Sociedade

Autoridades não são divindades,
eis o choque das manifestações

DANIEL LIMA - 19/06/2013

Se querem saber, vou dizer: estou achando o máximo dos máximos as manifestações por todo o País, exceto os exageros, é claro. Estou tão cansado de esgoelar sobre as vagabundagens na Província do Grande ABC, sob estado permanente de anestesia cidadã, que não poderia deixar de comemorar, sem esconder inveja, o que se dá em diferentes capitais brasileiras. Já passara da hora de nossas autoridades que se pretendem divindades levarem um choque de realidade.


 


E a realidade é escandalosamente clara, embora a mídia comprometida insista em tentar esconder ou mistificar: o povo brasileiro, apesar da melhora que já não avança porque não há investimentos produtivos a alargar as fronteiras de criação de riqueza, o povo brasileiro, dizia, é sofrido demais. O transporte coletivo aviltante até para bovinos é apenas a ponta o iceberg que, felizmente, segundo as próprias lideranças dos manifestantes, não é mais o ponto central das mobilizações.


 


Foi muito interessante ver nossas autoridades públicas recuarem da autossuficiência e do desprezo dos primeiros dias de manifestações e agora, rabo entre as pernas da sobrevivência eleitoral, quando não administrativa, arriarem as calças no atendimento às reivindicações. Mas isso é muito pouco, até porque insustentável. Não há dinheiro no orçamento para resolver a caos da mobilidade de transporte coletivo nas grandes metrópoles. Até porque, se houvesse quem sairia lucrando mais uma vez seriam os empresários do setor, que se refestelam cada vez mais com as trambicagens em forma de generosidade social do bilhete único em várias modalidades.


 


Golpe do bilhete único


 


O golpe do bilhete único, denunciado por este jornalista, ainda não chegou às instâncias judiciais deste País porque, também as instâncias judiciais deste País demoram a captar as condições de tempo e temperatura da sociedade. O compadrio entre administradores, legisladores e empresários de transporte coletivo é tão despudorado, tão evidente, a combinar a partilha de receitas espúrias, que não se entende a omissão de instâncias investigativas. Ou se entende?


 


Embora concentre a quase totalidade de meus artigos na Província do Grande ABC, deixo sempre subliminarmente caracterizado que as mazelas não se restringem a esse território de 2,6 milhões de habitantes. Somos apenas, como tenho cansado de repetir, o laboratório vivo da Brasília de amanhã. Por Brasília de amanhã não é preciso estender-se, basta ver o noticiário da Brasília de hoje. A diferença é que somos uma Brasília que se retroalimenta de escândalos raramente denunciados e quando o são, na maioria dos casos, dá-se um jeitinho para minimizar, quando não pulverizar.


 


Os manifestantes pela tarifa zero reforçados por novas pautas e, principalmente, pelo sentimento generalizado de que o País precisa ser passado a limpo, lavaram minha alma. E nesse ponto respondo aos leitores que sempre se aliaram a mim nas crônicas sobre desmandos, arbitrariedades, omissões e tudo o mais na Província do Grande ABC.


 


Que se cuidem


 


O que mais estou adorando nessas manifestações é ver a cara dos políticos direta e indiretamente atingidos pelas mensagens e mesmo pelas reações truculentas de manifestantes. Eles começaram a ficar acuados. Mas ainda é pouco. Eles precisam sentir o peso da sociedade não só nas ruas, mas também nos novos atos no dia a dia. Gente desqualificada ocupa cargos com interesse explícito de aumentar o portfólio de patrimônio pessoal, quando não para acobertar enriquecimentos de terceiros mais poderosos, servindo-lhes de laranjas. São políticos e servidores públicos disfarçados de benfeitores da sociedade. E são arrogantes. E são caras de pau. E são mandões. E são inúteis. E são descartáveis. E são vingativos.


 


Grande parte da responsabilidade de o Brasil viver o que vive há muito tempo, com breves intervalos de crescimento, é da mídia. Há donos de empresas de comunicação e há jornalistas sabujos que não poderiam passar em frente a uma redação, porque assim se evitaria que os negócios extra pauta se tornassem a manchete de amanhã, a omissão de amanhã, a enganação de amanhã.


 


Tomara que as manifestações destes dias não sejam episódicas a refluir à primeira migalha dos políticos encastelados agora não tão seguramente como antes. A pauta para um novo Brasil que precisa saltar rumo ao futuro é muito mais extensa que uma tarifa zero, que uma PEC 37, que o nível de qualidade da saúde, da educação e do transporte público.


 


Os jovens que estão nas ruas são a esperança de um futuro diferente, porque as gerações mais vividas fracassaram redondamente ao acomodarem-se no individualismo subalterno do gigantismo fiscal de um Estado industrializador de surubas político-partidárias que colocam no mesmo ambiente, porque mutuamente satisfatório, gente que se odiava no passado e que se lambuza agora. Tudo em nome de uma falsa governabilidade em âmbito municipal, estadual e federal. Governabilidade coisa nenhuma: é safadeza pura, é mau-caratismo disfarçado de flexibilidade ideológica. É abuso de confiança dos eleitores e da democracia.


 


Já passou da hora de nossos políticos se preocuparem com a segurança pessoal sim, porque o povo não tem outro destino no dia a dia de metrópoles assaltadas pela estupidez da violência de diferentes matizes. Nossos políticos, em larga escala, sentem-se donos dos pedaços, imunes a contestações entre outras razões porque contam com a retaguarda de mídias vadias, as quais transformam em terminais de repasses publicitários empresariais e governamentais ante contrapartidas de favores e privilégios editoriais.


 


Estou sentindo falta de uma mobilização envolvente na Província do Grande ABC. Nossos jovens precisam reagir localmente às imundícies locais. Deslocar-se à Capital vizinha é um bom vestibular ao exercício do poder de transformações de que tanto necessitamos, mas os queremos aqui, dispostos a botar os políticos e os maus empresários na linha, porque são poucas as vozes sociais que se dispõem à democracia de verdade, e por isso mesmo são perseguidas, quando não penalizadas, invariavelmente sufocadas.


 


Juro por todos os juros que, assim como fui às ruas da região para lutar pelo voto regional em 1994, quando da criação do que mais tarde se tornou o engodo chamado Fórum da Cidadania do Grande ABC, não terei dúvidas em juntar-me aos manifestantes que decidirem botar nos eixos da ética e da moralidade os políticos e os empresários locais que não respeitam a sociedade. Esses caras precisam aprender que, como os alvos principais das manifestações nas capitais, não são deuses. 


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