Sociedade

PT exagera na dose ao partidarizar
futebol vitorioso do São Bernardo

DANIEL LIMA - 15/05/2012

Passada a euforia e comemorado merecidamente o título da Série B do Campeonato Paulista (que a Federação e a Imprensa insistem em chamar de Série A-2, contrariando a padronização internacional e confundindo as bolas porque o quem vem a seguir, como a Segunda Divisão, de fato é Quarta Divisão) não vou perder a oportunidade: dou razão ao candidato oposicionista em São Bernardo, Alex Manente, sobre a partidarização petista da Administração Municipal. No caso do futebol, se a isso especificamente se referia Alex Manente, há completa conexão entre oratória e realidade. Em outras temáticas, que pareciam ser o alvo do deputado estadual, é possível que haja repeteco -- porque o hábito do cachimbo faz a boca torta.
 
A verdade que precisa ser repassada à Administração Luiz Marinho é que o PT não está sabendo comandar o futebol da cidade fora dos gramados, caso a perspectiva seja o futuro mais distante, não o mais imediato. Até porque, goste-se ou não, democracia é regime que implica a troca de comandos. O PT não será eterno na Prefeitura de São Bernardo, como não o foi em Santo André, nem os tucanos o foram na presidência da República. O que será do Tigre depois do PT na Prefeitura? -- eis a pergunta. O time empresarial mudaria de nome e de cidade? Acabaria por se instalar em outro Município petista? Se for essa a projeção empresarial, nada mais perfeito.
 
A justa e meritória festa de sábado à noite no Estádio Primeiro de Maio, quando o Tigre empatou com o União de Santa Bárbara do Oeste e garantiu o titulo como suplemento ao acesso assegurado bem antes, transformou-se no suprassumo da partidarização explícita  a sacudir milhares de residências a quilômetros de distância do campo de jogo com fogos de artifício ruidosos.
 
Exageros com Lula
 
Até o presidente Lula da Silva ali esteve, ovacionado pelo público. Assisti a tudo pela televisão, numa transmissão tecnicamente pobre da Rede Vida, e ouvi os fogos, além de enxergá-los, da janela de minha residência, no Jardim do Mar tão próximo da Vila Euclides. Nada mais justo que o ex-presidente comparecesse ao evento, porque é filho adotivo da terra e tem no prefeito Luiz Marinho apadrinhado sindical e político. Só não precisavam exagerar.
 
O que é exagerar? Exagerar é tornar, como tornaram já faz tempo, a camisa 13 da equipe objeto de veneração ao homenagear o ex-metalúrgico que virou o Presidente da República mais popular do País. O número remete à identidade eleitoral do Partido dos Trabalhadores. A camisa 13 do Tigre não consta da relação dos atletas escalados ou que estão no banco de reservas. Não consta e jamais constará. É de Lula e estamos conversados.
 
Tenham a santa paciência, senhores dirigentes! Lula jamais jogou pelo Tigre, nunca marcou um gol sequer pelo Tigre, não sabia até outro dia a cor da camisa do Tigre, profissionalmente jamais vestiu uma camisa de time de futebol, muito menos do Tigre. Então, por que eternizar o número 13? Todas essas perguntas são feitas por quem votou três vezes em Lula à presidência, depois de rejeitá-lo por três vezes também porque não suportava mais os desatinos econômicos em políticas regionais do governo de Fernando Henrique Cardoso.
 
Reparos providenciais
 
Sei que os radicais de sempre vão chiar, provavelmente vão chamar este jornalista de reacionário (como os de centro-direita me chamam de esquerdista porque a opinião formada sobre o caso Celso Daniel, por exemplo, não é exatamente o que eles gostariam que fosse) mas não estou nem aí com a cor da bola que se utiliza num Primeiro de Maio palco de memoráveis espetáculos sindicais. A alta cúpula do PT em São Bernardo, que comanda o futebol do São Bernardo em regime empresarial, numa mistureba de bola e negócios que passa pelos corredores do Paço Municipal, está exagerando na dose. Transmite a ideia de que todos que têm obrigação de intermediar a interpretação dos fatos e mesmo de versões do cotidiano devem ficar calados ante tamanho abuso. Mais que tamanho, descarado abuso. O sucesso popular da agremiação, fruto de extraordinária ação de marketing, não pode suprimir esses reparos.
 
