Economia

SÃO BERNARDO AINDA
DEVE 92.372 VAGAS

DANIEL LIMA - 02/12/2025

Se a mídia profissional (não interessa se impressa, digital ou hibrida) tomasse vergonha na cara e deixasse de proteger agentes públicos e privados que fazem de declarações irresponsáveis um portal de louvação rumo ao paraíso de engabelações, Rafael Demarchi estaria frito. Como prometemos aos leitores que não largaremos o pé do Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo até que se esgotem os 48 meses do mandato do prefeito Marcelo Lima, aqui estamos mais uma vez para lembrar sobre o andar da carruagem de fogo do empregômetro e do desempregômetro.

Empregômetro e desempregômetro são neologismos que criamos na esteira do “impostômetro” da Associação Comercial de São Paulo para medir o tamanho do mercado de trabalho do Grande ABC. O destaque está reservado a São Bernardo em função das  declarações  nauseabundas do secretário Demarchi.

A base de informações e análises  é o balanço de demissões e admissões do Ministério do Trabalho e  Emprego. A medida tem o sentido objetivo e contributivo de evitar que circunstanciais números reluzentes num determinado período sejam, como sempre o foram e continuam a ser, levados aos leitores incautos como dados estruturantes. As fontes  contaminadas pelo oficialismo matreiro precisam ser atentamente observadas. 

MAIS COBRANÇA

Exaltam-se dados supostamente vigorosos de determinado mês ou período curto (caso frequente do Grande ABC) e se esconde o conjunto da obra, que vem de longe. Muitas vezes tudo não passa mesmo de reposição parcial de estragos que, em seguida, ciclicamente,  retornarão com fúria. Quando a reação se provar consistente, é até possível minimizar o passado mais arrasador, sem, entretanto, deixar de converter tudo numa avaliação cuidadosa e condicionada às nuances específicas.

Falta a muitos leitores a implacabilidade que geralmente revelam com toda a razão quando percebem que o caixa do supermercado, que o vácuo no trânsito, que o boleto do condomínio,  que essas coisas do dia a dia, não correspondem à lisura ética, ao bolso ou à cidadania. Fossem os leitores em geral também exigentes com informações que ultrapassam a linha de fundo da superficialidade, muita coisa se alteraria no País.

Não faltam modalidades de desvios. Por exemplo: falar em fake news do alto do jornalismo impresso sem olhar para o próprio rabo de matreirices é uma estratégia duplamente pecadora. Afinal, avoca-se para si integridade ética mariamolente e se transfere a terceiros a sentença de morte de condenação  continuada e desclassificatória,  independentemente dos valores reais contidos.  

AMBIENTE FALSIFICADO

Por essas e outras não vou dar trégua ao secretário Rafael Demarchi e ao prefeito Marcelo Lima sempre que se tratar do placar geral do emprego formal em São Bernardo durante os quatro anos de mandato.

Vou ser o que todo jornalista teria obrigação de ser: um cachorro bravo, um cão perdigueiro, essas coisas metafóricas que jornalistas consagrados no passado faziam questão de lembrar àqueles que ousassem infringir determinadas questões que mexessem diretamente com o senso comum e a sensibilidade subjetiva ou material da população.

Ou há alguma dúvida de que alguém que vá à mídia e propaga a estultice de 100 mil empregos em quatro anos, tendo-se como premissa de estultice o comportamento adverso do emprego formal nos quatro anos anteriores, entre outros  fatores, alguém desse tipo promove rede de confiabilidade que leva a sociedade como coletivo e principalmente individualmente a decisões que não flertam com enorme risco?

Por conta disso, rio a valer quando leio o que supostamente seria um dilema destes tempos modernos que colocam o jornalismo impresso e o jornalismo digital em cantos separados pela tradição, pela especificidade de cada um. Pura bobagem. Até porque a audiência do jornalismo impresso em baixa procura proteção e representatividade social no jornalismo digital tanto execrado. É uma esquizofrenia sem limites.

QUALIDADE SEMPRE

Leitor apetrechado não faz muita distinção entre a plataforma física ou a plataforma digital. Leitor qualificado exige informação de primeira. Preferencialmente, indubitavelmente, largamente, consagradoramente, muito além da superficialidade, da lavação de mãos para agradar gregos ou troianos, quando não gregos e troianos.

