A mídia em geral deu um jeito de esconder ou de minimizar que a casa paulistana de empreendedores imobiliários, mercadores imobiliários e predadores imobiliários quase foi invadida por manifestantes ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) na última quarta-feira. O Secovi, sindicato da construção, é tudo isso junto: reúne empreendedores, mercadores e predadores imobiliários. O sufoco só foi aliviado por forças de segurança. Ainda bem. Mas o bicho pode pegar quando os Sem-Teto tiverem mais informações sobre a atuação do Secovi e das entidades assemelhadas. Por isso os empreendedores do setor, gente séria, estão preocupados. Eles podem pagar o pato.
A reação dos Sem-Teto contra o Secovi se deu devido a demoradíssima e complicadíssima aprovação do Plano Diretor de São Paulo, que continua a ser um jogo de interesses a beneficiar os bons da boca da construção civil, embora tenha eficiente retaguarda de marketing da Administração Fernando Haddad em parecer mais social do que de fato é. Os interesses cruzados ditam as regras jogo. Os legisladores paulistanos refestelam-se com isso. Eles têm cacife forte.
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto acredita que o Secovi está por trás de muitas manobras protelatórias que visam aumentar o grau de especulação imobiliária. O passivo institucional do Secovi é elevado. O passado remoto e o passado recente não dão à entidade sequer o direito de requisitar o título de integrante da Segunda Divisão de moralidade no relacionamento com os poderes públicos. No passado, o Secovi escondia-se atrás de uma entidade fajuta flagrada pelo Ministério Público por financiar campanhas eleitorais de candidatos a vereador e a prefeito. No quase presente, a máfia dos fiscais e dos mercadores imobiliários reúne grande número de frequentadores do Secovi. Inclusive dirigentes. Caso explícito de Milton Bigucci, do Conselho Consultivo daquela entidade e há sete Copas do Mundo presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC.
Secovi sem lastro
O presidente do Secovi, Cláudio Bernardes, não tem o que chamaria de legitimidade ética para dizer o que disse à Folha de S. Paulo, numa discreta reportagem sobre a tentativa de invasão daquele sindicato -- agora os Sem-Teto seguem a invadir áreas, inclusive no Morumbi, além de Itaquera já ocupada antes da Copa do Mundo.
Disse Cláudio Bernardes: “Todas as nossas sugestões ao Plano Diretor foram públicas e transparentes. Nós procuramos ajudar a cidade em 68 anos de história, a produzir habitações para toda a população, inclusive as moradias de interesse social” – disse o presidente do Secovi sem sequer ficar ruborizado.
A capital dos paulistas é o caos que todos reconhecem entre outros motivos porque o setor imobiliário é um dos agentes mais perniciosos à qualidade de vida. O Secovi jamais contou com uma diretoria preocupada para valer com o hoje, quanto mais com o amanhã. O custo econômico e social da baixa mobilidade urbana é o resumo de uma ópera bufa. Responsabilizar unicamente as fragilidades de infraestrutura pública e os veículos de passeio pelo inferno paulistano, eximindo a gulodice imobiliária, é acreditar que um time de futebol que perde sem parar deve trocar apenas o goleiro.
Protegido pela mídia, a quem abastece com férteis nacos de publicidade, além de liderar com ampla margem o mercado de votos legais e clandestinos, cujos resultados são a perpetuação de vantagens espúrias em conluio com a classe política, o Secovi foge de algumas verdades e por isso mesmo deve rezar para que as lideranças dos Sem-Teto continuem a desconhecer as múltiplas engrenagens que movem esse jogo de cartas marcadas.
Quando descobrirem...
Por enquanto os Sem-Teto acreditam apenas que o Secovi produz especulação imobiliária. Quando se descobrir que também é uma indústria de milionários beneficiados por enxertos legislativos, a situação tenderá a piorar.
Por exemplo: 5,3 milhões de metros quadrados em forma de outorga onerosa (na verdade, outorga generosa) foram construídos na Capital nos últimos 10 anos e apenas R$ 1,7 bilhão foi legalmente direcionado ao Fundo Municipal de Habitação com o propósito de contemplar habitações sociais, regularização fundiária e também operações urbanas consorciadas.
Essas informações foram produzidas originalmente pelo Estadão em janeiro deste ano. Os dados foram metabolizados neste espaço de forma didática. Invadimos a área de detalhismos omitidos. Por exemplo: o que foi devolvido aos cofres públicos em forma de operação onerosa (instrumento que permite adicional de metros quadrados construídos numa área, desde que recursos financeiros sejam direcionados a ações públicas) é uma ninharia. Estimativa conservadora dos valores financeiros adicionais obtidos pelas construtoras e incorporadoras atingiu R$ 42,400 bilhões no mesmo período. Ou seja: as outorgas onerosas proporcionaram ao setor imobiliário uma valorização bruta dos espaços complementares liberados pela Prefeitura de 2.494%. Para ser mais didático ainda: construtoras e incorporadoras destinaram ao Poder Público apenas 4% do montante geral arrecadado adicionalmente com a venda do equivalente a mais de 60 mil apartamentos de oitenta metros quadrados cada. O melhor negócio do mundo, como se vê. O resultado das operações onerosas é mais perdas econômicas à sociedade com a quebra da mobilidade urbana.
Escândalos compulsórios
Num texto acessível no link abaixo, explico em detalhes como a outorga onerosa é o negócio dos sonhos de qualquer empresário. Os escândalos imobiliários tanto na Capital quanto na Província do Grande ABC não são obra do acaso, como se observa. Outorga onerosa é uma caixa-preta na Província, sobre a qual ninguém se manifesta. Os balanços pertencem à confraria dos inatingíveis.
São as migalhas repassadas à Prefeitura de São Paulo que instrumentalizam o pensamento defensivista do presidente do Secovi, dirigente que, ao assumir o cargo pela primeira vez em 2012, expôs um plano de ações que fez muita gente acreditar, inclusive este jornalista, de que se tratava de um enviado de Deus para colocar ordem e progresso com humanismo social na Capital. Tudo não passou de proselitismo. Secovi e seus filhotes, como o Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC (Acigabc) formam uma rede de interesses exclusivamente corporativos que visa maximizar a rentabilidade dos negócios sem olhar para a sociedade como algo feito de carne e osso, de sentimentos e de valores humanitários.
Fossem os Sem-Teto mais preparados e conhecessem os meandros da administração pública, o bicho teria pegado muito mais feio naquela manifestação. Há uma dicotomia estrondosamente vergonhosa a diferenciar os incluídos e os excluídos metropolitanos ante a omissão tão despudorada quanto interesseira da classe política e dos servidores públicos enfeitiçados pelo poder de fogo dos mercadores imobiliários e dos predadores imobiliários.
Está na hora de os empreendedores imobiliários começarem a ocupar espaços. O modo secoviano de dirigir uma instituição com funda inserção na sociedade é tão nocivo quanto os desatinos da classe política. Aliás, nem poderia ser diferente, porque são almas gêmeas que se encontram permanentemente antes, durante e depois de cada novo mandato popular. O resto é pura encenação. Uma encenação, a bem da verdade, como é o caso da administração petista da Capital, cada vez mais sofisticada. Falta combinar com os Sem-Teto.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS