Sociedade

Província segue com a farra de
homenagens nos legislativos

DANIEL LIMA - 28/06/2012

O jornal Metro/ABC expôs outro dia um bom exemplo do nível de comprometimento dos vereadores de São Bernardo que, na essência, não difere dos demais legislativos locais: nada menos que 66% das 223 propostas dos legisladores locais referiram-se a homenagens a personalidades e entidades. O balanço dos trabalhos é da atual legislatura, ou seja, desde janeiro de 2009. Os títulos são de Cidadão São-bernardense, Entidade Benemérita e Medalha João Ramalho, destinados a personalidades que supostamente se destacaram por ações. Como ninguém é de ferro, entre os homenageados estão vários vereadores, casos de José Ferreira (PT), Hiroyuki Minami (PSDB) e Toninho da Lanchonete (PT).


 


A lista de homenageados é extensa. São 147 nomes, entre os quais ministros, empresários, atletas e outras personalidades.


 


Segundo o Metro/ABC, além das homenagens, mudança de nomes de ruas e criação de dias temáticos estão entre as demais propostas.


 


Não seria este jornalista radicalmente contrário ao perfil de festança dos legislativos se pelo menos a soma das individualidades representasse um salto de qualidade da sociedade regional. Não é bem o caso, como se sabe. Muito pelo contrário. Diria que é inversamente proporcional. Ou seja: quanto mais se homenageiam  pessoas e entidades, mais se aprofunda o fosso de qualidade de vida na Província do Grande ABC.


 


Os vereadores – salvo as exceções de praxe – não ultrapassam a linha divisória de inutilidade funcional, capturados mais dia menos dia pelos Executivos de plantão. Constitucionalmente lhes sobram poucas possibilidades de interferir para valer nos processos mais importantes, mas mesmo assim as brechas que se abrem poderiam dar nova dimensão à atividade – desde que as bancadas que formam a maioria não se contentassem com migalhas de poder e as minorias não se aquietassem conformadamente, enredadas igualmente por  interesses individuais e partidários, porta aberta a mobilizações políticas e eleitorais.


 


Raio-X do caos


 


Lembro que em meados da última década do século passado, numa fase propositiva e pretensamente reformista do Diário do Grande ABC, então sob os cuidados de Redação do jornalista Alexandre Polesi, chegou-se a desafiar o nível de produção e de qualidade dos legislativos da Província do Grande ABC. O “Raio-X das Câmaras”, como foi rotulado o projeto, desencadeou série de intervenções dos vereadores, porque se contabilizavam pontos que definiriam espécie de ranking regional. Mesmo com o peso da vigilância e do incentivo do jornal, o que se obteve ao final do projeto foi um gemido de dor de vergonha coletiva.


 


Os legisladores estavam tão acostumados com a mediocridade que transformaram a proposta em montanhas de clonagens despudoradas, replicando aqui e acolá algumas iniciativas de baixa octanagem reformuladora. O que menos interessava de fato era o conteúdo, mas a quantidade asseguradora de pontuações. Algo como definir o número de faltas cometidas como critério de desempate no futebol, como já foi testado. Os times deixaram de procurar o gol e passaram a criar mecanismos para artificializar  infrações. 


 


Se for até meu arquivo de papel vou encontrar todas as matérias sobre aquele projeto editorial, mas não pretendo gastar meu tempo. Fio em minha memória nem sempre privilegiada, mas suficientemente preparado para me socorrer com o básico quando acionada. O “Raio-X das Câmaras” foi um fracasso retumbante, não do Diário do Grande ABC, mas dos agentes públicos incapazes de darem respostas de eficiência e interferência substantiva no Poder Executivo.


 


Celebridades pontuais


 


Há alguns nomes listados pelo jornal Metro/ABC como homenageados em São Bernardo que, sinceramente, jamais poderiam constar da galeria de honra. A banalização dos indicados está, entretanto, longe de uma ação despretensiosa. Os indicados pelos vereadores são a extensão de um pacto de boa vizinhança: aprovem os meus que eu aprovo os seus. Como não se permitem festanças que não passem pelo critério da unanimidade dos legisladores, não existe a menor possibilidade de as bancadas minoritárias deixarem de emplacar seus abençoados. O toma-lá-dá-cá é um jogo de assentimentos compulsórios.


 


O que mais me irrita quando me detenho na listagem de ganhadores de título de cidadão ou cidadã são as celebridades forasteiras, geralmente sem histórico consistente de atuação municipal, quanto mais regional. Não pensem que, com isso, este jornalista faça parte do bloco de conservadores que abominam  migrantes e imigrantes. Caso, por exemplo, do empresário (empresário?). Sérgio De Nadai, com quem tive uma discussão relativamente áspera (que só não terminou em sessão de bordoadas porque ele fugiu da raia). Ele se dirigiu a mim, três anos atrás, com a arrogância dos novos ricos e se autoproclamou mais cidadão do que eu porque nascera em Santo André. O tempo provou que não é o atestado de naturalidade que confere respeitabilidade a quem quer que seja e, principalmente, exemplo a seguir.


 


A rejeição às celebridades forasteiras se dá justamente porque são celebridades forasteiras. Na maioria dos casos têm inserção não mais que episódica num determinado Município, mas a homenagem lhes transferem uma aura de longevidade de serviços supostamente prestados que deslustram os merecedores de títulos que de fato contribuíram para o fortalecimento dos respectivos territórios nos quais atuaram intensamente.


 


Interesses diversos


 


O retrato-falado das reverências parlamentares em São Bernardo e nos demais municípios é uma associação de corporativismo, deslumbramento, interesses localizados e uma vocação incontida a tornar  cada requerimento aprovado extensão dos pressupostos marqueteiros de sensibilização do eleitorado potencialmente representado pelos homenageados.


 


Distribuir títulos de cidadania e outros salamaleques legislativos é o esporte preferido dos vereadores depois, evidentemente, do reconhecimento do Poder Executivo de que eles são importantes no jogo de aprovação de propostas que partem do centro do poder municipal. Quando se instala uma CPI, então, caso do escândalo do Semasa, é sopa no mel, porque aparece uma oportunidade especialíssima a eventuais acertos de contas – não com a sociedade, é claro, mas com o poderoso de plantão.


 


É por essas e outras que quando se confronta o balanço anual dos custos dos legislativos locais (e da maioria dos municípios brasileiros) com os investimentos na área de Segurança Pública, e se constata que os recursos monetários são muito maiores ao financiamento do faz-de-conta dos vereadores, não sobra algo diferente do sentimento de frustração. Mas isso não importa, porque novas homenagens serão industrializadas, com o lustro de biografias nem sempre compatíveis com a oferenda.


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