Sociedade

Luiz Marinho e Milton Bigucci
são iguais na falta de transparência

DANIEL LIMA - 28/05/2013

O prefeito de São Bernardo e o presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC esquecem que são figuras públicas e como tal devem satisfação à sociedade. O noticiário desta terça-feira, especificamente do Diário do Grande ABC, prova que Luiz Marinho e Milton Bigucci são amantes da opacidade.


 


Marinho volta a falar do terminal aeroportuário (que já foi comemorado como aeroporto internacional), enquanto Bigucci esgueira-se para safar-se das denúncias de abusos contra compradores de imóveis, além de, mais uma vez, divulgar fantasias numéricas sobre o comportamento imobiliário da região.


 


Falta tanto a um quanto a outro alguém que lhes puxe as orelhas e os coloque em terra firme, no chão batido da realidade, porque eles flutuam acima de tudo e de todos ao sabor de certa arrogância conferida pelos cargos que ocupam.


 


Luiz Marinho trata o terminal aeroportuário que pretende instalar em São Bernardo como propriedade particular. Agora, segundo o noticiário, Marinho decidiu confirmar o que até o pipoqueiro do Paço Municipal sabe de cor e salteado: a pretendida obra que atenderia somente a pequenos volumes de cargas estaria localizada no entroncamento da Rodovia dos Imigrantes e o trecho sul do Rodoanel. O pretexto para não entrar em detalhes sobre a área, a especulação imobiliária, é, na realidade, um tiro no pé. A manutenção do local em suposto segredo é que desperta a cobiça por um bom negócio. Digo suposto segredo porque quando se expõe a geografia da área sob olhares dos investidores, é claro que se caracteriza a localidade mais que provável. Não o seria se o terminal de cargas dispensasse alguns milhares de metros quadrados numa reserva de mananciais. Fosse um depósito de madeira, por exemplo, a dificuldade de apontamento do local seria multiplicada.


 


Tudo bem concertado


 


No fundo, não existirá especulação alguma porque tudo foi concertado e a primeira providência foi a escolha da área pelos investidores porque não se faz projeto técnico sem especificidades físicas. Como não se detecta a ruptura de um músculo e tampouco se prescreve o tratamento adequado se o atleta não passar por exames especializados.


 


O que se mantém na penumbra da desconfiança é o motivo pelo qual a Prefeitura dirigida por Luiz Marinho insiste em dar conotação de sigilo a algo que é escancaradamente público.  A transparência administrativa recomendaria que todas as informações sobre o terreno em questão, tanto sob aspectos físicos quanto legais e de origem dos proprietários, fossem apresentadas ao público.


 


Tudo acompanhado de estudos técnicos que teriam sido encaminhados à Agência Nacional de Aviação Civil. Como não se trata de construção de uma usina nuclear ou algo equivalente, não existe explicação convincente à escuridão.


 


Com base em tudo que já consumi de informações, não acredito nem mesmo num terminalzinho de carga em São Bernardo. Qualquer fato em contrário colocaria em xeque estudos de viabilidade ocupacional do espaço aéreo na Região Metropolitana de São Paulo. Mas isso é secundário nestas alturas do campeonato. O foco agora é o relacionamento do prefeito com a sociedade. Os jornais já divulgaram especulações sobre eventuais empreendedores do terminal de carga (já não se fala nem mesmo em aeroportozinho destinado a executivos), o que insinua um jogo de cartas marcadas que o prefeito aquece com o tratamento excessivamente cuidadoso que impõe.


 


Fosse o terminalzinho de cargas sonhado para São Bernardo o único buraco negro da administração Luiz Marinho em comunicação com a sociedade, seria menos grave. Infelizmente, trata-se de traçado gerencial consolidado. Seria ótimo se a Província do Grande ABC produzisse um gerenciador público moderno, que fizesse da transparência mantra abençoado, mas Luiz Marinho segue o perfil da classe de políticos que evitam o contato com a mídia, exceto se houver garantia de que nenhuma indagação lhe será supostamente constrangedora.


