Imprensa

QUANDO FAKE NEWS
MERECEM DESPREZO

DANIEL LIMA - 22/12/2025

Em 11 de outubro do ano passado anunciei que a partir de janeiro deste 2025 iria introduzir uma inovação no jornalismo brasileiro. Construiria o Ranking de Meias-Verdades e Mentiras dos prefeitos que assumiriam em janeiro deste ano. Cumpri a promessa. Cumpri é força de expressão. Contraditoriamente, por conta do excesso de insumos,  desisti da tarefa no meio do caminho. Dar murros de seriedade em ponta de faca de descaso informacional seria burrice.

Quando o insumo básico é jornalismo independente na praça, com questionamentos e comprovação de eventuais vulnerabilidades dignos de serem registrados e hierarquizados, tudo que seja curadoria funciona. Sem isso, não  passaria de engodo em multiformas de fake news.

Pois o Ranking de Mentiras e Meias-Verdades está desativado faz tempo. Só faltava comunicar aos distintos leitores. A propagação incessante de fake news dos administradores municipais e secretários é mais poderosa que minha paciência, embora provavelmente menos resistente à minha suposta capacidade cognitiva. 

MUITAS MÁSCARAS

É importante lembrar que o conceito de fake news para este jornalista é diferente do que os supremos juízes definem como fake news, embora acertem aqui e ali até porque é impossível não distinguir fake news evidentes de fake news dissimuladas com roupagem de realidade fabricada sob encomenda.

Para este jornalista, fake news é tudo que não é verdadeiro como informação. E o que  não é verdadeiro como informação não necessariamente é explicitamente mentiroso. Há mais nuances entre verdades, mentiras e meias-verdades do que imagina a sociedade consumidora de informações. Sem contar que há determinadas dificuldades de caracterizar como fake-news o que de fato é verdade desagradável.

Já me ocupei tanto da multiplicidade de máscaras que procuram levar os leitores no bico que não pretendo me estender agora. Certo mesmo é que escrevi,  em outubro do ano passado, que não encontrava notícia tanto no mercado de informações nacional quanto internacional de algo semelhante ao que projetava.

ESCESSO E ESCASSEZ 

Afinal, passaria a qualificar mentiras e meias-verdades geradas por prefeitos e secretários municipais. O  Ranking de Mentiras e Meias-Verdades seria implacável, prometia este jornalista. Tudo que fosse considerado tanto uma coisa quanto outra coisa seria documentado e analisado, além de quantificados numericamente.

O que vivi nesta temporada experimental foi mesmo uma conjunção contraditória de excesso e escassez que colocaram o ranqueamento prometido fora de jogo. O noticiário regional é em larga escala, embora não totalmente, uma espécie de oficialismo político mesclado de abstrações, invencionices, festejos, promessas e lorotas que se consolidam como noticiário absolutamente corriqueiro, sem qualquer tipo de qualificação crítica da mídia. Os entrevistados falam o que bem entendem e tudo vira uma maçaroca de alta fidelidade a jornais de papel e jornais digitais.  

Ora, bolas: se o que é verdade, se o que é meia-verdade e se o que mentira se misturam numa esculhambação dos diabos, e isso se repete à exaustação, o Ranking de Meias-Verdades e Mentiras se tornaria enfadonho como uma matraca. Aliás, como o foi aos meus olhos ao verificar a cada mês a quantidade de repetecos com esse perfil coletivizado por mandachuvas municipais.

INICIO ENGANOSO 

Tudo parecia caminhar para uma trajetória distinta quando, na edição de 23 de janeiro deste ano, ocorreu entrevista que relatei em detalhes. Escrevi naquela edição que um frango de despreparo com polenta de desinformação marcou as primeiras declarações públicas de Rafael Demarchi. 

O herdeiro da família que fez história na rota dos restaurantes destruída pela desindustrialização praticamente serviu um prato indigesto como secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo. Mais parecia um explosivo vatapá. Os 35 minutos de entrevista foram desanimadores, quando não frustrantes, quando não dolorosos, diante de câmeras e microfones do ABC em Off.

Possivelmente – escrevi --  a mais lastimável resposta de Rafael Demarchi num encontro jornalístico amistoso referia-se ao então governador do Estado, Geraldo Alckmin, e a uma frase, síntese da incompetência, repetida à exaustão por ignorantes como o novo secretário de São Bernardo. Ao afirmar que São Bernardo “é a melhor esquina do Brasil”, Rafael Demarchi não só repetiu a barbaridade geoeconômica de Geraldo Alckmin, como também expôs com crueza o nível de alheamento sobre a economia de São Bernardo.

Também declarou o secretário Rafael Demarchi outra repetidíssima bobagem de direitos autorais de difícil rastreamento no ambiente político da região, tantas vezes já foi exposta com triunfalismo. Tratava-se de suposto privilegio de suporte estratégico logístico de São Bernardo e da região como um todo por estar no quintal do Aeroporto de Guarulhos e do Porto de Santos.

PRIMEIRO BALANÇO 

Na edição de três de fevereiro deste ano CapitalSocial publicou o primeiro balanço do ranking.  O secretário Rafael Demarchi afundara o prefeito Marcelo Lima. Resultado? Marcelo Lima liderava o Ranking de Mentiras e Meias-Verdades.  O prefeito somava 350 pontos negativos na disputa, contra 100 do prefeito de Santo André, Gilvan Júnior, 50 pontos do prefeito de Diadema, Taka Yamauchi e 50 do prefeito de Mauá, Marcelo Oliveira.

No primeiro balanço desse medidor histórico foram registradas 10 Mentiras e duas Meias-Verdades envolvendo quatro dos sete prefeitos da região. A situação mais dramática era mesmo do prefeito Marcelo Lima, com sete mentiras. Tudo porque o secretário excedeu-se em declarações desprovidas de fundamentação.

COMEÇO DO PROJETO 

Na edição de outubro do ano passado prometei definir a metodologia a ser aplicada para dar tratamento igual a situações iguais, sem margem de erro ou margem de manobra no Ranking de Mentiras e Meias-Verdades.

A decisão de produzir o ranking era, dizia,  um ato de inconformismo diante da corrente fluvial de autoridades públicas locais que desprezam a cidadania e fazem de páginas de jornais e de redes sociais esgoto propagandístico a céu aberto de imprecisões deliberadamente ou não para enganar o distinto público.

A iniciativa não era inédita desta revista digital e provavelmente nem a última, garantia aos leitores, porque nada é mais angustiante para quem faz do jornalismo profissão de fé ter de engolir diariamente orquestração de frases descabidas e em muitos casos idealizadas por marqueteiros que tomaram posições de comando nas administrações públicas.

Explicava naquele texto que mentiras iriam custar, por unidade,  50 pontos negativos à gestão pública que tivesse cometido o crime de informação fraudulenta. Meias-verdades custariam 20 pontos cada.

FATOS ESCANCARADOS

Contei naquele texto de outubro do ano passado a origem da iniciativa do ponto de vista de inspiração. Decidi criar o Ranking de Mentiras e Meias-Verdades durante a corrida diária de oito quilômetros a que me submeto para recuperar os danos causados pelo incidente que quase me custou a vida. Correr é um santo remédio.

Ao retornar daquela corrida, resolvi dar uma espiadinha nas páginas do Diário do Grande ABC sempre destacadas de forma individual para leitura em seguida, ou durante o dia. Expliquei que faço o mesmo com exemplares da Folha de S. Paulo e do jornal Valor Econômico. O Estadão digital virou leitura digital, continuei, porque fiquei inconformado com a mudança do formato físico, em seguida adotado também pela Folha.

Consultei uma página do Diário do Grande ABC que apresentava uma reportagem com o prefeito eleito Gilvan Júnior e seus planos para quando assumisse o Paço Municipal, em primeiro de janeiro. Li com atenção suficiente para detectar uma mentira que custaria ao prefeito eleito 50 pontos negativos. Não registrei nenhuma Meia-Verdade.

A mentira em forma de informação foi anotada, mas não constaria do ranking oficialmente que só valeria a partir do dia primeiro deste ano. Fui ingênuo ao sugerir que Gilvan Júnior possivelmente concorreria com ampla viabilidade de sucesso à liderança do ranking em questão. Bastava repetir procedimentos do então prefeito, Paulinho Serra.

Gilvan Júnior disse naquela reportagem do Diário do Grande ABC que Paulinho Serra era uma das maiores lideranças políticas do Estado de São Paulo.  Paulinho Serra  era e continua sendo  presidente estadual de uma massa falida chamada PSDB.

BOM-SENSO É O LIMITE

Esse exemplo retirado da reportagem do Diário do Grande ABC dava bem a dimensão de que o Ranking de Mentiras e Meias-Verdades poderia estar recheadíssimo nos quatro anos do mandato. Prometia que a caça seria implacável.

Lembrava aos leitores que Gilvan Júnior ou qualquer outro prefeito eleito poderia dizer o que bem entendesse do antecessor que nada seria apontado como cometimento de erro indicador ao paredão de perda de pontos. Só não poderia ultrapassar o limite do bom-senso e da realidade.

Explicava naquele texto de outubro do ano passado, para justificar o lançamento do ranking que, se Gilvan Júnior dissesse que Paulinho Serra era o maior prefeito da história de Santo André, nada lhe seria debitado, porque se trataria de opinião. Aliás, foi o que disse o finalista da disputa em São Bernardo, Marcelo Lima, ao se referir ao prefeito Orlando Morando, colocando-o como o melhor da história de São Bernardo – veja só o quanto mudou de lá para cá. Entretanto, dizer que Paulinho Serra é um dos maiores líderes políticos do Estado era flagrante atentado à verdade. 

FIM DO CAMINHO

Como já tinha experiência no ramo de ranqueamento, a expectativa na elaboração do Ranking de Mentiras e Meias-Verdades  era de que ocorrências dignas de registro e contabilização se concentrariam em questões mensuráveis, fáticas, insofismáveis sob o ponto de vista de informação consolidada. A semântica e a liberdade de expressão, mesmo de mentir, mesmo de sofismar, não seriam o ponto de honra à qualificação dos registros. 

Também naquele texto que já passou de um ano nesta revista digital, alertava que, valesse a inovação para o período dos mandatos dos então chefes de Executivos da região, o prefeito Paulinho Serra teria 50 pontos negativos somados a tantos outros por ter declarado que um centro hortigranjeiro que seria inaugurado em Santo André faria o PIB crescer 10% na temporada seguinte. Uma aberração sem tamanho, como analisei em texto específico. O centro de abastecimento de hortifrutis não saiu do papel até agora.

O Ranking de Mentiras e Meias-Verdades  -- garantia aos leitores--, seria construído com base em todas as fontes de informação. Jornais impressos e digitais, redes sociais, tudo, absolutamente tudo que tivesse sido gerado diretamente dos Paços Municipais, não escaparia de registros. Os secretários municipais constituiriam uma força complementar à verificação crítica. Os registros negativos entrariam na conta do prefeito ao qual estariam vinculados.  

O Ranking de Mentiras e Meias-Verdades não suportou a realidade dos fatos. Os administradores municipais da região, em larga escala, jogam para a plateia, vendem quinquilharias enquanto o Grande ABC desaba economicamente neste século. Uma região de sete municípios que competem entre e que perde de goleada para o ritmo de tartaruga do PIB Nacional.



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