Sociedade

Cãozinho atropelado abala minha
inspiração às estatísticas eleitorais

DANIEL LIMA - 11/06/2012

Não estou com vontade de analisar as primeiras pesquisas eleitorais em alguns microprovíncias da região. Os jornais estão a publicar números e algumas interpretações, mas não me sinto seguro. Estava pensando exatamente sobre isso na corrida do começo da tarde de ontem pelas ruas do Jardim do Mar, em São Bernardo, quando um acidente envolvendo um cãozinho estragou o meu dia. Imagine o quanto estragou os dias de seus donos.
 
Já ultrapassava metade do trajeto previsto, numa das travessas vizinhas à Avenida Kennedy, quando aquele cãozinho de pelos escuros corria em direção à próxima esquina. Atrás, um jovem o perseguia. Parecia não se dar conta da situação de risco, porque dava uma certa folga na aceleração. Achava que poderia apertar mais, porque menos de 30 metros adiante a rotatória da Kennedy estava recheadíssima de veículos. Imaginei o risco de o cãozinho dirigir-se àquela direção que eu, humano, não ouso desafiar.
 
Eles, o cãozinho de pelos escuros e o jovem de estatura alta, passaram por mim e por sorte naquela esquina imediatamente anterior à rotatória não vinha carro algum. A padaria logo ali à direita tinha movimento morno. A esquerda, a casa de frios recebia poucos clientes. Era uma hora da tarde deste domingo.

Corria nas passadas de sempre, com o fôlego de sempre, com as vestimentas semelhantemente de sempre. Estava a especular comigo mesmo sobre as pesquisas eleitorais na região. Pretendia escrever um texto sobre as nuances que as envolvem neste começo de junho. São quatro meses até que números definitivos de primeiro turno se cristalizem, pensava comigo. Não era hora de cair na armadilha de frases definitivas. Quem está em primeiro lugar em determinados municípios pode desabar nas próximas sondagens. Os últimos poderão ser os primeiros, em outros endereços. Portanto, nada de precipitações.
 
Frio demais
 
Comecei a esmiuçar mentalmente o que seria o texto já nas primeiras passadas, corpo geladíssimo não só por conta da temperatura ambiente, mas principalmente porque minha residência parece revestida de freezers. Tudo porque tem a Cidade da Criança como vizinha e uma ordem geral de que nem cortinas nem pisos de tecidos são bem-vindos, por conta de alergia a produtos de limpeza.
 
Sempre que vou a campo correr (e o faço rigorosamente todos os dias, menos nos dias mais chuvosos, quando me dedico à bicicleta ergométrica em nível 10, de esforços equivalentes aos metros de asfalto que rompo com prazer) boto alguma coisa na cabeça para tentar dissuadir o cansaço físico. Uso a mente como ferramental para driblar o esgotamento físico que vem aos poucos, sorrateiro, a sinalizar que as pernas já não têm o mesmo vigor de antes. Corro durante 50 minutos, o equivalente a oito quilômetros. Um santo remédio.
 
Correr é uma estratégia e tanto para quem quer se programar aos próximos trabalhos. Sempre dou um jeito de fazer da transpiração inspiração. Já contei mas não custa repetir que as melhores capas da revista LivreMercado que dirigi por quase duas décadas foram mentalizadas nas corridas pelas ruas que frequento em meio a veículos e motoristas nem sempre educados e respeitosos. Foram inúmeras as ilustrações e os temas que saltaram à imaginação no interlúdio entre a racionalidade de quem saia do estado fisicamente acomodado para a efervescência mental de quem entra na zona de desconforto ao exercitar-se.
 
Desgarrando-se do dono 
 
Pois estava eu a correr no começo da tarde de ontem, como sempre o faço aos domingos, quando aquele cãozinho sapeca desgarrou-se do dono, um jovem de jogging, e se meteu rua adentro. O cãozinho passou incólume pelo cruzamento da rua que passa defronte à Padaria Cidade da Criança e a primeira rua paralela à Avenida Kennedy. Senti-me aliviado quando nenhum obstáculo intercedeu entre os dois, o cãozinho e o jovem. Ainda gritei ao rapazola para que tomasse cuidado.
 