Qualquer dia desses vou escrever mais uma vez sobre plataformas de publicações. Prefiro o jornalismo impresso de qualidade e também o jornalismo digital de qualidade. Jornalismo de papel de baixa qualidade e jornalismo digital de baixa qualidade têm de ser descartados. Nada de prestigiar fontes de devaneios que trocam  qualidade pela materialidade.

Pronto, já derivei demais sobre a pauta explicitada pela indignação provocada pelo secretário de São Bernardo que, quase um ano após tomar posse, não tem uma única ação relevante para acalmar o turbilhão econômico que ainda balança São Bernardo, refém permanente da Doença Holandesa Automotiva.

E olhem que o principal território econômico da região vai ser ainda mais impactado com a invasão dos chineses e a maluquice dos sindicalistas locais que vibram com o desembarque de veículos asiáticos, movidos, esses mesmos sindicalistas, por contradições que não ficam de pé. 

RASGANDO A FANTASIA 

Agora vamos aos números de São Bernardo nesta temporada, contabilizados 10 meses de empregos formais. O saldo de 7.628 de um total regional de 26.068 novos postos de trabalho (a maioria de comércio e serviços) representa apenas 7,63% do total necessário para que se chegue à meta-fantasia de 100 mil empregos em quatro anos. Já  no confronto com a  média anual necessária de 25 mil novos postos de trabalho em São Bernardo  não passa de 30%. É muito pouco. E vai diminuir ainda mais porque a contabilidade da temporada é sempre decrescente no último mês de cada temporada. 

Quando o mandato do prefeito Marcelo Lima começou em janeiro e o secretário Rafael Demarchi rasgou a fantasia da imprevidência verbal e matemática ao anunciar 100 mil empregos formais em quatro anos, a média mensal necessária para se alcançar o objetivo onírico era de 2.083 novos contratados nas mais diferentes categorias profissionais.

Passados 10 meses, saldo médio mensal de 762 novos trabalhadores formais, restam ser incorporados nas companhias privadas de São Bernardo nada menos que 92.372 trabalhadores – média mensal de 2.431, com acréscimo, portanto, de 16,70%. 

PRIMEIRA DERRAPADA 

Foi na edição de 23 de janeiro que produzi a primeira análise crítica à conversão do político Rafael Demarchi ao comando da Economia de São Bernardo. Sob o título “Um prato indigesto do secretário Demarchi”, escrevi que um frango de despreparo com polenta de desinformação marcava as primeiras declarações públicas de Rafael Demarchi.  O herdeiro da família que fez  história na rota dos restaurantes destruída pela desindustrialização praticamente servia um prato indigesto como secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo. Mais parecia um explosivo vatapá.

Num dos trechos daquela análise, escrevi que os 35 minutos de entrevista foram desanimadores, quando não frustrantes, quando não dolorosos, diante de câmeras e microfones do ABC em Off. Antecipei o óbvio: a Capital econômica da região seguiria sem perspectivas de recuperação caso dependesse de ações internas profiláticas e criativas.

Lembrei que a Doença Holandesa Automotiva de São Bernardo continuaria a consumir reservas dos tempos de glória, rebaixando ainda mais a já lenta mobilidade social. O secretário Rafael Demarchi era a garantia de que esse roteiro seria seguido à risca. 

ALUCINÓGENO?

Alertei ainda que só existia uma possibilidade de a impressão deixada na entrevista do secretário escolhido pelo prefeito Marcelo Lima por razões políticas não se consumar tragicamente no futuro próximo e distante. Bastaria constatar que Rafael Demarchi não estava no melhor do juízo, encantado com as lantejoulas dos entrevistadores e também do público que acompanhava a entrevista. Um alucinógeno servido inadvertidamente poderia explicar tantas escorregadelas.

Rafael Demarchi, ressaltei, vivia em outro planeta, como a maioria de políticos ou não que são convocados a oferecer contribuição ao Desenvolvimento Econômico da região e se acham na obrigação de fazer aquilo que bares e padarias servem diariamente: uma média requentada que provoca dores nos intestinos da credibilidade.

