Sociedade

MP prepara denúncia contra máfia
imobiliária da gestão Aidan Ravin

DANIEL LIMA - 05/03/2014

Nenhuma publicação tem-se mantido tão renitentemente insatisfeita com o silêncio das investigações do escândalo imobiliário que abalou o Semasa durante a gestão do prefeito Aidan Ravin como CapitalSocial. Basta acessar o mecanismo de busca deste site para constatar quantas e quantas vezes nos referimos à apuração daquelas falcatruas. Agora finalmente, segundo manchete do Diário do Grande ABC de ontem, terça-feira (o mesmo Diário do Grande ABC que anunciou o escândalo há dois anos, mas havia muito tempo não se referia mais ao caso), o Ministério Público de Santo André prepara peça denunciatória.


 


Provas não faltam. Resta saber se os calibres grossos, os empresários que tomaram a Administração Aidan Ravin e que se fazem de mortos, porque lhes interessam dar a impressão de que foram apenas vítimas, serão nomeados e enquadrados nos rigores da lei.


 


Não é necessário ir muito longe para deixar de lado a bobagem de condicionar os crimes contra os cofres municipais de Santo André. Não são “supostos crimes”, como insiste em dar tratamento ao caso tanto o Diário do Grande ABC como outros veículos de comunicação. O promotor criminal Roberto Wider Filho deixou claro essa constatação. As provas e os testemunhos são contundentes. Não há, como em outros casos, dúvidas que inibem a identificação tácita dos malfeitores. Basta ouvir, entre outras fontes de informações, Calixto Antônio Júnior. Esse advogado, denunciante do esquema, mostra o fio da meada das malandragens que os fraudadores contumazes do mercado imobiliário e os delinquentes que a gestão Aidan Ravin colocou em postos-chave para arrecadação irregular de recursos financeiros perpetraram durante muito antes da chegada do homem escalado pelo então prefeito para acompanhar os processos naquela autarquia.


 


Grandes empreendimentos


 


A esta revista digital Calixto Antônio Júnior deixou evidenciado que bastaria investigar para valer os maiores empreendimentos imobiliários de Santo André naquele período para encontrar as digitais dos bandidos juramentados que seguem impunes, alegres e saltitantes. Alguns até se apresentam como filantropos.


 


O promotor criminal Roberto Wider Filho trabalha em condições desfavoráveis, quando não precárias. O MP na Província do Grande ABC reúne uma associação de fragilidade de infraestrutura e escassez de recursos humanos. Mas, bem ou mal, demorada ou não a investigação, eis que Roberto Wider surge no noticiário para dizer o que todo mundo havia muito esperava: em 60 dias no máximo vai apresentar denúncia formal à Justiça, porque já conta com provas suficientes para dizer quem é quem nessa história.


 


Sei que sei porque tenho fontes que sabem o que fazem que há pressões para que se proporcione certo acomodar às conclusões ministeriais, mas não haveria como contornar o incontornável porque Wider Filho está decidido a ir a fundo nas investigações. As declarações que formulou ao Diário do Grande ABC são emblemáticas de que poderá provocar estragos.


 


Não sei até que ponto as informações do advogado Calixto Antônio Júnior foram completamente devassadas, porque Roberto Wider o ouviu durante tempo suficiente para desbravar eventuais veredas que se apresentavam inóspitas. Se tornou a investigação mais abrangente, extrapolando a ação dos principais meliantes, terá encontrado muitos outros bandoleiros travestidos de empresários da construção civil, bem como de servidores públicos que não diferem nada do que se viu recentemente na Capital, nos escândalos do ISS e do IPTU.