Continuei a corrida rua acima, mas não se passaram 10 segundos até que tudo se desse. Corria olhando para o lado, preocupado com o cãozinho de pelos escuros e o jovem grandalhão que o perseguia e que, pressentindo o perigo da rotatória coalhada de veículos, resolveu apertar o passo.
 
Confesso que perdi o foco nas estatísticas eleitorais naqueles instantes de tensão. Virar o rosto e ver o jovem já desesperado atirando-se em direção ao cãozinho foi uma imagem carregada de tensão. Ele atirou-se como goleiro num pênalti que decide um título.  A bola, ou melhor, o cãozinho passou. O jovem estatelou-se na calçada. O cãozinho, nas rodas de um veículo. O impacto foi tão forte que a clientela da casa de frios saiu à porta. Dei um grito de desespero. Me senti um derrotado na torcida pela vida do cãozinho. O último olhar que tive a coragem de dar em direção à rotatória não deixava dúvidas sobre o desfecho. O cãozinho estava inerte no asfalto. Um gemido seco, breve e impactante, fora a última expressão de vida.
 
Não tive coragem de dar mais uma volta programada. Preferi seguir o dia com a ilusão de que o acidente não havia sido fatal. Mas não acredito nessa possibilidade. Vi com os olhos que tantas coisas já viram, que tantos cãezinhos adorou nos tempos de criança, que aquele impacto que ressoou no Jardim do Mar anunciara uma desgraça. Tenho um apreço especial por cães. Menos, muito menos, do que minha filha Daniela, alma especial que trata os caninos com devoção e cuidados de veterinária que só não é porque, confessa ela, seria demais lidar com o sofrimento no dia a dia.
 
Conjecturas inúteis 
 
Escrevo este texto logo após o almoço de domingo, ainda tocado com a cena que assisti sem poder colaborar com nada. Fico cá pensando na possibilidade de o rapazola ter tido a oportunidade de evitar o acidente, se apertasse mais a corrida antes que o cãozinho se projetasse em direção à rotatória, um pouco antes, na esquina anterior. Ele parecia confiante na possibilidade de que a qualquer momento resolveria a molecagem canina. Quando o animal ingressou no largo espaço de concreto que separa a rua e a rotatória, senti que algo de ruim poderia ocorrer. O jovem também. Por isso ele acelerou a corrida. Por isso ele jogou-se na direção ao cãozinho.
 
Acho que vou passar o domingo atormentado pela imagem daqueles não mais que 30 segundos de desvio de atenção sempre concentrada na corrida e nos meus pensamentos. Deixei-me levar pelo periférico, algo raro em meus exercícios. Em pelo menos três dezenas de anos que corro pelas ruas foi a primeira vez que assisti a algo que me chocou. As outras situações me envolveram diretamente. Sempre tendo motoristas abusados ao volante. Gente que simplesmente não enxerga quem não esteja motorizado. Gente que faz  conversões abruptas porque desconsideram quem faz das pernas uma maneira de ganhar mais vida.
 
Não foi  esse o caso do cãozinho da rotatória. Sabia que ao ingressar ali naquele redemoinho de rodas, dificilmente ele escaparia do pior. Seu dono, o rapazola que entrou em desespero, também anteviu a desgraça. Por isso atirou-se como goleiro no calçamento duro, gelado e hostil. Foi um gesto de desespero de quem sabia que uma desgraça estava por vir.
 
Que as estatísticas sobre as eleições na Província do Grande ABC fiquem para depois, quem sabe para dentro de algumas horas deste domingo, depois de refazer-me daquelas imagens que pretendo esquecer. Mas como esquecer se, prova a ciência, quando estamos em estado de êxtase físico e mental, como nas corridas, tornamo-nos mais sensíveis, mais acessíveis a melhorar o grau de memorização. Aquele cãozinho não sai de meus pensamentos. O sofrimento daquele jovem não sai de meus sensores sentimentais.


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