Sociedade

Um grande mico na praça regional,
enquanto os políticos se agridem

DANIEL LIMA* - 19/10/2012

Não vou revelar – ainda – a identidade do maior mico de negócios na Província do Grande ABC, embora já tenha elementos mais que suficientes para tanto. Lamento mesmo ter a confirmação de uma suspeita que brotou quando ali estive pela primeira e única vez e vi o que vi, ouvi o que ouvi.  Dali em diante fiquei de olhos e ouvidos grudados naquele endereço festejadíssimo quando chegou, badaladíssimo nas páginas de jornais como contrapartida a investimentos publicitários.


 


Um mico está solto. É um grande mico. Saudado e bajulado no desembarque barulhento, já lá dizia para alguns mais próximos que uma catástrofe se instalava na região, uma aventura de negócios se cristalizaria porque não falta quem venha para a região a acreditar que somos o Eldorado do capitalismo. O problema desse mico é que por enquanto é apenas um mico, mas deverá ganhar contornos de um macromico -- porque não é um empreendimento único, solteiro.


 


Um macromico se explica pelo ilusionismo geográfico, pelo desprezo à logística, pela leitura enviesada de dados sociais e econômicos, pelas limitações demográficas, pelo desconhecimento histórico da cultura consumista da localidade, pelo sentimento de gataborralheirismo de valorizar o vizinho mais poderoso e sem dúvida mais sedutor. Enfim, um macromico não é um mico qualquer. Até porque, o mico já instalado não é um mico qualquer. 


 


Façam o que quiserem, me enviem e-mails e muito mais, mas ainda não vou dizer onde está o maior mico dos últimos tempos na Província do Grande ABC. Não especulem porque não adiantará. Se apontarem o Domo, aquele conjunto de apartamentos e salas comerciais ao fundo do Paço Municipal, em São Bernardo, ali onde durante décadas funcionou a Tecelagem Tognato, se apontarem o Domo o máximo que direi é que a indicação não vale, de tão óbvia. O endereço é outro, mas me faz repensar sobre a quem destinaria meus votos nos segundos turnos em três dos municípios da Província do Grande ABC.  


 


Votos em branco 


 


Querem saber em quem votaria este jornalista, depois de apontar os votos nos primeiros turnos? Por conta de uma reação que deveria ter tomado antes dos primeiros turnos, anularei os votos a que tenho direito em Santo André, Diadema e Mauá.


 


Votos a que tenho direito? É claro que tenho direito, porque sou um cidadão regional acima de tudo. Levo a vantagem de sustentar que sou cidadão regional porque não tenho o rabo preso com qualquer Município. Não nasci em nenhum dos sete endereços locais. Por isso não tenho dívida de naturalidade. Deram-se, os malucos, o título de cidadania de Santo André, aceitei num momento de insensatez, mas nem isso me segura. Entre Carlos Grana e Aidan Ravin, voto em branco. Aliás, nem compareço às urnas.


 


Pois não votarei em ninguém e não deveria tê-lo feito nos primeiros turnos porque os administradores públicos da região, em larga escala, não estão nem aí com o desenvolvimento econômico. A quase totalidade só quer continuar a usufruir de impostos gerados pelo parque industrial cada vez menos denso e pela multiplicação estratosférica dos recursos diretos, em forma de impostos municipais. A carga tributária municipal ganhou impulso impressionante desde o Plano Real porque foi preciso compensar partes das perdas com a arrecadação do ICMS, causas pela desindustrialização.


 


Por essas e outras a Província do Grande ABC virou armadilha econômica para empreendedores que imaginam encontrar aqui determinadas respostas a investimentos em comércio e serviços. Os marqueteiros que vendem ilusões com base em dados econômicos, financeiros e sociais completamente inapropriados, quando não defasados, são os primeiros a correr e a encontrar justificativas aos fracassos mais que anunciados.  Mal sabem que a Província do Grande ABC é uma casa sem dono, uma casa de sete cômodos sem compartilhamento organizacional. Mais que isso: sete cômodos mal-ajambrados que praticamente não se comunicam e, com soberba, imaginam que gozam de autonomia suficiente para se autorregularem e se autosustentarem.


 


Já faz uma década e meia que o então prefeito Celso Daniel cumpriu uma promessa de campanha eleitoral a este jornalista, sem que nada houvesse em forma de contrapartida: criar em Santo André a primeira secretaria de Desenvolvimento Econômico da região. Parece anedota de mau gosto, mas naquele 1996, quando se disputava a Prefeitura de Santo André, a região não contava com uma secretaria voltada ao desenvolvimento econômico. Tudo porque a autossuficiência imperava. A Província se achava a última cereja do bolo de atratividade de investimentos privados, embora já acusasse as dores de fortes perdas industriais, plataforma setorial que alavancou o desenvolvimento social ao longo de quatro décadas.


 


Quase nada desde 1997


 


Desde que Nelson Tadeu Pereira assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André em 1997 e tantas outras secretarias foram criadas nos municípios desta Província, praticamente nada se alterou: esses espaços públicos são apenas um quarto de despejo na hierarquia administrativa, sem recursos financeiros e sem suprimentos de técnicos especializados em competitividade. Foi assim na Administração Celso Daniel, precursor da iniciativa. É assim em todas as demais Prefeituras. É mais fácil arrecadar com base na produção instalada e nos serviços públicos compulsórios do que planejar uma empreitada restauradora da força econômica regional.


 


Por isso caímos pelas tabelas, conforme estamos cansados de mostrar, entre outros indicadores, no G-20, o grupo dos 20 principais municípios do Estado de São Paulo, exceto a Capital.


 


Definitivamente, não temos no setor público, e tudo indica que continuaremos a não ter, gestor qualificado para entender que a economia é a base de tudo e que sem uma correção de rota mais que atrasada no cronograma à recuperação do potencial de desenvolvimento municipal e regional continuaremos a sofrer todos os percalços da descentralização geográfica de investimentos.


 


A mais recente bobagem industrializada foi o remédio supostamente salvador do trecho sul do Rodoanel que, diferentemente do eixo oeste, que serve à Grande Osasco, praticamente não alterou em nada nosso roteiro de debacle. Exceto, é claro, ter feito a fortuna de alguns espertalhões que sabiam previamente o traçado da obra e trataram de ganhar rios de dinheiro com desapropriações.


 


O maior mico dos últimos tempos na Província do Grande ABC não é obra do acaso. É uma caçapa anunciada por quem sabe que não somos o que pensam que somos e insistimos em fingir que somos porque adoramos o autoengano, uma maneira mais que desavergonhada de continuar a ludibriar o distinto público.


 


Não vou votar em candidato algum nos segundos turnos que se aproximam porque preciso deixar a incoerência de lado. Não tem sentido fazer escolhas entre candidatos que não estão nem aí com o planejamento econômico da região e ocupam as páginas de jornais geralmente com ofensas aos adversários. Candidatos que não pensam na próxima geração, já que a atual já foi para a cucuia, não são candidatos dignos de voto algum.


 


*daniellimalimao@hotmail.com


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