Economia

OSASCO E VIZINHANÇA
GOLEIAM GRANDE ABC

DANIEL LIMA - 04/02/2026

Há tanta fartura regional  (inclusive de fake news de prefeituras, como se verá abaixo envolvendo Santo André) de pauta jornalística quando o balanço do mercado de trabalho é anunciado pelo Ministério do Trabalho e Emprego que fica até difícil definir prioridades. Pretendia escrever uma coisa hoje, depois de escrever outra coisa ontem, uma coisa ligada à outra coisa, mas mudei de ideia.

Iria escrever sobre o G-22, grupo dos 20 municípios mais importantes do Estado de São Paulo, e o balanço do mercado de trabalho. Mostraria que o Grande ABC foi mal das pernas mais uma vez, ano passado. A melhor colocação entre as 20 maiores cidades (Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra estão na lista apenas por conta de estudos da região) é de Mauá, na quinta posição. Santo André vem em seguida, na décima colocação. Vou deixar para amanhã. Se não for atropelado de novo, claro.

A mudança de ideia está conectada às duas coisas que são uma coisa e outra coisa, como expliquei. A pauta de hoje é chocante para quem não acompanha CapitalSocial. E mesmo para quem está antenado, sempre é difícil acreditar. Sofremos como região de sete municípios uma surra tremenda das sete cidades vizinhas que compõem o que chamo de Grande Oeste, que tem Osasco e Barueri como carros-chefes econômicos e o traçado do Rodoanel como revolução na realocação de investimentos, deixando o Grande  ABC a ver navios. 

PAINEIS DEMOLIDORES

Vamos diretamente aos números gerais, de resultado líquido do saldo de empregos,  diferença entre contratações e demissões. No ano passado, o Grande ABC somou nos sete municípios  saldo total de 16.545 empregos com carteira assinada. No mesmo ano passado, a Grande Oeste, de Osasco e Barueri, também de sete municípios, acumulou saldo líquido 35.621 empregos formais. Mais que o dobro.

Fico imaginando o que escrevi há algum tempo, quando sugeri a instalação de painéis em pontos de alta visibilidade, a instalação de placar do Empregômetro e Desempregômetro no Grande ABC. Agora, vou mais longe no sarcasmo: já imaginou se no mesmo painel houvesse uma disputa clara entre o Grande ABC e a Grande Osasco? A goleada impiedosa feriria os brios de muita gente irresponsável que faz do Grande ABC plataforma exclusivamente política.

Prometo aos leitores que vou vasculhar nos próximos dias o que for possível para esticar o tempo comparativo entre esses dois conglomerados urbanos da Região Metropolitana de São Paulo. Mas não tenho dúvida de uma coisa que é toda coisa: o Grande Oeste, que um dia chamei de Grande Osasco, registra sistematicamente mais vitalidade no mercado de trabalho do que o Grande ABC. 

FATOR RODOANEL

E tudo isso não se trata de passe de mágica. O emprego formal está fortemente relacionado à dinâmica do PIB, Produto Interno Bruto. Aliás, compõe o PIB. Temos mostrado ao longo dos anos que a Grande Oeste, além de criar, tomou muita riqueza do Grande ABC,  desde antes da inaugurado do Trecho Oeste e em seguida do Trecho Sul do Rodoanel. A diferença não poderia ser outra. E vai aumentar.

Ainda não disponho de estatísticas consolidadas que destrinchem a marcha da contagem de empregos formais de cada atividade econômica. A linha do tempo  coloca a Grande Oeste como reduto vinculado a um setor de Serviços de maior valor agregado do que o Grande ABC, e também uma certa estabilidade da área industrial. É certo que o  quadro é mesmo de fortalecimento da distância no quesito de vitalidade.

Não custa lembrar que o PIB da Grande Oeste supera o PIB do Grande ABC desde que o traçado do Rodoanel foi lançado, construído e consolidado.

O então governador do   Estado, Geraldo Alckmin, do alto do desconhecimento da Economia do Estado de São Paulo, chegou a declarar aos jornais submissos e consentidos que a inauguração do Trecho Sul do Rodoanel, em 2011, colocava o Grande ABC na condição de melhor esquina do Brasil. Uma barbaridade de ofensa à inteligência estratégica.

MELHOR ESQUINA

A melhor esquina do Brasil até prova em contrário é a Grande Oeste de Osasco e Barueri. Mas o eixo poderá ser profundamente alterado com o fechamento do circuito do Rodoanel Mário Covas. O Grande Norte, que tem Guarulhos e Mogi das Cruzes na linha de frente, já está ultrapassando o PIB do Grande ABC antes mesmo de festejar a inauguração do traçado final. Imaginem depois.

Dando uma pausa para um comercial em forma de reflexão crítica, talvez o maior drama do Grande ABC deste século, e que se acentua a cada nova temporada de perdas, é a negação da realidade em forma de escolha de bodes expiatórios ou de extravagantes declarações ufanistas. As chamadas lideranças da região -- que de lideranças não têm nada se o centro vital da questão for competitividade econômica -- procuram propagar falsidade que não corresponde a mudanças  há mais de 30 anos.

Que falsidade? Ora, execrar quem tem coragem e obrigação de apontar os descaminhos municipais e regionais. É uma forma covarde de tentarem encobrir o quanto são inúteis ou despreparados para organizarem a bagaça que se cristaliza em forma de empobrecimento econômico de desventuras sociais.

