Sociedade

O que significa de fato “conservador”
quando se trata de São Caetano?

DANIEL LIMA - 18/05/2012

Voltando à entrevista de página inteira que a supersecretária de São Caetano, Regina Maura Zetone, candidata à sucessão de José Auricchio Filho, concedeu ao jornal Diário Regional, pego carona na breve resposta sobre a afirmativa, do entrevistador, de que São Caetano é conservadora. Aliás, na enquete que preparei para o Conselhão Regional, e em tantos outros textos, também identifico São Caetano sob a ótica conservadora.


 


Afinal, o que significa conservador de maneira geral para uma comunidade e, eventualmente em particular para São Caetano. Vejam a resposta de Regina Maura ao Diário Regional:


 


 Acho que há certo preconceito com São Caetano quando se diz que é uma cidade conservadora e tradicionalista. Não sinto isso com a população, mesmo com homens e pessoas da terceira idade, que me apoiam e estão comigo nessa empreitada. O que acredito que deve vir à tona, nessa eleição, é a competência, a capacidade administrativa, a visão ampla político e desenvolvimentista da cidade. É muito mais importante.


 


Resposta da candidata reproduzida, chamo a atenção dos leitores para os seguintes enunciados, retirados de uma obra-prima que consumi com sofreguidão e sobre a qual, de vez em quando, volto à leitura para refrescar a memória e apurar os supostos instintos intelectuais. Trata-se de um dos capítulos do livro “A Terceira Via”, do sociólogo Anthony Giddens, guru do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair. Vejam em qual dos seguintes enunciados caberia o perfil ideológico de São Caetano:


 


a) Defendo a liberdade de mercado, mas também quero o controle estatal forte sobre questões como família, drogas e aborto.


 


b) Defendo o individualismo e o envolvimento discreto do Estado em todas as áreas.


 


c) Quero mais intervenção do Estado na vida econômica porque sou descrente no mercado e vejo o governo com cautela no tocante a questões morais.


 


d) Quero um governo de mão forte em todas as áreas, incluindo tanto a economia quanto a mora.


 


Feita essa exposição de perfis ideológicos que preencheriam todo o arcabouço de uma sociedade em qualquer lugar que esteja, sobre qual acreditam os leitores Regina Maura e a maioria da população de São Caetano (e também dos brasileiros, de maneira geral) lançariam olhares especiais de aprovação? Aposto o que quiserem que a preferência seja pela alternativa “a”.


 


Pois a alternativa “a”, segundo a obra-prima de Anthony Giddens, é característica dos conservadores. A alternativa “b” é dos libertários, a alternativa “c” dos socialistas e a alternativa “d” dos autoritários.


 


Teste já aplicado


 


Por que tenho tanta convicção de que a preferência pela alternativa “a” seria maciça? Porque aplicamos esse teste no ano passado junto aos então integrantes do Conselho Editorial desta publicação, hoje compartimentados no Conselhão Regional, e, sem que soubessem antecipadamente o que representaria em termos de definição ideológica cada um dos enunciados, 46% optaram pelo conservadorismo. Os libertários não passaram de 19%, os socialistas de 11% e os autoritários de 6%.


 


Duvideodó que a população de São Caetano (e da Província do Grande ABC como um todo) apresente perfil que se distancie desses resultados. Um pouco para lá, um pouco para cá, o encaixe é automático. A banda de preferências não é das mais largas. Se cruzarem os dados dos extremos de ocupação social da região, São Caetano e Diadema, descobrir-se-á que há mais intimidade do que se projeta em forma da síntese "conservadores". 


 


Então, São Caetano é conservadora sim. Tudo bem, tudo resolvido? Nada de nadinha, porque a intervenção da supersecretária Regina Maura Zetone quanto ao preconceito do uso do termo “conservador”, vinculando-o a tradicionalismo, a algo meio fora do esquadro natural de uma sociedade com valores que devam ser preservados, não é paranoia.


 


Aqueles que olham para o Município de melhor qualidade de vida da metrópole ensandecida com certa inveja e, para defender-se, pintam um quadro de imobilidade social exacerbada são uma maioria sim. Principalmente na vizinhança gataborralheiresca chamada Província do Grande ABC.


 


Esse sentimento preconceituoso não está impregnado neste jornalista, embora não resista ao verbete conservador sempre que me desafiem a sintetizar São Caetano. São Caetano é mais conservadora do que a média dos municípios locais e também do País não porque seja retrógrada, insensível à modernidade e a tantos outros supostos valores contemporâneos, simplificações conceituais que colam desavisadamente nas entranhas do Município.


 


Homogeneidade maior


 


São Caetano é simplesmente uma cidade mais homogênea e mais amadurecida na composição demográfica, menos sujeita ao longo da história a correntes migratórias desenfreadas e mais consolidada à chegada de migrantes nas primeiras décadas do século passado. Em resumo, São Caetano é menos desigual que os demais municípios da região e da metrópole, por isso o conservadorismo que a caracteriza é mais latente.  


 


Por conta da tomografia de dados sociais, econômicos, culturais e ideológicos conservadores (que defende a liberdade de mercado, mas também quer o controle estatal forte sobre questões como família, drogas e aborto) São Caetano difere-se da média nacional porque, repito, reproduz com maior clareza e solidez o pensamento do cidadão brasileiro. São Caetano é o Brasil que deu certo. E o Brasil que não deu certo pensa e age como São Caetano, com diferenciações que correm em raia paralela das desigualdades sociais.


 


Talvez e muito provavelmente  a resposta de Regina Maura Zetone à questão, impressa pelo Diário Regional, tenha sido formulada por conta de uma interpretação do contexto igualmente conservador de análises que colocam São Caetano como um endereço inacessível à modernidade, contraponto simplório de tradicionalismo. Uma grande bobagem, convenhamos. Aliás, está aí nos jornais de hoje uma informação que ajuda a desmistificar São Caetano como reduto implacável de conservadorismo: segundo a Fundação Getúlio Vargas, é a cidade brasileira com maior inclusão digital. Nada menos que 74,07% dos moradores têm acesso à Internet em casa. Um percentual muito superior aos 33% da média nacional e aos 48,22% do Estado de São Paulo.


 


Talvez estejam confundindo conservadorismo com bairrismo. Nesse ponto, até porque o instinto de sobrevivência na selva de leões da Região Metropolitana precisa ser apurado, São Caetano é sim um pedaço demográfico diferenciado na Província do Grande ABC, com certo grau superior de protecionismos. Uma outra questão que envolve comportamento social coletivo, como se sabe, a qual não cabe abordar agora, mas que poderia ser definida também como uma saudável contrapartida à quase que completa ausência de identidade dos demais municípios, resultados de misturebas do fluxo migratório.


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