Economia

METRÔ PODE REPETIR
DANOS DO RODOANEL

DANIEL LIMA - 22/01/2026

Autoridades públicas, representantes da livre-iniciativa e a sociedade em geral do Grande ABC deixaram o torpedo do Rodoanel ser disparado neste século e os danos se agigantaram. Agora que se anuncia o metrô, paralelamente ao mais modesto BRT, como se não bastasse o limitado Trólebus de décadas, o mínimo a  esperar seria uma força-tarefa de permanentes estudos e monitoramento.  

O Clube dos Prefeitos, que deveria reunir todas essas instâncias, segue apenas como animador patético de uma tentativa de regionalidade que não passa, como tenho repetido, de fraudes programáticas que contemplam novas cartadas de ilusionismo a cada manchete de papel.

A questão do metrô envolve o que provavelmente se torna a mais decisiva batalha do Grande ABC neste século de derrotas  seguidas.

A Geração Desintegrada que iniciou trajetória em 2020 e se estenderia até 2040, definirá a nomenclatura que reproduzirá a imagem do estágio a que chegaremos na geração seguinte. Não quero arriscar uma marca, depois de definir as marcas das últimas quatro gerações. Ainda tenho tempo de sobra, teoricamente, para guardar no bolso do colete da cautela a configuração que se seguirá à atual.

DEVAGAR COM O ANDOR

Levando-se em conta que uma quiromante  me garantiu há 30 anos que viveria até próximo à metade do século, tornando-me, portanto, quase centenário, e depois de passar pelo maior desafio até agora após aquele estampido de primeiro de fevereiro de 2021, acho que disponho de tempo suficiente para esperar o barco correr. Quase escrevo “barco afundar”. Deveria tê-lo feito. É o que de fato temos acompanhado nesse período de Geração Desintegrada, após a Geração Deserdada.

Nada me tira da cabeça que viveremos novos impactos internos dilacerantes quando o metrô de fato chegar no Grande ABC, mesmo que tangencialmente entre  Santo André e São Bernardo, como propõe o traçado.

Os ingênuos de plantão, quando não triunfalistas, festejam o anúncio da construção do metrô como se fosse uma conquista de campeonato, quando, diante do que se tem de experiência com o trecho sul do Rodoanel, e o que já se configura com essa nova obra, o que teremos será um novo salto no precipício de perdas. Basta o Clube dos Prefeitos continuar com a fanfarronice de tratar o epidérmico como orgânico.

CENTRO DE GRAVIDADE

Como não se prepara para tirar vantagens comparativas do metrô, repetindo portanto a omissão verificada com o Rodoanel, o Grande ABC tende a elevar a temperatura do quarto de despejo em que está instalado na Casa Grande da cidade de São Paulo. Ou alguém tem dúvidas de que o centro de gravidade da Região Metropolitana de São Paulo ganhará novos impulsos quando se liberarem os novos trilhos do metrô?

O Grande ABC será ainda mais borralheiresco, porque o metrô assegurará acessibilidade com rapidez. Somente  idiotas apressados sugeririam que o ramal de várias estações locais do metrô, quando conectados ao metrô da Capital, inverterá o fluxo de mão de direção de trabalhadores e consumidores que ao longo de décadas se deslocam à Capital, principalmente por contar com o que antigamente se chamava Estrada de Ferro Santos-Jundiaí – não bastasse a Anchieta que veio em seguida.

Não custa alertar que não estou sugerindo aqui que o metrô deva ser retirado da pauta regional e que devemos nos manter distantes das divisas da cidade de São Paulo ao rejeitar a obra. Nada disso. Isso é conclusão estúpida de gente mau-caráter que, à falta de argumentos, procura notoriedade nas redes sociais.

O que mais uma vez alerto é que o Grande ABC precisa de estudos, ações, iniciativas e definições para usufruir de potenciais vantagens de ficar mais próximo da Capital quando o ramal do metrô tratar disso como instrumental de acessibilidade. A missão é complexa, deve-se reconhecer.

ULTRAPASSAGEM GERAL

Exatamente por não realizar nada disso, e apesar dos alertas deste jornalista à ocasião, o trecho sudeste do Rodoanel virou um escoadouro de riquezas do Grande ABC, com o deslocamento de unidades industriais em direção à Grande Oeste, de Osasco e Barueri, entre as sete cidades daquela área metropolitana.

Os estudos que organizo frequentemente  sobre essa transfusão de riqueza não deixam margem à dúvida. E, como também já afirmei, o fechamento  do circuito do Rodoanel com o trecho Norte, em fase de conclusão, colocará Guarulhos, Mogi das Cruzes e outros nove municípios ainda mais vigorosos em competitividade econômica ante o Grande ABC.

Não custa lembrar que mesmo sem contar diretamente com um ramal do Rodoanel, pegando as rebarbas do trecho Oeste e do trecho Leste, Guarulhos, Mogi e as demais cidades daquela região estão prestes a superar o Grande ABC no PIB, juntando-se à Grande Oeste. Isso tudo em valores absolutos porque, em valores por habitante, a Grande Oeste, o Grande Norte e a Baixada Santista já ultrapassaram as sete cidades do Grande ABC.

