Economia

QUANDO MAIS É
CADA VEZ MENOS

DANIEL LIMA - 10/12/2025

Nem sempre mais significa mais. Há muitos casos em que mais significa menos. Em outras situações, mais significa muito menos. Por isso, é latente a fome empreendedora no Grande ABC. Enquanto dirigentes de entidades empresariais cantam vitórias nas páginas de jornal de papel e de jornal digital, dados desdobrados pela lógica de vasos comunicantes de relações comerciais são implacáveis.

O Grande ABC Gataborralheiresco e analfabeto econômico cantarola vitória onde deveria entoar réquiem. Acompanhe o que se segue e vai descobrir que o Grande ABC dos últimos 25 anos aumentou autofagicamente o número de empreendimentos porque o Desenvolvimento Econômica segue emperrado. Vamos em frente? 

Fiquei em dúvida no parágrafo anterior se utilizava “apetite” ou “fome” para qualificar o marcador de empreendedorismo do Grande ABC. Havia escrito “apetite”, mas repensei e mudei. “Fome” é mais apropriada à realidade dos fatos. Afinal, o empreendedorismo movido pela tentativa de superar alçapões do mercado em decadência é mais compatível com um lance de risco. “Apetite” me parece algo mais agradável, próprio de uma oportunidade que se vislumbra como sinônimo de bola no barbante.

VEJAM OS DADOS

Sabem os leitores quantos empreendimentos comerciais e de serviços regularizados existiam no Grande ABC antes da virada do século, mais precisamente em abril de 1999? Sabem quantos estavam registrados também oficialmente no Grande ABC em abril deste ano? Sabem os leitores o que cercava esses dados para que se chegue à tragédia do empobrecimento cantarolado pelos ignorantes de plantão?

Se não sabem é natural. O tempo entre uma coisa e outra é relativamente longo e o Desenvolvimento Econômico do Grande ABC é uma taça de vinho que azedou enquanto triunfalistas insistem em festejar como safra especial.

Querem fazer um cálculo preliminar? Pois os sete municípios do Grande ABC dividido e repartido no século passado contavam em abril de 1999 com o total de 61.949 empreendimentos de comércio e de serviços para um mercado consumidor formado por  uma população geral de 2.323.565 milhões de moradores.

DESERDADOS INDUSTRIAIS

Os números de 1999 já estavam bastante inflados, mas ainda se distanciavam de carnificina. A proporção de empreendimentos de comércio e serviços  em relação à população em 1990 era bem inferior aos dados de 1999. Pena que os dados não constam de nenhum fonte oficial.

Mas a realidade era mesmo diferente. Afinal, vivemos nos anos 1990 uma combinação trágica de desemprego industrial estratosférico – nada menos que 100 mil trabalhadores com carteira assinada no setor foram para o olho da rua – e criação de pequenos negócios comerciais e de serviços. Chamei o fenômeno de nordestinação. Nas grandes capitais do Nordeste o caudal de pequenos empreendimentos chamava e chama muito a atenção.

Pois a periferia do Grande ABC naqueles anos 1990 ganhava fluxo descontrolado de novos empreendimentos de sobrevivência, principalmente. Bares, manicures, oficinas mecânicas, pizzarias, tudo que você imaginar para atender ao público da vizinhança principalmente das ruas principais eram abertos por trabalhadores industriais desempregados.

Estou ressaltando aquele período porque aquele período é café pequeno diante do que aconteceu nas duas décadas e um bocadinho depois, até que se chegasse aos números de abril de 2025.

MAIS COMPETIÇÃO

Antes de chegar à revelação dos números de estabelecimentos de comércio e de serviços do fim do século até agora, não custa vasculhar qual era a proporção de empreendimentos para cada grupo de mil  moradores.

Peguem o estoque de 61.949 negócios e comparem com a população do Grande ABC, de então 2.323.565 moradores. Dá exatamente 26,66  negócios para cada grupo de mil moradores na temporada de 1999.

Agora vamos à ponta da tabela? Neste abril de 2025, sempre lembrando que os dados são da Consultoria IPC, empresa que mais entende de PIB de Consumo no Brasil, o Grande ABC passou a contar com 2.790.633 moradores e o total de negócios de comercio e de serviços passou para 324.535.

Essas são dados brutos, esterilizados de contextualização e transformações, festejados insistentemente não só pelo Poder Público, mas também pelos dirigentes do setor. Uma ignorância latente que se mistura com trambicagem interpretativa.

NOVOS CÁLCULOS

Façam de novo as contas e verifiquem que a proporção deste abril de 2025 empreendimentos de comércio e serviços por grupo de mil moradores é de116,29.  Um aumento de 336,20% na oferta de negócios para cada grupo de mil consumidores. A  concorrência aumentou  tudo isso no mercado consumidor do Grande ABC nesse período.

Esse resultado trata apenas de quantidade de negócios tendo por base o período ponta a ponta, e, como acentuei anteriormente, partiu de uma base já anabolizada nos anos 1990 com a avalanche da desindustrialização desempregadora e a consequente tentativa de ocupação com empreendedorismo próprio.

