Sociedade

Ranking Folha prova: UFABC é
manequim, não centroavante

DANIEL LIMA - 12/09/2013



A segunda edição do RUF (Ranking Universitário Folha), produzido pelo jornal Folha de S. Paulo, comprova que a Província do Grande ABC trocou a imperiosidade de contratar um centroavante com habilidades econômicas pelo supérfluo de manequim para passarelas internacionais.  A UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) ocupa a última posição possível no indicador “mercado de trabalho”, o que contribui para cair na classificação geral. É a 61ª colocada, após ter alcançado a 45ª posição no ranking de 2012.


 


Imposta à região porque a região não sabe se impor, já que é um mar de indolência cidadã, a UFABC custa os tubos para os cofres públicos federais a cada temporada, mas segue com a vocação que ninguém em sã consciência pretendia ver aplicada aqui, onde as necessidades são outras e mais urgentes: produz cérebros supostamente para o mundo, enquanto seguimos dependentes da Doença Holandesa do setor automotivo em meio ao tiroteio da descentralização da atividade que certamente vai nos atingir na medida em que o protecionismo em forma de renúncias fiscais afrouxar-se.


 


Tão perniciosa quanto a mobilização ideológica que esculpiu a UFABC sob conceitos arraigadamente academicistas para fazer-se presente em passarelas internacionais segue sendo a associação de cinismo, silêncio e bajulação em torno da instituição na região.


 


Nada de benefícios


 


Sempre sem incursionar pelo terreno pantanoso da qualidade de ensino combinada com objetividade dos pressupostos que guiam a UFABC, porque há muita subjetividade a demarcar esse território, o fato é que a sociedade regional praticamente nada tem a beneficiar-se de uma instituição direcionada além-fronteiras. Somos como bem definiu o educador Valmor Bolan apenas uma barriga de aluguel daquela universidade que, com 10 mil alunos, pretende ultrapassar a 20 mil até o final desta década.


 


Fosse o Ranking Universitário Folha menos acadêmico, a pontuação da Universidade Federal do Grande ABC seria ainda mais discreta. O peso relativo do quesito mercado de trabalho é de 18 pontos apenas, contra 40 de Pesquisa, seis de Internacionalização, quatro de Inovação e 32 de Ensino. O quesito Pesquisa considera sete subindicadores: a) Trabalhos científicos publicados pela instituição (sete pontos); b) Citações desses trabalhos em outras pesquisas (sete pontos); Proporção de citações por publicação (dois pontos); Publicação por docente (sete pontos); Citações por docente (sete pontos) e Recursos captados em agências de fomento (quatro pontos). O quesito Ensino considera quatro subindicadores: a) Pesquisa Datafolha com 464 professores que avaliam os cursos de graduação para o Inep (22 pontos); Professores com doutorado (quatro pontos); Professores com dedicação integral-dados MEC (quatro pontos) e Nota Enade – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (dois pontos). O quesito Mercado de Trabalho leva em conta Pesquisa Datafolha com 1.681 responsáveis pela área de recursos humanos de empresas. O quesito Internacionalização considera três subindicadores: a) Citações de trabalhos da instituição em publicações internacionais (dois pontos); b) Publicação da universidade em coautoria internacional (dois pontos); c) Docentes estrangeiros em relação ao corpo docente total (dois pontos). Completando a lista está o quesito Inovação, que se refere a pedidos de patentes de 2002 a 2011.


 


Ranking academicista


 


Ora, ora, se mesmo num ranking flagrantemente voltado ao lustro acadêmico a Universidade Federal do Grande ABC não alcança as vantagens classificatórias de quem surgiu e foi implementada logicamente do zero, sem carregar nenhum ônus de passado de tendências que nem sempre se confirmam, o que esperar se o espectro do trabalho da Folha de S. Paulo não fosse contaminado pelo viés da subjetividade típica de conhecimentos quase sempre com pouca sincronia com o mundo real, de transformações sociais e econômicas?