 


Fosse o Ministério Público dotado de mais profissionais e mais estrutura, o escândalo do Semasa durante o período da gestão de Aidan Ravin poderia ser ampliado também no tempo, retrocedendo-se a outros mandatos, porque não faltam irregularidades e, mais que isso, quem sabe o aperfeiçoamento do know-how. Aliás, não é primazia de Santo André contar com esquemas dominados por delinquentes nos escaninhos da Administração Pública e no meio empresarial. Há metástase na maioria dos grandes municípios metropolitanos brasileiros. O mercado imobiliário é um dos principais financiadores de campanhas eleitorais e também de enriquecimentos ilícitos.


 


Capital emblemática


 


O recente caso denunciado na Capital, quando a máfia imobiliária e a máfia de fiscais deixaram um rombo estimado em mais de R$ 500 milhões (o que está muito aquém da realidade histórica dos fatos) só com o rebaixamento de valores do ISS (Imposto Sobre Serviços) é emblemático das relações espúrias entre mercadores imobiliários e gestores públicos.


 


Aliás, não é a toa que um dos fiscais envolvidos na Capital, o chefe deles, Ronilson Bezerra Rodrigues, participou ativamente durante algum tempo da Administração Aidan Ravin como secretário graduadíssimo e muito próximo do titular do Executivo. Não faltam informações de que ele, o chefe dos fiscais paulistanos, aperfeiçoou o modelo de roubalheira que Santo André já aplicava no mercado imobiliário com metodologia pouco sofisticada, típica de Província. 


 


Acreditar que o Clube dos Construtores do Grande ABC venha a engrossar as fileiras de quem luta por um mercado imobiliário menos corrupto só consta da imaginação dos ingênuos. Calixto Antônio Júnior declarou com todas as letras (não se sabe se também ao Ministério Público) estar o presidente daquela entidade, Milton Bigucci, enroladíssimo na aprovação denunciada como irregular daquelas monstruosas torres de apartamentos ao lado do Shopping ABC.


 


Está aí à disposição do promotor criminal Roberto Wider Filho (se já não o fez) uma ótima oportunidade, entre tantas, para individualizar exemplarmente um caso de desvirtuamento absoluto do uso e ocupação do solo dentro do próprio escândalo do Semasa. Até porque, Milton Bigucci já deixou tantas pegadas e provas que não há razão alguma para se duvidar de Calixto Antônio Júnior.


 


Ou os leitores desconhecem que nos escândalos do ISS e também do IPTU na Capital empreendimentos de Milton Bigucci constam das relações de irregularidades? Há quem relacione o desembarque de Ronilson Bezerra às relações entre Milton Bigucci e o ex-prefeito Gilberto Kassab, supostamente o gestor que teria proporcionado o gigantismo da máfia paulistana. Kassab, como Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo e fraudador das expectativas de seriedade na gestão pública ao esconder sob o tapete da omissão a apuração do caso do terreno ilicitamente arrematado por Milton Bigucci, denunciado por este jornalista, é um dos prefaciadores do que o empresário da construção chama de livro, lançado há dois anos.


 


Com o conhecimento que detenho do mercado imobiliário da região, resultado de aprofundamento de informações motivado pela intolerância e agressividade de Milton Bigucci contra o jornalismo independente, asseguro aos leitores que a vaca de muitos nomes supostamente respeitáveis da sociedade de Santo André vai para o brejo se a apuração do Ministério Público for além dos nomes dos gestores públicos inicialmente veiculados pela mídia. Os agentes corruptores continuam a atuar, a aparecer em colunas sociais, a distribuir brinquedos e roupas a criancinhas e a se proclamarem sensíveis aos pobres e miseráveis.


 


O promotor criminal Roberto Wider pode entrar para a história da Província como um agente da lei que iniciou para valer uma reviravolta que já se faz tardia na estrutura corroída que sustenta uma dupla e insidiosa enfermidade regional: os políticos corruptos e seus apaniguados técnicos igualmente desnaturados e os agentes econômicos de uma atividade marcada pela insensibilidade aos danos sociais que inflige ao produzir fábricas e fábricas de rebaixamento da qualidade de vida urbana.


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