Economia

Escândalo da Cidade Pirelli exige
sim devassa do Ministério Público

DANIEL LIMA - 09/03/2010

A construção do Viaduto Cassaquera, inaugurado em meados de 2008, às portas das eleições municipais, é a cara mais desavergonhada do escândalo da Cidade Pirelli. Um escândalo de tamanho político e monetário ainda impossível de ser diagnosticado. Faltam peças importantes de um emaranhado documental de difícil acesso.


Até prova em contrário, não há o mais tênue contraponto de que foi com dinheiro público que se ergueu aquela obra que constava dos planos de administradores de Santo André desde os anos 1950.


O problema é que a Operação Urbana Pirelli, apresentada em forma de projeto de lei aprovado pelo Legislativo de Santo André em 1998, determinava que aquela multinacional e seus parceiros comerciais do megaprojeto urbanístico se responsabilizavam pela obra. O Cassaquera custaria hoje não menos que R$ 30 milhões.


Somente o Ministério Público poderá dar um jeito de colocar ordem nessa farra com recursos públicos, já que pairam sobre grupos políticos sérias desconfianças de que não estariam nada interessados em levar adiante qualquer tipo de investigação. O projeto Cidade Pirelli evoca constrangimento, porque é um ovo de serpente que causaria complicações multilaterais no âmbito de financiamento irregular de campanhas eleitorais e enriquecimento ilícito.


Há sérias desconfianças de que a maioria da imprensa vai se calar porque tanto petistas quanto petebistas — ou tanto lulistas quanto serristas — têm enorme influência nas diretrizes editoriais. Os escândalos que envolvem conjuntamente os dois partidos são descartados nas operações de guerra pelo domínio da opinião pública, sob o risco de autofagismo eleitoral.


Não conviria aos correligionários voluntários ou remunerados dos dois conglomerados partidários botar a mão nessa cumbuca em ano eleitoral. A ordem de engavetar qualquer iniciativa já teria sido dada tanto por homens ligados ao ex-prefeito João Avamileno quanto por assessores de Aidan Ravin. Faltou combinar com o Ministério Público, de olhos grudados na questão por conta de informações deste CapitalSocial.


Tomara que alguma iniciativa de representante menos dócil do Legislativo de Santo André se apresente, porque, convenhamos, ficaria muito incômoda a omissão deliberada sabendo-se, como se sabe, que esta publicação digital está diariamente na caixa postal dos parlamentares. Assim como está também nas caixas postais dos principais dirigentes públicos de Santo André. Inclusive da vice-prefeita Dinah Zeckcer que, em 2002, pronunciou-se como vereadora em defesa de informações sobre a Cidade Pirelli, que já fazia água. Não é possível que agora a um passo do poder máximo do Município, Dinah Zeckcer se mantenha equidistante do caso ou, mais que isso, integre o pelotão do abafa. Por isso, pronunciamento oficial demarcará seu território ético.


São tantas as nuances do escândalo da Cidade Pirelli que a melhor alternativa mesmo é a mão forte do Ministério Público. É preciso ter acesso à documentação completa. Há muitas interrogações importantes sobrepostas a algumas certezas estruturalmente sólidas.


Entre as certezas está o Viaduto Cassaquera, relacionado nas obras que a Pirelli e o consórcio de empresas que ocupariam aquela área de então 200 mil metros quadrados assegurariam como contrapartida à Operação Urbana que, em última instância, elevou às alturas o potencial de construção imobiliária.


O fracasso da Operação Urbana Pirelli, que determinou a dissolução da Cidade Pirelli, é uma outra questão, de ordem econômica ou macroeconômica, mas o ativo físico está ali, liberadíssimo para a especulação imobiliária, como anunciou na semana passada uma empresa paulistana que já esteve ligada societariamente à Pirelli. Na platéia e também no púlpito, com discurso ufanista, estava o prefeito Aidan Ravin.


Tenho a impressão que determinadas autoridades públicas acreditam piamente que o Grande ABC é formado por um bando de debilóides que não estão nem aí com o cheiro da brilhantina, tal o grau de abuso midiático ao se anunciar a desativação formal do projeto Cidade Pirelli e ao se aclamar nova proposta, de retaliamento dos terrenos beneficiados pela legislação sob a condicionalidade da efetivação daquele empreendimento.


Trocando em miúdos, o que se decidiu em termos práticos com a dissolução do projeto Cidade Pirelli é o rompimento dos termos contratuais que determinaram os índices urbanísticos que alavancaram o preço do metro quadrado. Sem o cumprimento de contrapartidas que incluíam o financiamento do Viaduto Cassaquera pela iniciativa privada, maximizaram-se os valores dos terrenos que, agora, estão em vias de reestruturação ocupacional sob as bênçãos da administração de Aidan Ravin.


Há outros vetores do projeto Cidade Pirelli que ainda serão abordados neste espaço. Esperamos que, enquanto isso, as providências legais sejam tomadas. Esperar que entidades de classe do Grande ABC e particularmente de Santo André se manifestem e se mobilizem é acreditar em Papai Noel. Estamos entregues às baratas da anorexia cidadã combinada com interesses particulares sob o guarda-chuva de representatividade empresarial, sindical, social e cultural.


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