COMPETIÇÃO DESIGUAL

Portanto, quem ainda publica que somos o terceiro ou quarto maior PIB do País, ou do PIB de Consumo do País, está na mesma situação do goleiro do Palmeiras depois dos quatro gols do Novorizontino.

Ainda vou escrever muito sobre a ameaça que o metrô exclusivamente como traçado de transporte público representa para a economia regional, embora possa, evidentemente, criar oportunidades de geração de emprego à População Economicamente Ativa do Grande ABC.

O problema todo é que a geração de emprego terá a Capital como destino. Vamos ter muito mais gente deixando a região a cada manhã e retornando no fim do dia para descansar. Esse movimento gera valor de renda e também valor de consumo aos moradores do Grande ABC, mas imporá mais restrições ao desenvolvimento econômico local por conta de novos fluxos de perdas de produção e, paradoxalmente, também de consumo.

É impossível competir com a Capital do Estado em condições mesmo que delicadíssimas de acessibilidade entre os dois endereços, como se observa na trombose que ganha formas de um trânsito infernal em períodos de maior intensidade, em horários específicos. O tamanho da Economia da cidade de São Paulo é mesmo de Cinderela quando comparado ao gataborralheirismo regional. E o metrô vai acentuar essa distância.

Embora São Paulo conte com apenas quatro vezes mais população que os sete municípios do Grande ABC, de arredondados três milhões ante 12 milhões de habitantes, alguns indicadores econômicos são esclarecedores para que não se construam ilusões.

CAPITAL DINÂMICA

O ISS (Imposto Sobre Serviços) do Grande  ABC, contando as cinco maiores cidades (Ribeirão  Pires e Rio Grande da Serra não passam de 2% do PIB da região), registra apenas 8,4% do total arrecadado pela Capital. É muito pouco.

Provavelmente,  10 em cada 10 leitores não tinham até agora qualquer ideia sobre essas dimensões apresentadas. Não somos praticamente nada perto da Capital num imposto que revela a temperatura interna captada pelos sensores e caixas das prefeituras. Contar com 25% da população da Capital mas com apenas 8,4% do ISS é fosso assustador.

A diferença revela entre outros pontos a diversidade de cardápio econômico da Capital. O poderio acumulado em áreas de entretenimento, cultura, tecnologia corporativa, hotelarias, consultorias em geral, sistema financeiro e tudo o mais  coloca o Grande ABC a nocaute.

Quem o leitor acha que atrairá a melhor mão de obra possível em todas essas áreas? Quem já as têm e as aperfeiçoa ou quem não passa de um mercado incipiente, de baixo valor agregado?

MERCADO IMOBILIÁRIO

Querem mais um fosso econômico entre a cinderelesca Capital e o gataborralheiresco Grande ABC? Vamos então para o IPTU? A arrecadação da Capital com o imposto que dá uma ideia sobre o tamanho do mercado imobiliário também está muito acima dos 25% da participação da população do Grande ABC quando contraposta à população de São Paulo. Contamos com apenas 10,15 %.

Nos tempos em que o Clube dos Construtores abusava dos interessados em adquirir imóveis na região, fabricavam-se números que colocavam o Grande ABC como participante efetivo de 30% do total de vendas de imóveis novos em relação à Capital. Uma mentira vendida tantas e tantas vezes que se naturalizou como referencial do suposto dinamismo regional. Cansamos de enfrentar os mentirosos de plantão.

Poderia avançar em outros indicadores, mas acho dispensável. A indústria da Capital gera muito mais Valor Adicionado que a soma dos municípios do Grande ABC, embora a participação relativa no PIB Geral seja bastante inferior. O que isso significa? Significa que perdemos feio na produção industrial quando os dados dos dois endereços são confrontados, mas, em seguida, na participação relativa do setor manufatureiro, a Capital é bastante inferior ao resultado do Grande ABC porque estamos longe dos números da Capital no ISS, mas  mesmo inferiorizada nos dados de Valor Adicionado, a Capital é muito superior em números absolutos.

Resumo da ópera: em qualquer métrica o Grande ABC sempre levará uma sova. Isso significaria perder ainda mais quando a logística de alta velocidade de transporte público proporcionada por um ramal do metrô unindo os dois endereços estiver disponível ao público.

Para ter um diagnóstico mais preciso sobre o que estaria reservado à Economia e à Sociedade do Grande ABC como um todo quando o metrô virar realidade, o mínimo que se poderia esperar é que o Clube dos Prefeitos entrasse em ação.

Precisaria,  para tanto,  contar com equipe de especialistas em competitividade também sob a ótica logística de transporte público. Se não o faz nem em algo mais emergencial, como é o caso do setor industrial, particularmente da indústria automotiva, o que esperar  dessa entidade de descuidados prefeitos bons de voto municipal e ruins de governo regional?



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