A segunda edição do RUF (Ranking Universitário Folha), produzido pelo jornal Folha de S. Paulo, comprova que a Província do Grande ABC trocou a imperiosidade de contratar um centroavante com habilidades econômicas pelo supérfluo de manequim para passarelas internacionais. A UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) ocupa a última posição possível no indicador “mercado de trabalho”, o que contribui para cair na classificação geral. É a 61ª colocada, após ter alcançado a 45ª posição no ranking de 2012. Imposta à região porque a região não sabe se impor, já que é um mar de indolência cidadã, a UFABC custa os tubos para os cofres públicos federais a cada temporada, mas segue com a vocação que ninguém em sã consciência pretendia ver aplicada aqui, onde as necessidades são outras e mais urgentes: produz cérebros supostamente para o mundo, enquanto seguimos dependentes da Doença Holandesa do setor automotivo em meio ao tiroteio da descentralização da atividade que certamente vai nos atingir na medida em que o protecionismo em forma de renúncias fiscais afrouxar-se. Tão perniciosa quanto a mobilização ideológica que esculpiu a UFABC sob conceitos arraigadamente academicistas para fazer-se presente em passarelas internacionais segue sendo a associação de cinismo, silêncio e bajulação em torno da instituição na região. Nada de benefícios Sempre sem incursionar pelo terreno pantanoso da qualidade de ensino combinada com objetividade dos pressupostos que guiam a UFABC, porque há muita subjetividade a demarcar esse território, o fato é que a sociedade regional praticamente nada tem a beneficiar-se de uma instituição direcionada além-fronteiras. Somos como bem definiu o educador Valmor Bolan apenas uma barriga de aluguel daquela universidade que, com 10 mil alunos, pretende ultrapassar a 20 mil até o final desta década. Fosse o Ranking Universitário Folha menos acadêmico, a pontuação da Universidade Federal do Grande ABC seria ainda mais discreta. O peso relativo do quesito mercado de trabalho é de 18 pontos apenas, contra 40 de Pesquisa, seis de Internacionalização, quatro de Inovação e 32 de Ensino. O quesito Pesquisa considera sete subindicadores: a) Trabalhos científicos publicados pela instituição (sete pontos); b) Citações desses trabalhos em outras pesquisas (sete pontos); Proporção de citações por publicação (dois pontos); Publicação por docente (sete pontos); Citações por docente (sete pontos) e Recursos captados em agências de fomento (quatro pontos). O quesito Ensino considera quatro subindicadores: a) Pesquisa Datafolha com 464 professores que avaliam os cursos de graduação para o Inep (22 pontos); Professores com doutorado (quatro pontos); Professores com dedicação integral-dados MEC (quatro pontos) e Nota Enade – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (dois pontos). O quesito Mercado de Trabalho leva em conta Pesquisa Datafolha com 1.681 responsáveis pela área de recursos humanos de empresas. O quesito Internacionalização considera três subindicadores: a) Citações de trabalhos da instituição em publicações internacionais (dois pontos); b) Publicação da universidade em coautoria internacional (dois pontos); c) Docentes estrangeiros em relação ao corpo docente total (dois pontos). Completando a lista está o quesito Inovação, que se refere a pedidos de patentes de 2002 a 2011. Ranking academicista Ora, ora, se mesmo num ranking flagrantemente voltado ao lustro acadêmico a Universidade Federal do Grande ABC não alcança as vantagens classificatórias de quem surgiu e foi implementada logicamente do zero, sem carregar nenhum ônus de passado de tendências que nem sempre se confirmam, o que esperar se o espectro do trabalho da Folha de S. Paulo não fosse contaminado pelo viés da subjetividade típica de conhecimentos quase sempre com pouca sincronia com o mundo real, de transformações sociais e econômicas? O melhor posicionamento da Universidade Federal do Grande ABC é no quesito Internacionalização, no qual ocupa o primeiro lugar. A vocação da instituição está confirmadíssima, para desgosto dos que lutaram décadas por uma organização de ensino que pulsasse as inquietações econômicas da região. Na área de Pesquisa, a UFABC ocupa a 21ª posição. Despenca ao 85º posto quando se trata de Inovação, é 79ª em Ensino e no Mercado de Trabalho é a última colocada (155ª colocação) juntamente com uma penca de inutilidades do ramo. No site da UFABC há um registro breve sobre o RUF, sob o título “Aos 7 anos, UFABC lidera ranking no quesito internacionalização”. Reproduzo o texto a título de registro e também por conta de consubstanciar análise:
Meia-verdade e omissão As declarações do pró-reitor são uma meia-verdade. Há outras instituições de ensino igualmente criadas há pouco tempo com desempenho muito mais sólido no quesito Mercado de Trabalho. Pretender negar o inegável, ou seja, que a instituição não tem queda para atividades produtivas porque tem aversão ao capitalismo, como cansaram de afirmar os próprios reitores que passaram por lá, equivale a negar o dogma da internacionalização reproduzido pelo próprio ranking. Sobre os outros buracos educacionais da UFABC, o vice-reitor não faz menção alguma. Provavelmente porque não teria como instrumentalizar meias-verdades que a maioria costuma engolir. A expansão da Universidade Federal do Grande ABC a outros municípios, além de Santo André e São Bernardo que já contam com cursos, será o acúmulo de novos desperdícios regionais caso não se corrija a rota curricular e pedagógica. Essa possibilidade equivale a chutar um vespeiro. Os mandachuvas da instituição agarram-se aos preceitos que determinaram a criação da instituição e que, em termos de custos para o futuro da região, equivale a discutir qual é o melhor cardápio da culinária francesa embaixo da ponte. Leiam também: Universidade Federal é boa para o ego regional; e para o bolso? Principado da UFABC ataca Lula e sufoca regionalidade Conselho manifesta-se sobre Universidade do Grande ABC |
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS