Imprensa

BARCAÇA DA CATEQUESE E O
GATABORRALHEIRISMO (19)

DANIEL LIMA - 06/02/2026

A pergunta que faço ao leitor, leigo ou com amplo conhecimento, é a mesma que faço a qualquer jornalista: se você acordar de manhã e der de cara, olhos sonolentos, com a manchetíssima do Diário do Grand ABC anunciando que São Bernardo abrigaria um aeroporto de gigantescas dimensões, qual seria a reação?  Comemoração, claro. Afinal, aeroporto grande é sinalizador de fortalecimento da cadeia de logística que, por sua vez, atrai investimentos produtivos.

Agora, vejam só que situação: o aeroporto, que passei a chamar de Aeroportozão, estava previsto para ocupar a delicadíssima área dos mananciais de São Bernardo. Entendeu? Ora, ora, qualquer pessoa minimamente aparelhada de juízo, ficaria de olhos esbugalhados. Mais tarde, acabei descobrindo que o Aeroportozão ocuparia 12 quilômetros quadrados de área. Quase uma São Caetano. Insanidade pura.

Fui adiante. E não parei mais, desde a primeira análise, em dezembro de 2011, até o assunto virar pó. E por incrível que possa parecer, demorou bastante para sair da incubadora de anedotas históricas do Grande ABC e ganhar vitaliciedade memorial como uma das maiores barbaridades oficiais detodos os tempos. Uma São Caetano em forma de aeroporto nos mananciais de São Bernardo não é coisa que se despreze.

O Diário do Grande ABC sempre descuidado em questões que fogem do cotidiano previsível, embarcou nessa canoa furada. Defendeu uma causa indefensável. Não seria a primeira nem a última vez.

AEROPORTOZÃO

Este é um dos muitos casos que revelam uma das facetas do Diário do Grande ABC. Uma faceta que reduz a importância da publicação desbravadora desse território e por isso mesmo muito importante à cultura regional em todas as direções possíveis como testemunho do tamanho da empreitada.

O caso do Aeroportozão de São Bernardo é emblemático de uma das características do Diário do Grande ABC gataborralheiresco. O Complexo de Gata Borralheira é uma cilada sociológica que abate a todos na região. A vizinhança com a Capital exige ações locais. E sempre que pretensos heróis se apresentam para negar o inegável, ou seja, o gataborralheirismo, só pode dar naquilo que popularmente se resume a cinco letras fétidas.

Em tempo: minhas relações profissionais com o governo municipal de Luiz Marinho – por conta também do que virá na sequência -- não foi o que poderia ser chamado de agradáveis, mas nada se encaminhou  que não pudesse ser respeitosa dentro dos limites naturais de jornalista independente e um político que ocupou diferentes cargos locais e nacionais.

Houve situações, diversamente do que os leitores verão logo abaixo, em que saí em defesa de Luiz Marinho, notadamente nos embates com o Diário do Grande ABC, de tipologia editorial antagônica a que exercitei naquelas contendas.

AEROPORTOZINHO 

Para dar a dimensão e a profundidade da farra do boi do Aeroportozão em São Bernardo, nada melhor que matar a cobra da verdade e mostrar o pau da consistência argumentativa. Em 21 de dezembro de 2011 escrevi que tanto a seriedade da Administração Luiz Marinho como a tradição, pelo menos a tradição, do Diário do Grande ABC, exigiam que tanto um quanto outro se manifestassem sem mistificações sobre o anunciado aeroporto em São Bernardo. “Um aeroporto que de fato não é outra coisa senão um aeroportozinho”. -- escrevi.

E fui adiante: “E mesmo um aeroportozinho muito difícil de ganhar forma, porque, não bastassem questões econômico-financeiras, a área escolhida, de mananciais, é contraproducente a tamanho impacto ambiental”.

O fato, escrevi, é que o Diário do Grande ABC se fiou numa fonte da Prefeitura de São Bernardo para transformar em manchete principal de primeira página, em 15 de outubro de 2011, uma informação disparatada: a administração petista estava preparando um projeto que se rivalizaria com Caieiras e Mogi das Cruzes como alternativa à construção do terceiro aeroporto internacional metropolitano na Grande São Paulo. “Está aí o que dá a pressão de repassar informações sem mecanismos de controle. Nada contra repórteres abelhudos, até mesmo exagerados no ímpeto, porque sem isso geralmente não se tem grandes matérias. Mas onde estava a chefia, geralmente mais experiente, para filtrar as informações? Principalmente porque aeroporto no Grande ABC é assunto tão antigo quanto a neblina que cobre os mananciais, única área supostamente disponíveis para tal empreendimento” – comentei naquela análise.

MANCHETE PECAMINOSA

E para não dizerem que estava falando de espinhos fantasmagórico, reproduzi trechos da matéria do Diário do Grande ABC daquele 15 de outubro. Leiam:

 A Prefeitura de São Bernardo, chefiada por Luiz Marinho (PT), planeja entrar na briga com o município de Caieiras para receber o terceiro aeroporto da Região Metropolitana. Mogi das Cruzes corre por fora na briga. O projeto está sendo desenvolvido e guardado a sete chaves pelo secretariado do Paço, inclusive com perspectiva de áreas com potencial para receber o empreendimento. Em reuniões fechadas para formulação da peça orçamentária de 2012, Marinho chegou a tocar no assunto com o primeiro escalão e conselheiros do Orçamento Participativo e disse que São Bernardo quer acolher o terminal aéreo. As áreas preferidas são próximas ao Trecho Sul do Rodoanel, mas a União poderia ser fundamental para viabilizar o projeto, com capacidade de atrair investidores privados para o empreendimento. O secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Jefferson José da Conceição, deu mostras de que o plano não está em estágio tão primário na Administração, tanto que afiançou que há um projeto executivo finalizado. Esse documento é responsável por demarcar o terreno do aeroporto, delinear estratégias de mobilidade urbana e até a estipular capacidade de funcionamento. “Estamos empenhados. O prefeito lidera essa questão do aeroporto, mas não posso dar detalhes. É uma discussão série e não é ideia, é projeto executivo”  -- escreveu o Diário do Grande ABC.

CONFIANÇA DEMAIS  

O fato é que o jornalista do Diário do Grande ABC caiu no conto da carochinha porque acreditou demais no secretário da Prefeitura de São Bernardo. Fixou-se no entusiasmo do funcionário público. Deixou de pesquisar, um dos quesitos básicos do bom jornalismo. Foi o que fizemos quando soubemos do assunto e nos lançamos a publicar textos nesta revista digital”—escrevi em 2011.

E segui a linha crítica: “Aliás, antes mesmo disso, por conta de um pronunciamento espetaculoso de Valter Moura, ao assumir alguns meses antes a presidência da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, interviemos para colocar ordem no triunfalismo do dirigente. À falta de planejamento minimamente factível para a economia da região, Valter Moura meteu-se numa seara totalmente desconhecida. Entretanto, para quem procura 15 linhas de fama, atingiu o objetivo, já que ganhou manchetes de jornais da região ao propor aeroporto, como outros o fizeram em passado remoto. Quando, mais tarde, surgiu a notícia de aeroporto em São Bernardo, Valter Moura não perdeu tempo: correu para escrever um artigo de apoio a Luiz Marinho. Uma tentativa de aliviar a barra do relacionamento nada satisfatório entre o dirigente público e o também e vitalício presidente da Associação Comercial de São Bernardo” -- escrevi.

Tudo ficou mais claro na semana seguinte de 15 de outubro, quando o prefeito Luiz Marinho acabou por recuar e dar indicativos de algo que não teria nada a ver com a disputa de grandes investidores mantém para construir a obra em Caieiras. O que São Bernardo queria de verdade, seria um campo de pouso para pequenos aviões de executivos, com demandas comerciais de carga e descarga de pequeno porte também.

Mas a história não acaba. Mesmo com informações escassas, mas esclarecedoras prestadas por Luiz Marinho durante o evento de aniversário do Clube dos Prefeitos, tanto o Diário do Grande ABC como os demais jornais da região mantiveram o tamanho do negócio submerso à impressão anterior de que seria um grande investimento. Nadaram, portanto, de braçadas contra os fatos.

