Não concordo com o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santo André, Fábio Picarelli, mas respeito e relativizo o posicionamento desta revista digital. Sobre o que estou escrevendo? Sobre uma das declarações mais contundentes que ouvi outro dia de sua própria boca, ao vivo, em seu escritório profissional, quando convidado fui a tomar um cafezinho e a conhecer seus planos à reeleição, nas eleições desta quinta-feira. Picarelli disse a propósito de minhas cobranças às instituições da região que a OAB não é o MP para escarafunchar irregularidades que não param de saltar na Província do Grande ABC. Tem razão e não tem razão o sempre elegante Picarelli.
Ao introduzir o Ministério Público na conversa de quase uma hora, Fábio Picarelli me deixou numa posição menos crítica em relação à atuação das OABs em geral. Não que me tenha desnorteado, que me tenha aniquilado, nada disso. Como não sou burro e tampouco radical, concordei em parte com ele. Picarelli apresentou um argumento que até então ninguém ofereceu. E como não costumo descartar o contraditório, fui em frente. No fundo, o que detesto mesmo como jornalista em busca de informações e de contraposições é o desdém arrogante dos ignorantes. Gente que detesta contestação. Mais que isso: gente como Milton Bigucci que responde ao incômodo recorrendo ao Judiciário. Nada mais ditatorial, convenhamos.
Fábio Picarelli alçou o MP ao topo do jogo de responsabilidades sociais para me deixar encalacrado. Um belo golpe, mas não um golpe fatal. Não abrirei mão jamais da argumentação de que a sociedade, em suas várias esferas, principalmente de organismos representativos de classe, se manifeste e pressione autoridades públicas em busca de soluções.
Mas, convenhamos, Fábio Picarelli tem razão, embora nem toda a razão. Compete sim ao Ministério Público, fortalecidíssimo desde a Constituição Federal promulgada mais de duas décadas atrás, meter a colher em todas as complicações denunciadas pela mídia ou por outros agentes sociais. O Ministério Público está aí para isso -- essa é uma verdade que precisa mesmo ser ressaltada, alardeada, carimbada e cobrada.
Esperando por definições
Mas essa verdade é insuficiente, porque o Ministério Público carece de infraestrutura física e funcional para dar conta do recado. Querem um exemplo: faz um tempão que apresentei documentação farta e argumentos sólidos sobre a fraude patrocinada pelo empresário Milton Bigucci no arremate de uma área pública valiosíssima em São Bernardo e até agora nada se deu de fato em termos de providências. Como a MBigucci acelera os passos para erguer um empreendimento naquele imóvel, o que fatalmente teremos será a consumação de uma irregularidade clamorosa sem que as penalidades sejam aplicadas com o rigor necessário. E o rigor necessário seria o cancelamento do processo licitatório, porque fajuto.
Fábio Picarelli apresenta como lastro à manutenção da presidência da OAB série de atividades que deram mais vitalidade corporativa aos profissionais de Direito de Santo André. É louvável o empenho do dirigente e de dezenas de diretores e integrantes que espalhou por diversas comissões temáticas. Tudo isso mostra que há sim quem se mobilize além dos interesses estritamente profissionais, os quais Fábio Picarelli não nega. Seguramente, não há concorrência regional que rivalize tanto empenho. Tanto que estamos às vésperas das eleições e o que se consome de informações sobre as outras unidades da OAB é a mesmice de sempre. Buscam-se apadrinhamentos que acabarão por comprometer o futuro administrativo.
Embora entenda e reconheça os limites institucionais das entidades de classe, não abro mão de transversalidades que possam influir decisivamente na construção de uma regionalidade completa da Província do Grande ABC, sustentada por alguns pilares conceituais, entre os quais o empenho coletivo na busca de um ambiente menos degradado do ponto de vista ético e menos corrosivo em moralidade, metades da mesma laranja de atraso desenvolvimentista.
Entidade das entidades
Embora nenhuma unidade da OAB ou de associações econômicas, sindicais e sociais tenha funções constitucionais de um Ministério Público, os resultados poderão encaminhar-se na direção de resoluções que extrapolem os muros corporativos se houver mobilização intersetorial. Ou seja: a ausência de uma entidade das entidades na Província do Grande ABC, algo que um dia o Fórum da Cidadania pretendeu ser e acabou se perdendo em idiossincrasias e insinceridades, alimenta o monstro da ineficiência de medidas que transmitam à população a ideia de que é possível conter o ritmo por demais desavergonhado de irregularidades, principalmente de agentes públicos.
Uma entidade das entidades teria o condão de retirar a marca da individualidade de qualquer iniciativa – e, portanto, desestimular revanchismos direcionados – em favor de uma coletivização de ideias, propostas e iniciativas que reforçariam as instâncias às quais estariam subordinadas as medidas profiláticas. Um exemplo: se houvesse uma entidade das entidades de escopo colegiado, a apuração das irregularidades do projeto Cidade Pirelli poderia ser encaminhada com muito mais força política e social ao Ministério Público do que ações isoladas e inconformadas, as quais tornam seus autores heróis estúpidos ou vilões amaldiçoados.
Vou continuar a perseguir a configuração de um contexto institucional menos esquadrinhado, menos subdividido, menos tematizado, menos compartimentado na Província do Grande ABC. A atuação de Fábio Picarelli essencialmente em defesa da classe dos advogados é apenas uma importante faixa sobre a qual ele deve percorrer em sua atividade corporativa de ramificações públicas. Com MP constitucionalmente forte para atuar mas estruturalmente aquém das demandas, sempre e sempre haverá espaço latente à participação da sociedade que, ao mobilizar-se, apressará os passos das medidas corretivas.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS