tudo está se modificando. Marketing também serve para vestir a mesmice de suposta novidade. Tudo bem, faz parte do jogo, mas não fica bem em instituições com compromisso social porque perpetua os desarranjos, as omissões, os despautérios e os compadrios.
 
É por conta disso, principalmente por conta disso, que resolvi preparar uma agenda que servirá a todas as associações comerciais. Repito a expressão "associações comerciais" por uma razão simples, lógica e direta: parem com essa bobagem de acrescentar "industrial" à denominação porque jamais, em tempo algum, essas organizações infiltraram-se em algum grau representativo nas vísceras da indústria de transformação.
 
Bobagem antiga
 
Aliás, sobre isso, sobre essa distinção que deveria reavaliar a denominação histórica dessas entidades, lembro de Cláudio Rubens Pereira, mentor e criador da Anapemei (Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas Industriais).
 
Cláudio Rubens Pereira foi um dos maiores talentos institucionais já desperdiçados na região. A Anapemei desapareceu da praça da Província do Grande ABC porque praticamente todas as indústrias filiadas, mais de uma centena e meia nos melhores momentos (ou nos piores momentos, porque a crise era o combustível de todas) também desapareceram, engolfadas pela globalização, pela guerra fiscal, pelo massacre tributário, pela ação sindical no tratamento isonômico de empresas de portes diferentes, entre tantas agruras. Pois Claudio Rubens já dizia, quase três décadas atrás, que havia uma clara incompatibilidade de gênios entre comércio e indústria. Uma disparatosa incompatibilidade que impedia a efetiva ação das "associações comerciais e industriais".

Aliás, para tanto, ou seja, para a representação industrial, já existem as unidades do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), braços provincianos e sem autonomia do setor política e economicamente centralizado na Cinderela Capital.
 
Mordendo consciências
 
Há de perguntar o leitor mais inquieto a razão deste jornalista dispor-se a preparar uma agenda sobre a qual não terá controle algum e, mais que isso, sabe de antemão que seria desperdício de tempo. Verdade verdadeira. Mas como escrever é uma terapia para mim, contrariamente a de outros profissionais do ramo e escritores que dizem sofrer com a atividade, e como sei multiplicar meu tempo neste planeta (vejo futebol, leio cinco livros alternadamente, assisto à novela das nove, corro, consumo todos os jornais diários, todas as principais revistas de circulação nacional, todos os jornais virtuais e impressos da região, e até tenho tempo para dar alguma assistência aos filhos que conseguem uma agenda familiar no cotidiano atribulado de trabalho e estudos) podem acreditar que o farei com o mais absoluto carinho.
 
Até porque será uma forma de documentar uma realidade que alguns insistem em tentar desvirtuar: não fico a ladrar incessantemente enquanto a caravana passa, como sugeriu certa vez um estelionatário travestido de empresário.
 
Primeiro,  porque além de ladrar, mordo mesmo a consciência dos improdutivos. Segundo, não há caravana alguma a passar porque a imobilidade institucional na Província do Grande ABC, quando se trata de representantes econômicos e sociais e em contraponto à classe política sempre ávida, é mesmo de lascar. Estamos todos congelados. Uma tentativa de aquecimento neste outono que chega não custa nada. Nem mesmo o desconsolo de observar que nada sairá do lugar, porque já estou emocionalmente preparado para tanto. Somos uma Província de Gelo.


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