Economia

Uma pena que nossa economia
não tenha a vitalidade do futebol

DANIEL LIMA - 31/03/2010

Possivelmente os leitores mais atentos, críticos ou loucos para me pegar no contrapé, estariam se perguntando: por que ao se ultrapassar o território esportivo e invadir a seara econômica o tom destes artigos muda tanto de humor?

Simples, muito simples: porque no esporte, principalmente no caso do desempenho das principais equipes de futebol profissional da região nesta temporada, os resultados em campo são entusiasticamente positivos, enquanto na economia, até prova em contrário, vive-se, numa linguagem popularesca ou vicentina, muito de lerolero e de birobiro.

Principalmente neste ano eleitoral, quando a fome pantagruélica do partidarismo costuma devorar reputações que sobraram, as idiossincrasias se elevam e o dialeto ufanista ganha novas conotações. Quem entre os triunfalistas resiste à cantoria de louvação ao trecho sul do Rodoanel, espécie de pó de pirlimpimpim, ou aos anunciados Pólos Tecnológicos, ainda mal assentados no papel mas que transmitem nas manchetes e nos textos rasos a sensação de que já estão faturando horrores?

É uma benção que Santo André, São Caetano e São Bernardo estejam a reescrever uma nova história coletiva no futebol do Grande ABC, prontos para disputar pela primeira vez em séculos a Série A do Campeonato Paulista.

Quem foi forjado nas lides esportivas e por isso mesmo não carrega o preconceito de que o futebol seja atividade menor, sem imbricamento cultural, acompanha os bons resultados em campo e transporta para o cesto de entusiasmo regional a certeza de boas colheitas de entusiasmo.

Os bons resultados do futebol do Grande ABC, saudados aqui sem meias palavras antes mesmo que de fato, nos gramados, cristalizassem posicionamentos destacados na classificação geral, dão mais força para que me mantenha a salvo da maledicência. Sim, o que não falta na praça são detratores que há muito pretendem me colar rótulos sobre os quais posso não ter controle, mas com os quais convivo emocionalmente estável. Conheço as patas da ignorância.

É impossível deixar de citar o recuperador de impostos Walter Sebastião dos Santos que, num lance típico dos tardiamente novatos, imberbes e despreparados, imaginou que ao assumir a revista Livre Mercado e ao alterar o tom editorial tradicionalmente crítico, caminhando portanto para o abrandamento, daria um golpe de mestre de jornalismo.

Caiu do andaime da prepotência e, como se sabe, já entregou a rapadura mal se completou um ano de transferência da marca.

Sou fundamentalmente positivista quando se trata de minha individualidade. Como não sou e não pretendo ser uma ilha, o entorno familiar, profissional e social me maltrata. E tem me incomodado há muito tempo. Mais precisamente desde que o Grande ABC entrou em parafuso econômico e em pirueta social, desabando no mar aberto da inapetência institucional.

Quem espera que vou cair no conto do vigário de analisar apressadamente as informações que pululam nas páginas de jornais impressos e digitais nesta temporada, dando conta de série de supostas decisões que vão incrementar a economia do Grande ABC, desconhece que acabo de relançar, agora em edição digital, o livro “Meias Verdades”.

Assim como não tenho mais o direito de reclamar de nada se assinar cheque em branco e acreditar piamente em todo mundo, como o fiz ao longo dos anos como acionista minoritário da Editora Livre Mercado, também não assino o atestado de ingenuidade ao comprar as notícias que surgem nesta temporada, porque o passado é mais que ilustrativo.

Aliás, poucas foram as vezes que caí nas armadilhas dos industrializadores de sonhos. Diria mais: se tivesse cuidado de minha vida empresarial como sempre cuidei da vida profissional, não teria sido escandalosamente assaltado. Mas isso são águas passadas que já não movem moinhos, até porque os moinhos são outros.

Coleciono todas as notícias relevantes de jornais e revistas entre outras razões porque há manancial extenso e profundo para novas versões de Meias Verdades. O que temos lido sobre a economia do Grande ABC é tão desproposital que o tempo vai provar que estou certíssimo em observar com ceticismo os movimentos mais que combinados com o calendário eleitoral. Longe de mim torcer contra, porque sou sempre Grande ABC. Entretanto, não posso me permitir a bobagem de engrossar o coro de ingenuidade ou de malandragem estudada.

A independência econômica deste endereço eletrônico, a maior que já tive num veículo de comunicação em toda a minha vida profissional, é uma estupidez (no bom sentido, claro) do destino, porque se antes, pressionado por todos os cantos, já teimava em dar de ombros às pressões, imagine agora então.

Ou os leitores têm ideia do que seja encarar o escândalo da Cidade Pirelli?

Ai daqueles que estão a imaginar que vão passar impunes por tudo que andam dizendo aos jornalistas. Estou coladíssimo em cada frase que despejam na mídia sobre o novo surto desenvolvimentista do Grande ABC.

Aquele empresário asiático que esteve por aqui prometendo o mundo e os fundos numa manchete de primeira página do Diário do Grande ABC depois de, estranhamente, ser chutado pelo prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, ainda há de render muitas histórias.

Das duas uma: o sul-coreano não passa de um embuste que levou no bico todo mundo que lhe deu credibilidade, inclusive o jornal que lhe abriu a manchete e o juiz de Direito que estranhamente o acompanhava e que deixou-se fotografar na mesma primeira página, ou o prefeito Luiz Marinho terá de ser deposto do cargo por desdenhar tamanha sorte de investimento.

Estou de peito aberto em tudo que estiver vinculado ao futebol do Santo André, do São Caetano e do São Bernardo nesta temporada, entre outros motivos porque entendo o suficiente do riscado para saber que cada uma dessas equipes está fazendo por merecer o que estão conquistando.

Entretanto, em se tratando de economia, estou na retranca sim, preocupadíssimo com mais uma temporada de promessas que dificilmente se cumprirão. Há oportunistas aos borbotões a desfilar frases de redenção regional quando se sabe que, da mesma forma que o esvaziamento econômico foi lento, gradual e terrível, a recuperação também obedeceria a mesma lógica.

A chegada do trecho sul do Rodoanel com 10 anos de atraso e depois de o Grande ABC perder a prioridade para o trecho oeste, da Grande Osasco, que daqui levou muitas empresas, é saudada como grande conquista. Convém acautelar-se, porque, de fato, não passa de uma vantagem de mobilidade veicular que está longe de converter-se em benefício econômico extraordinário, por motivos que já cansei de explicar.



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