 


O melhor posicionamento da Universidade Federal do Grande ABC é no quesito Internacionalização, no qual ocupa o primeiro lugar. A vocação da instituição está confirmadíssima, para desgosto dos que lutaram décadas por uma organização de ensino que pulsasse as inquietações econômicas da região. Na área de Pesquisa, a UFABC ocupa a 21ª posição. Despenca ao 85º posto quando se trata de Inovação, é 79ª em Ensino e no Mercado de Trabalho é a última colocada (155ª colocação) juntamente com uma penca de inutilidades do ramo.


 


No site da UFABC há um registro breve sobre o RUF, sob o título “Aos 7 anos, UFABC lidera ranking no quesito internacionalização”. Reproduzo o texto a título de registro e também por conta de consubstanciar análise:


 


 A UFABC lidera a edição 2013 do Ranking Universitário da Folha no quesito Internacionalização. O resultado foi divulgado dois dias antes da data que marca o início das atividades acadêmicas da Universidade. A UFABC completa sete anos neste 11 de setembro. O posto alcançado pela UFABC se deve a três motivos: publicações internacionais que citam publicações da Universidade na base Web of Science, percentual de artigos na base Web of Science em coautoria internacional e proporção de professores estrangeiros em relação ao número total de docentes da instituição. Em relação à produção de pesquisa, a UFABC também aparece bem colocada. A Universidade ocupa a 21ª posição. "Isso é resultado de uma conta envolvendo vários indicadores individuais, mas se baseia em dados de produção de 2009 e 2010. Portanto, 50% dessa nota é reflexo da pesquisa da UFABC na época anterior à entrega dos principais prédios. É gratificante ver a pesquisa dessa época já em posição 21 de 192. Podemos esperar resultados melhores ainda para os próximos anos", explicou o pró-reitor de Pesquisa, Klaus Capelle. No item Mercado, porém, a UFABC obteve apenas a posição de número 155. Para Capelle, o curto período de existência da Universidade influiu nesse resultado. "Cabe constar que essa nota é resultado de entrevistas Datafolha com 1681 executivos da área de RH do país. Naturalmente, a UFABC, que ainda formou poucas pessoas e é pouco conhecida no meio do RH, não tem como competir com as universidades mais tradicionais nesse quesito", disse o pró-reitor.


 


Meia-verdade e omissão


 


As declarações do pró-reitor são uma meia-verdade. Há outras instituições de ensino igualmente criadas há pouco tempo com desempenho muito mais sólido no quesito Mercado de Trabalho. Pretender negar o inegável, ou seja, que a instituição não tem queda para atividades produtivas porque tem aversão ao capitalismo, como cansaram de afirmar os próprios reitores que passaram por lá, equivale a negar o dogma da internacionalização reproduzido pelo próprio ranking. Sobre os outros buracos educacionais da UFABC, o vice-reitor não faz menção alguma. Provavelmente porque não teria como instrumentalizar meias-verdades que a maioria costuma engolir.


 


A expansão da Universidade Federal do Grande ABC a outros municípios, além de Santo André e São Bernardo que já contam com cursos, será o acúmulo de novos desperdícios regionais caso não se corrija a rota curricular e pedagógica. Essa possibilidade equivale a chutar um vespeiro. Os mandachuvas da instituição agarram-se aos preceitos que determinaram a criação da instituição e que, em termos de custos para o futuro da região, equivale a discutir qual é o melhor cardápio da culinária francesa embaixo da ponte.


 


Leiam também:


 


Universidade produtiva


 


Universidade Federal é boa para o ego regional; e para o bolso?


 


Principado da UFABC ataca Lula e sufoca regionalidade


 


Conselho manifesta-se sobre Universidade do Grande ABC


 


UFABC é do século XIX, diz Bolan


 


Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1125 matérias | Página 1

12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO
11/06/2025 PÁGINAS VIRADAS DE UMA MUDANÇA DESASTROSA
05/06/2025 VIVA DRAUZIO VARELLA, VIVA A REGIONALIDADE
30/05/2025 RANKING DE QUALIDADE DE VIDA: SANTO ANDRÉ SOFRE