PROPAGANDISMO BARATO

O propagandismo barato e inconsequente permanece. Um exemplo está na pressa com que a Prefeitura de Santo André, ontem, enviou às redes sociais e a tudo o que é veículo de comunicação um release que dá conta da manutenção da política de enganação. O secretário Evandro Banzato, jovem sempre educado, ainda não se deu conta de que faz parte de uma engrenagem de engabelação na área de comunicação, herança de Paulinho Serra.

O comunicado distribuído ao distinto público consumidor de informação dá conta que Santo André ocupou a oitava posição no Estado na criação de empregos com carteira assinada. “Dados divulgados pela Fundação Seade do Governo do Estado de São Paulo, com base nas informações do Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que, dos 645 municípios paulistas, Santo André foi a cidade que liderou a criação de novas vagas de emprego com carteira assinada no Grande ABC ao longo de 2025 e configura como o oitavo Município paulista que mais gerou novas oportunidades de trabalho”.

A nota da Prefeitura de Santo André segue com informações típicas de meias-verdades, quando não de mentiras-inteiras: “Celebrando as 5.227 novas vagas, importante destacar que, nossa seriedade, dedicação e entusiasmo à frente da gestão pública vem na esteira de uma cidade que já ultrapassou 118.000 CNPJ ativos, tem um estoque acima de 228.000 trabalhadores com carteira assinada e conta uma força industrial que representa 24,9% de nosso PIB”.  

ESTOQUE IMPORTANTE

Vou me limitar a apenas um dos aspectos da mentira e também da meia-mentira da Prefeitura de Santo André num processo já longevo de ludibriar a boa-fé dos consumidores de informações. Longo processo que -- destacadamente na Administração de Paulinho Serra da Secretaria de Efeitos Especiais -- o que mais a gestão pública local promove é a autobajulação ao invés de enfrentar os percalços que começaram num passado bastante remoto.

A contagem de ativos de empregos com carteira assinada de Santo André é uma repetição teimosa, portanto, porque o que vou escrever em seguida, no sentido conceitual, há muito consta destas páginas.

A quantidade de empregos gerados não tem nada a ver, necessariamente, com a dinâmica econômica. Vou explicar com exemplos: duas cidades de tamanhos diferentes tendem a contar com mercado de trabalho também diferentes. O volume registrado ao final de uma temporada, ou de várias temporadas, não deve balizar conclusões sem  exame minucioso. O que parece verdade nem sempre é verdade.  E como veremos abaixo, o que é verdade passa a ser uma verdade relativa, porque há um abismo numérico entre os dois municípios.

Querem o exemplo prático de verdade relativa: quem gerou mais empregos formais no ano passado, a Capital do Estado ou Santo André? São Paulo contou com saldo líquido de 101.818 trabalhadores em todas as áreas, enquanto Santo André não passou de 5.183. A resposta simplista é que São Paulo gerou muito mais emprego. É aí que mora o perigo. Quando se toma o estoque de trabalhadores de 2024 e se compara com o estoque de trabalhadores de 2025, São Paulo registrou crescimento efetivo de 2,06%, enquanto Santo André chegou a 2,32%. Seria essa equação suficiente para sustentar a tese de que o estoque maior significa estoque melhor? Não acredito que seja, porque a grandeza da Capital abalroa a lógica dessa métrica.

MAUÁ MELHOR

Vamos fazer uma comparação doméstica muito mais apropriada e dentro dos rigores hierárquicos para demonstrar que Santo André perdeu para Mauá o título de maior geração de emprego no Grande ABC. Mauá registrou saldo líquido de 2.340 trabalhadores. Portanto, bem abaixo dos 5.183 de Santo André. Mas o estoque de Mauá de 2025, ante 2024,  foi superior ao de Santo André: 3,21% ante 2,32%. Essa é a conta certa. Qualquer outra é enganação. A distância econômica entre Santo André e Mauá é muito mais compatível com a teoria de que nem sempre mais é mais mesmo. E nem sempre menos é menos mesmo.

Para completar o mercado de trabalho como pauta de hoje, porque vamos voltar, tive o capricho de consultar a lista dos 645 municípios do Estado. Separei num grupo específico apenas os municípios que geraram mais de mil empregos líquidos no ano passado. Queria dar uma certa uniformidade comportamental tendo a quantidade como métrica. Esse recorte reduziria o risco de distorções provocados por sazonalidades. Querem saber o resultado?

Os resultados foram os seguintes: dos 46 municípios paulistas que individualmente acumularam mais de mil contratações líquidas em 2025,  nada menos que 30 estão acima do resultado de Santo André. Ou seja: o oitavo lugar alardeado pelo secretário Evandro Banzato com base na lista da Fundação Seade, uma lista correta mas imprecisa pela lógica de uniformização dos desiguais, o oitavo lugar não passa de  balela. 

Poderia ter estendido a análise levando em conta todos os municípios do Estado, não o filtro executado, mas aí fugiria da embocadura mais sensata. Um exemplo, entre muitos? Barrinha gerou saldo líquido de 605 empregos formais, oito vezes menos que Santo André, mas o estoque cresceu 13,77%, muito mais, portanto, que Santo André. Não seria justo que Santo André ficasse abaixo de Barrinha, como não ficou no filtro que preparei.  



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