Como se observa, enquanto o mercado de consumo do Grande ABC cresceu em termos quantitativos, numéricos, 20,10% entre 1999 e 2025, passando de 2.323.565 milhões de habitantes para 2.790.333 milhões, a oferta de estabelecimentos de comércio e serviços saltou 336,20% para cada grupo de mil moradores.

Ou seja: a oferta de negócios saltou em termos reais mais que o triplo no período, enquanto os consumidores passaram por aumento de apenas 20,10%. Um descompasso que sob a ótica puramente matemática já é descalabro de desequilíbrios com efeitos deletérios. 

TUDO COMPROVADO

O que ao longo de décadas anteriores se tornou plataforma de mobilidade social, com pequenos e médios varejistas e prestadores de serviços engrossando a relação de famílias de classe rica e de classe média, acabou virando cadafalso de empreendedorismo de resistência em larga escala nos últimos 25 anos.

Perguntarão os leitores supostamente especialistas na matéria sobre eventual incoerência desta análise. Argumentariam que o gigantismo numérico dos setores de comércio e de serviços se dariam na esteira do crescimento econômico. E que também houve no período um acréscimo considerável de empregos gerados nos dois setores.

É uma pena que assim não seja. Todos os indicadores econômicos que medem a temperatura do Desenvolvimento Econômico da região nesse mesmo período são uma espada que corta a jugular de eventuais otimistas. E tudo isso está documentado, envelopado, carimbado e despachado em inúmeras análises deste jornalista. 

DERROTAS E DERROTAS

O PIB per capita desabou, a Classe Rica e a Classe Média Tradicional perderam participação no conjunto dos moradores, a Classe Média Precária aumentou de tamanho porque ganhou muitos moradores migrantes principalmente da periferia de São Paulo, os pobres e miseráveis só são menos numerosos por conta de bolsas famílias e outras programas sociais do governo federal e de outras esferas de poder. Tudo isso e muito mais à reboque da desindustrialização e da ausência persistente de um novo modelo de Desenvolvimento Econômico. 

O empreendedorismo comercial e de serviços do Grande ABC é de baixo valor agregado. Pagam-se salários muito aquém da média industrial.  Áreas nobres de consultorias especializadas, medicina,  entretenimento, hotelaria, shows,  são quase insignificantes nos produtos de comércio e de serviços.   

DEU NO DIÁRIO 

O que me levou a escrever novamente e com novos números sobre o entusiasmo autofágico do comércio e dos serviços na região foi a matéria da edição de ontem do Diário do Grande ABC sob o título “Número de bares e restaurantes cresce 28% no Grande ABC”. Acho que vale a pena a reprodução do material para os leitores sentirem que não estou sob efeitos alucinógenos. Vejam:

O número de estabelecimentos do setor de bares, restaurantes e hospedagem cadastrados na região saltou de 26.870 em 2023 para 34.583 em 2025, o que aponta alta de 28,7% no período. De acordo com o Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC), esse movimento está diretamente ligado ao ambiente favorável para investimentos, como público, localização estratégica, com estabelecimentos próximo a rodovias importantes, e tradição gastronômica das cidades. A entidade já havia registrado aumento de 17% em novos estabelecimentos em apenas um ano, ao passar de 23 mil empreendimentos em 2022 para 26.870 no ano seguinte. “Cada município apresenta características próprias, tem suas particularidades que atraem perfis diferentes de empresários. Nosso segmento é importante porque movimenta a economia local e amplia o turismo regional”, diz o presidente do Sehal, Beto Moreira.  

MAIS DIÁRIO 

De acordo com ele, entre os destaques recentes está   a nova unidade da churrascaria D’Brescia, inaugurada no final de novembro em São Bernardo. O estabelecimento, que fica no quilômetro 18 da Rodovia Anchieta, recebeu R$ 18 milhões de investimentos. Moreira também aponta que Santo André tem chamado atenção como polo gastronômico. Apenas neste ano, a cidade atraiu R$ 25 milhões e criou 173 empregos diretos e indiretos na área, com cinco novos empreendimentos. 

MAIS DIÁRIO 

A novidade mais recente é a inauguração da primeira unidade da Stuppendo Gelateria, do chef Edu Guedes, no Grande ABC. A nova loja, que abriu na semana passada, ganhou aporte de R$ 1,1 milhão e gerou 10 empregos diretos. Ela está localizada na Rua das Aroeiras, 498, no bairro Jardim, em Santo André. “Super importante termos chegado com a Stuppendo em Santo André. Já temos a Cervejaria Madalena na cidade e agora viemos com essa novidade. O público ganha muito, assim como os restaurantes e o comércio de modo geral”, considera o apresentador Edu Guedes, que criou a marca em 1996 com Leila Pega para levar ao público o conceito de gelato artesanal italiano.  

A franqueada Gilmara Cavinato escolheu Santo André para receber a oitava unidade  no Brasil. “Temos um carinho por sempre termos frequentado a loja da Stuppendo em São Paulo. Quando decidimos abrir a nossa, não tivemos dúvida em pensar em Santo André. Acreditamos que a cidade é muito acolhedora. Nosso diferencial é o fato do gelato ser produzido no nosso laboratório aqui mesmo na nossa unidade”, disse Gilmara. As opções oferecidas incluem itens como frutas frescas, açúcar orgânico, leite e água mineral, com versões diet, zero açúcar, zero lactose e zero glúten. 



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