O que o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão apresentou ontem à noite foi uma versão eletrônica da Entrevista Indesejada que criamos nesta revista digital. A diferença conceitual, já que outras diferenças são dispensáveis citar, é que na Província do Grande ABC os entrevistados fogem da raia. Aqui só se permite Entrevista Desejada.
Na Rede Globo os entrevistados são submetidos à sessão de transparência. São apertados para valer em horário nobre. Na Globo, o trabalho jornalístico é reconhecido. Aqui, nesta Província, os entrevistados dizem que Entrevista Indesejada é Entrevista Indelicada.
A bateria de perguntas principalmente feitas pelo apresentador William Bonner foi bastante incômoda ao presidenciável tucano Aécio Neves. Perguntou-se do mensalão tucano ao aeroporto construído pelo então governador de Minas Gerais e que teria favorecido familiares. Não se deu folga ao entrevistado, principalmente quando Aécio Neves fugia da objetividade. O candidato tucano não demonstrou nervosismo nem dúvidas. Foi firme, convicto. Nada melhor que um bom treinamento, a chamada média-training.
Da água pro vinho
Quando escrevi ainda outro dia que o jornalista Sérgio Vieira, diretor de Redação do Diário do Grande ABC, fez uma entrevista água com açúcar com o prefeito Luiz Marinho, em 2012, durante a campanha eleitoral que levou o petista à reeleição, houve quem se manifestasse contrariado.
A entrevista foi ressuscitada semana passada pelo Diário do Grande ABC para provar que Luiz Martinho tem discurso oblíquo. Naquela oportunidade o prefeito candidato à reeleição elogiou o instituto de pesquisas do Diário do Grande ABC, cujos resultados lhe eram favoráveis. Agora, Marinho disse desconhecer a empresa do conglomerado Diário do Grande ABC. A avaliação do eleitorado não lhe foi satisfatória.
A melhor resposta àqueles que se incomodaram com o comentário deste jornalista é que voltem aos arquivos da TV do Diário do Grande ABC na Internet e comparem o desempenho de entrevistado e entrevistador com o corredor polonês pelo qual passou Aécio Neves na bancada de ontem à noite do Jornal Nacional.
Luiz Marinho participou de uma sessão de maquiagem. Aécio dirigiu-se a uma luta de boxe para valer, sem marmelada.
A série Entrevista Indesejada deste CapitalSocial é muito mais cômoda. Os protagonistas respondem longe de qualquer pressão de tempo exíguo como os 15 minutos reservados a Aécio Neves ontem à noite. Podem se manifestar com om suporte de assessores. Podem contar com documentos que contraponham questionamentos. Dispõem, portanto, de condições invejáveis ante a bateria de perguntas.
Ilusionismo puro
Então, perguntariam os leitores, por que razão as Entrevistas Indesejadas de CapitalSocial não encontram respostas? Simples, muito simples: os entrevistados em potencial sabem que não vão escapar às questões constrangedoras. A Província do Grande ABC é uma fábrica de malandragens que deixam rastros tanto quanto a certeza de impunidade. Aqui se joga um jogo estranho de podres poderes.
O preço que se paga às Entrevistas Desejadas na Província do Grande ABC quando há envolvimento da classe política é o preço da descaracterização da atividade jornalística como extensão do desejo crítico da sociedade, um desejo delegado em nome de uma democracia informativa que só existe na cabeça dos ingênuos.
O jogo de cartas marcadas de entrevistas de araque na Província do Grande ABC é uma extensão dos acordos diplomáticos que tornam entrevistadores e entrevistados patéticos ilusionistas que se acham espertos.
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13/11/2024 Diário: Plano Real que durou nove meses (33)