Sociedade

Secretário de Mobilidade admite
reavaliar mudanças em Santo André

DANIEL LIMA - 28/01/2014

Assisti a breve entrevista do Secretário de Mobilidade Urbana de Santo André, Paulinho Serra, à TV do jornal Repórter Diário, e gostei. E sabem por que gostei? Porque Paulinho Serra não foi peremptório, inflexível, ao que eu chamarei de aventura de faixa  (e corredores) exclusiva de ônibus em Santo André, assunto do qual me ocupei ainda outro dia. O repórter Leandro Amaral nem precisou se esforçar para Paulinho Serra dizer com outras palavras o que resumo após os dois pontos que se seguem: se embananar o trânsito no Centro de Santo André e se isso significar dores de cabeça aos motorizados da classe média, principal reduto político do secretário, ex-tucano, haverá reviravolta na política de ocupação de ruas e avenidas da cidade.


 


Paulinho Serra não é bobo nem nada de lutar contra a corrente da improvisação que caracteriza a macromedida de favorecimento das classes mais populares de Santo André, em detrimento da classe média mais tradicional que frequenta o Centro e, por extensão, o entorno. Se houver mesmo a ameaça de chamuscamento de prestígio no estrato mais apetrechado em potencial de força de pressão da sociedade junto nos meios de comunicação e, principalmente, nas redes sociais, Paulinho Serra saltará de banda e entregará alguns anéis populares para salvar os dedos da viabilidade eleitoral no futuro.


 


Mão na cumbuca


 


Se tivesse me ouvido no cantinho do ouvido o secretário Paulinho Serra não teria metido a mão nessa cumbuca. A implantação de faixas e corredores exclusivos de ônibus numa Santo André sem a estrutura viária de São Paulo, onde o prefeito Fernando Haddad encontra sérias resistências, é um tiro que pode sair pela culatra. Aliás, o próprio Paulinho Serra deixou transparecer essa interpretação na entrevista ao Repórter Diário. Ele disse com todas as letras que se não houver resultados claramente compensadores em favor dos dois terços que se utilizam de transporte coletivo e, vejam só, que também os motorizados não sejam penalizados, reformulará as medidas tomadas.


 


As declarações do secretário Paulinho Serra correm em direção autocautelar. Não adianta os dois terços que se utilizam de ônibus beneficiarem-se com a introdução de corredores e faixas de transporte coletivo. Se o mesmo tanto de motorizados for prejudicado, ações à reestruturação das decisões serão imediatamente analisadas. Paulinho Serra não quer um desequilíbrio entre ganhos e perdas, mas no fundo está procurando a irrealidade de ganhos mútuos, entre populares e classe média. Essa equação é tão improvável.


 


Paulinho Serra sabe que basta a classe média de Santo André entender que está sendo sacaneada pela política de mobilidade urbana e tudo será reformulado. Paulinho Serra não quer passar à história de Santo André como um ex-candidato em potencial a prefeito que, num gesto tresloucado, meteu-se numa enrascada trânsito adentro e trânsito afora a ponto de entornar o caldo de aproximação com uma classe média que sempre o teve em boa conta.


 


Lição pedagógica


 


As declarações de Paulinho Serra à TV do Repórter Diário são uma espécie de lição pedagógica que a maioria dos prefeitos da região deveria aprender, porque ele não fugiu de nenhuma pergunta e, mais que isso, antecipou-se nas abordagens.


 


Disse entre outras coisas que o efetivo de servidores públicos preparados para a fiscalização do trânsito está aquém das necessidades, que muito terá de ser feito para colocar gente em quantidade e em qualidade para atuar para valer, e que isso vai levar tempo. Se a informação pode ensejar interpretação de que o secretário de mobilidade urbana caiu na armadilha de apressar os passos ao lançar um projeto por si só altamente vulnerável sem o devido respaldo logístico, por outro lado evoca também a humildade de admitir uma reviravolta na proposta já colocada em prática.


 


Por isso mesmo, informou o entrevistado do Repórter Diário, o projeto lançado em Santo André é experimento durante um janeiro tradicionalmente esvaziado pelas férias escolares e corporativas. Paulinho Serra considera que pelo menos 20% dos veículos de passeio de Santo André estão fora da cidade neste mês de férias e que, quando a vida retomar a normalidade, será mais fácil aferir até que ponto as faixas exclusivas e os corredores de ônibus têm vida longa.


 


Não quero ser pessimista, mas duvido que o secretário Paulinho Serra resista a mudanças que se farão necessárias. Em alguns dias de janeiro em que me meti Centro de Santo André adentro e afora, ou seja, em direção às casas bancárias e de retorno ao escritório, houve sinais de que há saturamento nas vias centrais e, mais que isso, repercussões negativas nas artérias de acesso ao Centro  -- áreas no entorno da zona do agrião.


 


O grande nó em Santo André, como aliás nessa metrópole ensandecida pelo excesso de veículos e pela complacência com que o mercado imobiliário ocupa os melhores pontos comerciais, extrapolando os limites construtivos sem contrapartidas mensuráveis, porque em muitos casos sorrateiramente corruptas, o grande nó, dizia, é que temos uma selva de pedra, não um mar de plástico. As ruas e as avenidas estão aí, em tamanhos incompatíveis com planos de alargamento artificial de ocupação por veículos. 


 


Sorte de Paulinho Serra e dos dirigentes públicos da região que o PIB não nos tem favorecido como em tantas outras áreas metropolitanas. Se crescêssemos para valer mesmo, estaríamos todos fritos, porque sofreríamos muito mais com a paralisia nas ruas.


 


Puxadinho logístico


 


O plano de mobilidade urbana que o prefeito Luiz Marinho ressuscitou no Clube dos Prefeitos , mas que depende de recursos do Estado e da União, é apenas um puxadinho logístico insuficiente para combater os focos de contaminação do tecido metropolitano, todos centralizados no salve-se-quem-puder e nas roubalheiras do mercado imobiliário impermeável ao conjunto da sociedade.


 


Sem atingir em cheio os interesses particulares dos donos das terras, dos projetos, das obras, da sonegação e das propinas do mercado imobiliário, qualquer iniciativa para dotar a metrópole de mobilidade urbana terá, quando tiver, resultado provisório.


 


O monstro alimentado pelos prevaricadores é muito mais  insaciável, persistente e manipulador que quaisquer outras forças sociais. E conta, para variar, com o aporte de interesses dos políticos de plantão, que só pensam nos próprios bolsos e nas próximas eleições. Necessariamente nessa ordem.


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