REPERCUSSÃO NA SEQUÊNCIA

O Diário do Grande ABC, responsável pela bola furada, teve o desplante de, na edição da terça-feira seguinte à manchete estrambólica de 15 de outubro, repercutir declarações do prefeito Luiz Marinho e gargantear que dera com exclusividade a informação. “O mínimo que deveria proceder para ter relação honesta com os leitores seria esclarecer ao distinto público que em vez de uma autoestrada poderemos ter, se tivermos, uma estrada vicinal”—registrei naquele texto de dezembro de 2011.

E continuei a observar a questão: “Embora aeroportozinho, bastante inviável financeiramente e também nos aspectos ambientais, a obra pretendida por Luiz Marinho não pode ser catalogada de patética. Dependendo do espaço físico que exigiria para sair do papel, caso contorne todos os obstáculos que saltam à vista de qualquer cidadão minimamente bem-informado, o aeroportozinho de São Bernardo seria bem-vindo como ferramenta logística suplementar. Aliás, desde o princípio, optasse a administração de São Bernardo por informação qualificada, esse deveria ser o tom empregado no suprimento à Imprensa. A cronologia dos fatos e das especulações coloca o temário numa situação diversa da que seria possível”. -- escrevi.

E expliquei: “fosse o aeroportozinho tratado como aeroportozinho desde o princípio, não como Aeroportozão como se manipulou, a iniciativa teria obtido grau muito maior de receptividade e de credibilidade. E mostraria saudável inquietação do prefeito Luiz Marinho em lidar com um dos nós mais complexos da economia regional, que é o paradoxo de contar com a serpentina do trecho sul do Rodoanel sem, entretanto, ter conquistado com a obra a penetrabilidade logística econômica desejada”. – reforcei.

E O MEIO AMBIENTE?

Precavido quanto a manipulações interpretativas, esclareci: “O transporte aéreo, mesmo tendo como ponto de inflexão um aeroportozinho, e desde que viabilizado sem cometer a loucura de fragilizar ainda mais o meio ambiente regional, seria muito bem-vindo. Não custa nada o prefeito Luiz Marinho corrigir a rota de desinformação ou de excessivo entusiasmo de seu secretário e, por tabela, dar uma lição de transparência e responsabilidade informativa ao Diário do Grande ABC”   -- escrevi em 20 de dezembro  de 2011.

De forma direta e indireta, o Aeroportozão de São Bernardo ocupou 91 textos de CapitalSocial desde que virou manchetíssima de primeira página do Diário do Grande ABC em outubro de 2011.

Em 17 de junho de 2014, ou seja, praticamente três anos depois,  escrevi que o prefeito Luiz Marinho perdera a compostura verbal numa entrevista ao jornal Repórter Diário para ofender este jornalista e todos aqueles que acreditam que não passam de lorota a proposta de construir um aeroporto internacional em São Bernardo. “Marinho foi contraditório na entrevista ao jornalista Leandro Amaral. Falou, falou, mas manteve a obscuridade que cercava a ideia de plantar sobre a vegetação, as águas e a riqueza animal dos mananciais de São Bernardo um empreendimento privado que, para ser o que o prefeito pretende e anuncia que seja, deverá ocupar área semelhante a do território de São Caetano, ou seja, 12 milhões de metros quadrados” – enfatizei no texto.

Sob o título “Marinho projeta aeroporto em São Bernardo nos moldes de Cumbica”, o jornal Repórter Diário, em versão digital, destacava naquela data de 2014 uma entrevista com o prefeito.

MARINHO ATACA

Luiz Marinho disse ao Repórter Diário que contava com o projeto executivo do aeroporto projetado para São Bernardo. “A princípio, o espaço será para o transporte de cargas – uma espécie de aeroporto industrial – para aproveitar a logística tendo em vista a proximidade do Município com o Porto de Santos e as ferrovias” – escreveu o Repórter Diário. Aí, na sequência, veio o destempero:

“Muita gente que não acredita, aguarde. Não é um “aeroportozinho” como alguns imbecis falam. Será um Aeroportozão, o próximo aeroporto metropolitano. Não é um aeroporto de brincadeira, ironizou Luiz Marinho diante das críticas que alguns fizeram ao projeto. O prefeito disse que os moldes da construção serão semelhantes ao Aeroporto Governador André Franco Montoro, conhecido como Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, escreveu o jornalista Leandro Amaral”.