Adverti que o bom-mocismo do secretário, simpático e com razoável fluência verbal, embora estéril, é sempre preferível num Grande ABC de encenação politicamente correta e socialmente destruidora.

Também apontei vários  pontos excessivamente salgados do prato servido pelo membro da família Demarchi

Possivelmente a mais lastimável resposta de Rafael Demarchi num encontro jornalístico amistoso referia-se ao então governador do Estado, Geraldo Alckmin, e a uma frase, síntese da incompetência, repetida à exaustão por ignorantes como o novo secretário de São Bernardo.

Ao afirmar que São Bernardo “é a melhor esquina do Brasil”, Rafael Demarchi não só repetiu a barbaridade geoeconômica de Geraldo Alckmin, como também expôs com crueza o nível de alheamento sobre a economia de São Bernardo e do Grande ABC como um todo.

AGORA, 100 MIL 

Mas foi na edição de março deste ano que o secretário Rafael Demarchi escorregou na maionese da exacerbação de um otimismo sem lastro. Sob o título “Quem segura devaneios do secretário Demarchi”, escrevi que o prefeito Marcelo Lima precisaria dar um jeito no que parecia não ter jeito, mas tinha jeito sim: que mandasse o secretário de Desenvolvimento Econômico Rafael Demarchi calar a matraca de lorotas. Afinal, cada vez que o subordinado abria a boca para preparar um prato requentado de frango estatístico com polenta especulativa só saia besteira.  

E escrevi: “Garantir como o secretário garantiu ainda outro dia que o saldo líquido de empregos formais em São Bernardo após quatro anos de mandato de Marcelo Lima alcançará 100 mil trabalhadores é o fim da picada. É algo como estar no fim da fila de um restaurante self-service, aguardar durante longo tempo e quando chega a vez de preparar o prato, a comida acabou”.  

Lembrei o prefeito que o preço da lealdade de alçar à Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo um político sem qualquer preparo para lidar com os desafios da Capital Econômica do Grande ABC era um erro crasso. Pior que isso era achar que o secretário teria jeito para a coisa. “Pau de vácuos de conhecimento que nasce torto não tem jeito, morre torto”.

MANANCIAIS DE OURO

Também escrevi que seria uma conquista fantástica São Bernardo registrar novos 100 mil empregos em 48 meses. A possibilidade existiria se descobrissem nos mananciais que recheiam a geografia de São Bernardo uma área extensa à exploração de petróleo, diamantes ou algo do gênero, e que, portanto, transformasse a cidade em Serra Pelada. “Já imaginou as águas da Represa Billings transformadas em ouro líquido e exploradas por multinacionais? Só assim mesmo seria possível recuar no tempo das montadoras e autopeças ávidas por investimentos locais”.

Outro trecho daquela análise que vale a pena revisitar. Escrevi: “Rafael Demarchi sapateou nos dados incompatíveis com a pregação do gigantesco saldo. Em dezembro do ano passado, o estoque de trabalhadores com carteira assinada em São Bernardo registrava 290.851 trabalhadores. Seria, portanto, um crescimento relativo de 30% sobre o estoque para que a projeção do secretário destrambelhado se concretizasse. Não há caso próximo disso em situação de normalidade em qualquer geografia do País”.

Para completar a transcrição de trechos mais importantes daquela análise de abril último, vejam o que escrevi: “O passado medido a partir de 2014, ou seja, exatamente uma década, não dá o menor respaldo ao secretário de São Bernardo. Em 2014, ano que antecedeu o período mais devastador da economia de São Bernardo, com Dilma Rousseff de presidente, eram 292.028 carteiras assinadas em São Bernardo. Exatamente 1.177 postos de trabalho acima do registrado na ponta da comparação, o 2024  - de 290.851 empregos formais. A pergunta elementar está posta: como uma cidade que em 10 anos completos não criou saldo de empregos nas atividades econômicas (e que perdeu nesse período milhares de postos de trabalho no setor industrial, força-motriz da economia local) registrará saldo adicional de 100 mil em quatro anos”?



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