Economia

Diário do Grande ABC segue aliado
a ilusionistas do mercado imobiliário

DANIEL LIMA - 10/10/2010

Para um jornal que passou os anos 1990 enganando os leitores ao tentar esconder a crise e os desdobramentos sociais e econômicos da desindustrialização do Grande ABC (enquanto este jornalista, à frente da revista LivreMercado, desvendava com sua equipe a realidade regional) não surpreende que, mais uma vez, mesmo com novo dono, um dono que não entende nada de jornalismo, o Diário do Grande ABC lustre servilmente as botas dos cenaristas do mercado imobiliário.


A manchete principal de primeira página da edição de domingo (”Construtoras estão de olho na nova classe média”) é ilustrativa da aberração jornalística temperada com ganância mercantilista. Existisse um órgão assemelhado ao Procon para tratar de questões da comunicação, certamente provocaria constrangimentos ao jornal sediado na Rua Catequese.


O Diário do Grande ABC atua como aliado e propagandista do braço mais irresponsável de interlocução do mercado imobiliário e a sociedade do Grande ABC, no caso a pífia representação de Milton Bigucci, empresário da área e presidente de uma entidade que se diz regional e que conta com alguns gatos pingados diretivos, amigos e fornecedores de seus empreendimentos.


Querem informação mais suspeita do que a que sai de Milton Bigucci, uma falsa liderança de classe porque não conta com respaldo de pequenos e médios empresários do setor no Grande ABC?


Fosse o Diário do Grande ABC minimamente cuidadoso com informação de interesse social (e se o mercado imobiliário normalmente tem essa tessitura, imaginem nestes tempos de loucura total de investimentos e financiamentos?), a manchete da edição de domingo deveria ser sumariamente varrida na reunião de editores. Aliás, acreditava que pelas formalidades democráticas de praxe no ambiente editorial a manchete teria passado pelo crivo de sensibilidade dos editores, mas há informações em contrário: a pauta veio de cima, por conta de artigo que escrevi semana passada neste espaço e que chama a atenção aos erros e perigos no mercado imobiliário da região.


A manchete de primeira página do Diário do Grande ABC mostra as digitais de um crime de lesa-credibilidade tanto do jornal quanto da entidade que supostamente dirige o mercado imobiliário do Grande ABC. “Construtoras estão de olho na nova classe média” é um título tão defasado no mercado nacional quanto estúpido no mercado regional quando se observa o que vem a seguir. Na linha auxiliar da manchete o Diário do GrandeABC entrega a rapadura da inconsistência e da precipitação, além de abraçar de vez a cintura desengonçada da bajulação e do entreguismo mercantilista: “Famílias com renda mensal de R$ 5.100 buscam imóvel no valor de R$ 400 mil”.


Os leitores deste site não estão enganados, muito menos este jornalista que reproduz aquela manchete e aquela linha complementar. Os valores, incompatíveis com a lógica financeira e de sobrevivência, estão sim na primeira página do Diário do Grande ABC. Querem ter certeza disso? Leiam a chamada de primeira página e, apenas como exercício crítico, imaginem a correlação de comprometimento de renda familiar no financiamento do pagamento de imóvel:



  •  O Grande ABC tem um forte segmento para aquecer ainda mais o mercado imobiliário. Assim como no Brasil, a nova classe média, cuja renda mensal é de até 10 salários mínimos, agora parte em busca de seu primeiro imóvel e está interessada em moradias no valor de R$ 130 mil a R$ 400 mil. Esse público já representa mais da metade da população brasileira e ainda sofre com o déficit habitacional. Diante disso, construtoras que tradicionalmente construíam para o alto padrão descobriram importante nicho de mercado nesta fatia da sociedade e estãoapostando nela para alavancar as vendas — escreveu o jornal.

Não vou me estender no detalhamento dos textos que ocuparam alguns retalhos de páginas da edição de domingo do Diário do Grande ABC porque já os resumi acima. Prefiro lançar mão de uma matéria muito mais ajuizada, ponderada e responsável publicada neste mesmo domingo no caderno de Imóveis da Folha de S. Paulo sob o título “Bancos ampliam comprometimento de renda em crédito”.


Vejam alguns trechos:



  •  Quem financiava a compra de um imóvel com banco ou construtora costumava comprometer de 20% a 30% de sua renda familiar mensalmente com as prestações. Nos últimos cinco anos, esse percentual vem crescendo. Atualmente já é possível reservar 50% do orçamento para quitar as mensalidades. Geralmente são os bancos que definem esse número. Hoje eles assessoram o cliente da construtora mesmo na fase de obras, por meio de parcerias com as empresas. Para não perderem negócio, costumam flexibilizar a fatia da renda familiar que será reservadapara saldar o financiamento (…). Cabe então ao mutuário ser prudente ao avaliar suas contas. “Ele não deve esquecer que tem outras obrigações, com educação, filhos, alimentação” — reforça Luiz Antonio França, presidente da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

A reportagem da Folha de S. Paulo dá espaço também para análise, algo inovador no jornalismo diário para tentar estancar a perda de leitores para o padrão fastfoodiano da Internet. O especialista Ricardo Pereira, educador financeiro, graduado em ciências contábeis com especialização em finanças pessoais, escreveu:



  •  Comprar um imóvel é sempre um investimento que requer um bom planejamento. Para quem não possui o valor total para a aquisição do bem, uma saída será recorrer ao crédito imobiliário. Essa opção deve ser muito bem analisada, conhecendo os possíveis problemas e as consequências de um financiamento de longo prazo para as finanças da família. Muitos bancos podem conceder linhas de crédito em que as parcelas mensais alcancem até 40% da renda familiar. É um percentual perigoso, principalmente para famílias sem uma reserva financeira de emergência. (…) De forma geral, o limite de financiamento imobiliário não deve exceder 25% da renda da família, para que não atrapalhe demais as metas e as despesas que precisam ser respeitadas — escreveu o especialista.

O que a Folha de S. Paulo e o Diário do Grande ABC deixaram de escrever é que há uma armadilha capitalista que pode fazer toda a diferença num futuro não muito distante para milhares de famílias empolgadas com o noticiário encomendado: a alienação fiduciária do bem financiado que, em síntese, significa a perda do imóvel por inadimplência.


Os mercadores imobiliários não têm preocupação alguma em apontar essa ameaça. Eles querem mesmo é faturar, mesmo que para isso Classe Média Emergente seja levada ao matadouro de imóveis de Classe Média Média.


Há irresponsáveis na praça que deveriam responder por crime de ilusionismo.


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