Vesti a carapuça porque a carapuça foi encomendada mesmo para mim: “As declarações de Luiz Marinho são endereçadas a mim. Sou um imbecil juramentado na opinião do prefeito da maior cidade da região”.  

O complemento da entrevista do Repórter Diário com Luiz Marinho mostrou o quanto o prefeito de São Bernardo estava abalado com as críticas.  “O governo brasileiro pode determinar que seja transformado em aeroporto de passageiros. Inicialmente é para suprir uma dificuldade logística do Estado de São Paulo e do Brasil”, observou Marinho.

MAIS ESCLARECIMENTO

Pouco tempo depois, em 17 de setembro de 2014,  escrevi para CapitalSocial que o prefeito Luiz Marinho foi à Brasília para pagar a penitência de uma bobagem que a mídia regional industrializou irrefletidamente: entregou o projeto do Aeroportozinho que pretende ver construído em São Bernardo, na área dos mananciais. O anunciado Aeroportozão foi para o beleleu. “Três anos atrás, em outubro de 2011, Marinho mandou assessores alimentarem a mídia com a informação de que São Bernardo teria um Aeroportozão, desses bens grandões, uma alternativa a Congonhas e a Cumbica. Até recentemente Luiz Marinho insistia na bobagem do Aeroportozão com ares de todo-poderoso-- escrevi. 

No mesmo texto, fiz uma pergunta central: “Por que Luiz Marinho se empenha tanto por uma obra despudoramente prejudicial à qualidade ambiental em São Bernardo? Quem são os parceiros do negócio? Que tem a ver Marinho com isso para tanta disposição seletiva? E prossegui: “ Os jornais impressos e virtuais da região escrevem hoje e escreveram ontem sobre a viagem de Luiz Marinho a Brasília. O jornal Repórter Diário lembrou bem que, “depois de ver o ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, revelar que desconhecia o projeto de construção de um aeroporto em São Bernardo, o prefeito Luiz Marinho esteve nesta terça-feira em Brasília para apresentar a iniciativa”. 

Segundo a reportagem do Repórter Diário,  Luiz Marinho revelou que o projeto trataria de um aeroporto de cargas que iria atender à demanda do Porto de Santos e até o Pré-Sal. Disse mais, segundo o Repórter Diário: “O terreno foi comprado na área de 10 milhões de metros quadrados, sendo um milhão de área construída. O local indicado é próximo ao Rodoanel entre São Bernardo e Cubatão, próxima à Via Anchieta, a 22 quilômetros do marco zero de São Paulo, 38 quilômetros do porto de Santos e seis quilômetros do Rodoanel”. 

Escrevi naquela data: “O que  assusta na reportagem de Leandro Amaral, do Repórter Diário, é que o projeto de Aeroportozinho em São Bernardo já tem parecer ambiental, segundo a assessoria do prefeito. Que parecer ambiental seria esse se os mananciais são mananciais e como mananciais dispensam explicação sobre os cuidados ocupacionais que exigem? Sem contar que, além disso, até recentemente o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DCEA) declarou que não existiria possibilidades de construção de um terceiro aeroporto internacional na Região Metropolitana de São Paulo por conta do tráfego aéreo. Está certo que o Aeroportozão proposto inicialmente foi para a cucuia, mas um Aeroportozinho, por mais insignificante que seja, não causaria danos ao mesmo tráfego aéreo”? 

O caso do Aeroportozão de São Bernardo, que virou Aeroportozinho até desaparecer do mapa regional, só não pode ser considerado algo que se consagra como o resumo da ópera de descuidos históricos do Diário do Grande ABC. Deve-se legar em conta, obrigatoriamente, a concorrência gigantesca. Como se viu, por exemplo, no esquecimento que vitimou Celso Daniel, descartado entre 465 destaques históricos de Santo André, situação já analisada nesta série. Barcaça como metáfora de rotatividade de Recursos Humanos numa atividade em que conhecimento de valor agregado é matéria-prima indispensável. Cada jornalista que se perde é um buraco que se abre. Não há talento que resista à pressa, à pressão e aos desafios do dia a dia de uma Redação sem o anteparo do conhecimento regional. Os empresários do ramo jornalístico não entendem do riscado. Recursos Humanos são ativos descartáveis.



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