Fico muito à vontade ao alertar a direção do São Bernardo, e por extensão do PT de São Bernardo sobre as consequências dessa monumental avalanche político-esportiva. Não sou da turma virginal e emburrecida que defende distanciamento entre futebol e Administração Pública. Nada disso, senhores: equipes pequenas e médias marginalizadas pela grande mídia e pelos patrocinadores de porte (ainda mais em áreas geográficas sob penumbra de televisão de massa, como é o caso da Província do Grande ABC) precisam mesmo de respaldo da sociedade em forma de apoio público. Mas esse encaminhamento não pode ser uma espécie de liberou-geral como se manipula na São Bernardo petista. Talvez o PT ainda vá se dar conta disso, porque o tiro geralmente sai pela culatra.
 
O ambiente do jogo de sábado, ao qual assisti, repito, pela televisão (estava de molho por conta de uma virose tão invasiva quanto desconfortável), e de jogos outros, aos quais fui pessoalmente ao Primeiro de Maio, me acomodando entre os torcedores, é um ambiente esportivamente partidarizado. O uso do serviço de som, as cabines de imprensa e de autoridades coalhadas de parlamentares, assessores, apaniguados e áulicos, sugerem uma extensão de comícios públicos, de assembleísmo metalúrgico. Nas arquibancadas, então, como ocorreu sábado, imensas bandeiras a saudar o apoio do prefeito Luiz Marinho são mais que uma ação programada para incrementar ainda mais o ambiente político das disputas. São quase que a essência daquele aglomerado popular.
 
Chutando o balde
 
Sei que esse artigo vai causar certo desconforto à Administração Luiz Marinho, vai mexer com os nervos da direção do São Bernardo Futebol Clube nestes dias pós-conquista, mas não vejo saída senão publicá-lo. No mínimo, como material para eventuais historiadores esportivos e políticos da região terem uma fonte de informação minimamente confiável. Mas também por outras razões, convenhamos.
 
Primeiro, porque é um brado de alerta contra um sectarismo socioesportivo estúpido que se implanta ao criar uma equipe de futebol reconhecidamente com perspectiva de amplo sucesso dentro e fora de campo, mas fatalmente estigmatizada pela coloração partidária construída sem o menor  pudor.
 
Segundo, como os dirigentes são inexperientes em vetores que transcendem o campo de jogo e seu entorno imediato, eles devem sim compreender o quanto de constrangimento causam ao se excederem, com natural afastamento de forças mais tradicionais do Município. Nada pior para o futuro do futebol de São Bernardo do que o apêndice "PT" ao nome da agremiação. Como seria também "tucano" e semelhantes.
 
Terceiro, por mais que o PT seja uma prova permanente de engajamento da militância, e que essa militância também se espalha para o mundo da bola, trata-se de uma agremiação partidária que não supera 30% da preferência municipal. Nada menos que 40% flutuam ao sabor dos resultados político-administrativos, enquanto outros 30% são de eleitores oposicionistas. Convenhamos que esse é o tipo de conta que não é propriamente de adição. Nem de multiplicação.
 
O marketing de popularização do São Bernardo é uma vaca leiteira que, depois de ordenhada, chuta o balde. Talvez o vício do corporativismo sindical tenha sido transplantado inadvertidamente para o futebol. Ou estamos todos enganados e o que se dá é exatamente o planejado? O São Bernardo Futebol Clube é o velho PT do passado que rejeitava composição com os diferentes, até que Lula da Silva deu-se conta de que, sem os diferentes, continuaria apenas competindo? O São Bernardo Futebol Clube vive, portanto, nos primórdios do PT. E isso é péssimo. 


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