 


Tivesse Luiz Marinho viés diferenciado, há muito teria instaurado procedimento aberto com a Imprensa. Entrevistas coletivas trimestrais para uma espécie de prestação de contas, por exemplo, demarcariam um território de inovação que se pretende dos gerenciadores públicos. O terminalzinho de carga seria um grande filão de indagações da mídia independente.  E uma ótima oportunidade para o prefeito desfazer dúvidas e desconfianças.


 


Rasteira e arrastão


 


Já Milton Bigucci, presidente do Clube dos Construtores do Grande ABC, igualmente hostil a entrevistas que não sejam bajulativas, ocupa o noticiário desta terça-feira para dar uma rasteira geral na classe que supostamente representaria. Disse ele ao Diário do Grande ABC que o mercado imobiliário como um todo utiliza as mesmas digitais de seu conglomerado de empresas, a MBigucci -- ou seja, ludibria os compradores de imóveis. Escreveu o jornal, para que não haja dúvida de interpretação: “Segundo ele, a MBigucci pratica o mesmo estilo de contrato do mercado imobiliário, assim como outras companhias atuantes no setor”. Milton Bigucci completou: “Não fazemos nada diferente”.


 


Como se sabe, a MBigucci continua a ferir o Código de Defesa do Consumidor. A edição do Diário do Grande ABC de hoje aponta que a empresa segue a incidir no abuso, porque mesmo depois de a Justiça proibir a inclusão de taxas obrigatórias por assessoria imobiliária nos contratos, mantém os procedimentos de praxe.


 


O Diário do Grande ABC cumpre no acompanhamento do caso da MBigucci os procedimentos jornalísticos desejados pelos leitores. Na edição de hoje entrevistou o presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB de São Paulo, Marco Antônio Araújo Junior, e também a presidente da SOS Consumidor, Marli Aparecida Sampaio. Os dois dirigentes reforçaram a decisão judicial. Vejam o que declarou o representante da OAB da Capital:


 


 São princípios do CDC a transparência e a boa-fé objetiva. É a ética negocial. Tanto no contrato, no pré-contrato ou no pós-contato. Quando a empresa não passa todas as informações nessas etapas, está faltando com a transparência, pois ela deve ser absoluta. Quando não há, não existe a boa-fé objetiva.


 


A suicida defesa de Milton Bigucci, generalizando a prática de distorções na relação com a clientela, encaminha a duas vertentes conclusivas: está dizendo a verdade que, por ser verdade, exige das autoridades públicas completo arrastão no setor imobiliário, ou está sofismando de tal maneira que exigiria dos concorrentes e também dos demais dirigentes do Clube dos Construtores uma reação coordenada que desmascare o declarante.


 


Conhecendo o setor imobiliário como conheço, acredito piamente que Milton Bigucci está a dizer a verdade, porque se trata de um território livre a todo tipo de contravenção entre outros motivos porque conta com o suporte silencioso, quando não covarde, da maioria da mídia. Tudo com a contrapartida de investimentos publicitários.


 


Quando falo em contravenção, incluo delito em matéria de informação pública, porque, mais uma vez, no mesmo Diário do Grande ABC desta terça-feira, Milton Bigucci fala em nome do Clube dos Construtores para divulgar estatísticas oníricas sobre o mercado imobiliário da Província do Grande ABC. O dirigente aponta crescimento de 28% no número de unidades negociadas nos primeiros três meses deste ano ante o período de janeiro a março do ano passado. É claro que não oferece estudos que deem sustentação a mais um ato propagandístico. O que se pretende, novamente, é manipular o setor que, como repetimos há muito tempo, está carregadíssimo de micos e a prenunciar complicações que só não serão futuras porque já são presentes.


 


O Código de Defesa do Consumidor deveria estender os braços em direção às estatísticas furadas e nada transparentes de Milton Bigucci e à opacidade informativa do prefeito Luiz Marinho.


 


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