Imprensa

BARCAÇA DA CATEQUESE E O
GATABORRALHEIRISMO (12)

DANIEL LIMA - 05/12/2025

A realidade sobre a linha editorial do Diário do Grande ABC durante o período militar precisa ser colocada mais uma vez nos trilhos das provas, dos testemunhos e das evidências. É preciso evitar que a mistificação descontextualizada, arbitrária e oportunista tome conta do pedaço da cultura regional. O Diário do Grand ABC não foi um fenômeno de covardia e tampouco de valentia no enfrentamento ao período militar. A ponte interditada foi contornada dentro do possível, de fato pouco possível, mas não foi desobstruída.   

O Diário do Grande ABC destes tempos de antagonismo ideológico exacerbado insiste numa tese que não resiste ao contraditório que tem o passado como estoque crítico. A edição especial da última sexta-feira foi mais uma tentativa de vender gato de acautelamento por lebre de enfrentamento ousado.  Uma tentativa que se repete porque já foi formulada há 11 anos. E não deu certo.  E não dará certo jamais enquanto fake news constar do dicionário ético do jornalismo. 

Como agora, não resisto à tentação de conferir a afirmativa do Diário do Grande ABC em matéria publicada na edição de Páscoa de 2014. Manchetou o jornal em páginas duplas internas: “Prestes a completar 56 anos, Diário desafiou o regime militar”.

Uma das retrancas (matérias auxiliares) apresentou-se mais contundente: “Jornal chamava ditadura o golpe que a concorrência dizia ser revolução”. Outra retranca: “Polesi definiu foco e manteve a defesa da pluralidade em época de restrições”. 

OPOSIÇÃO JAMAIS

A matéria principal do Diário do Grande ABC cometia o erro de ser pouco profunda, quando não rasa.  Exatamente como agora. O texto do Diário do Grande ABC daquele 2014 não me convencia. Além de escasso em informações, pinçava frases que pretendiam justificar uma ação editorial de confronto do jornal com os mandachuvas militares e seus desdobramentos durante 21 anos de arbítrios. Não foi bem assim. Tanto quanto no repeteco da última sexta-feira, quando se comemorou a edição 20 mil. 

Duvidei do material exposto há 14 anos porque a Imprensa nacional de grande porte estava manietada pela censura e pela autocensura. O News Seller longe estava de constar da lista dos grandes jornais do período. Ou teria sido justamente por ser menos importante que o já encorpado Diário do Grande ABC teria sido diferente das grandes publicações? A subjetividade do que é pequeno ou grande depende das circunstâncias. O pequeno nacional pode ser o grande regional. Era o caso do Diário do Grande ABC.

Ousava dizer naquela oportunidade e repito agora, com base em provas irrefutáveis, que o Diário do Grande ABC jamais se opôs declaradamente, e mesmo dissimuladamente, aos militares. “Ditadura militar” saltitou aqui ou ali nas páginas noticiosas do jornal, emitida por entrevistados de agências de notícias,  mas não se traduziu em  linha editorial crítica, declaradamente assumida pela direção. Terceiros necessariamente não falam pela direção de uma publicação. Muitas vezes falam sim, como fórmula enviesada de terceirizar críticas.  Não foi o caso. 

O léxico crítico do Diário do Grande ABC não registrou a empreitada desafiadora aos militares. Muito pelo contrário.  “Golpe militar”, “ditadura militar” e outras expressões comuns não permearam jamais os posicionamentos oficiais do Diário do Grande ABC produzidos por Fausto Polesi.  “Governos revolucionários”, “Revolução”, estas sim caracterizaram aquele período. Mas não o foram com frieza ou servilismo. 

EDITORIAL EMBLEMÁTICO   

O mesmo Fausto Polesi, um dos fundadores e por mais de 40 anos comandante da redação do Diário do Grande ABC,  lançou em setembro  1982 o livro “Editoriais”, emblemático e desmistificador. 

Em “Editorais”, Fausto Polesi reproduziu aqueles que considerou os textos mais importantes até aquela data à frente do Diário do Grande ABC, inclusive do período News Seller. O livro reunia vários artigos de âmbito regional e nacional, principalmente sobre política. Em nenhum dos artigos Fausto Polesi registrou a expressão “regime militar” “ditadura militar” ou assemelhados. Nenhum, absolutamente nenhum.

Mais que isso: tratava o período de exceção com expressões esconjuradas pelos socialistas de ontem e de hoje: “Regime Militar”,  “Revolução” e “Governo Revolucionário” pipocam nos artigos de Fausto Polesi. Tive, naquele 2014,  o cuidado de ler todos os textos e anotar cuidadosamente os trechos mais importantes sob a ótica em questão.

Fausto Polesi não selecionou um único artigo que abordasse de forma contundentemente crítica o período militar. É impossível reproduzir o que não existe. Fausto Polesi era um jornalista cáustico, ponderado e sensível. Ler “Editoriais” segue sendo um exercício de comprometimento com a cidadania. Fausto Polesi distribui catiripapos sem contemplação. Legislativos e Executivos, então eleitos democraticamente, apanhavam o tempo todo. Aquele Brasil e aquele então Grande ABC encavalavam  escândalos.   

FADIGA DE MATERIAL 

Fosse o Diário do Grande ABC uma das poucas exceções entre os jornais brasileiros, impondo-se com coragem aos militares, o diretor de Redação que durante décadas o liderou não cometeria o desatino de desprezar, numa coletânea de textos, suposto posicionamento de rebeldia ao autoritarismo fardado. Principalmente ao editar aquela obra durante uma temporada – 1982 – em que o regime militar já dava claros sinais de fadiga de material. Era um prato cheio à contestação. 

Ouso reproduzir um dos “Editoriais”  para que, diferentemente da matéria do Diário do Grande ABC daquele domingo de Páscoa, e também de agora, da edição 20 mil,  não se estabeleça juízo de valor equivocado ao que se imprimiu naquele período.

Ressaltei aos leitores, naquele 2014 -- e lembro de novo, agora -- que tomei cautela para selecionar integralmente o texto que se segue sem correr o menor risco de descontextualizar os enunciados de Fausto Polesi. Ou seja: não produzi um filtro técnico para sustentar a tese de que o Diário do Grande ABC não se opôs ao período militar, nem tampouco se referiu àquela situação com a expressão condenatória de “Ditadura Militar”.  

EDITORIAL DO DIÁRIO

À página 93 de “Editoriais”, sob o título “Anistiar não é jogar na Bolsa”, Fausto Polesi  expressa sem retoque o pensamento editorial do Diário do Grande ABC ao longo daquele período de trevas democráticas: 

Para certos assuntos – cassações de mandatos, recesso do Congresso, leis especiais – o governo revolucionário é expedito, rápido, fulminante. Entretanto, para outros – punições de corruptos, contenção dos atos de violência com o consequente enquadramento de seus autores nos rigores da lei, revisão de medidas discricionárias, anistia – a lentidão, o protelamento, a indiferença quase é o comportamento corriqueiro e costumeiro. Deveria ser diferente, mas não é – escreveu Fausto Polesi. 

MAIS EDITORIAL 

Ultimamente o tema que vem ocupando as atenções é o da anistia aos presos políticos, aos exilados e banidos pela Revolução. O Ministério da Justiça, em nota ultrarrápida, contestou o número de brasileiros nas condições citadas – o qual, segundo o professor Dalmo Dalari, atinge 10 mil – comprovando que para certas questões a máquina revolucionária funciona com precisão absoluta. Adiantou ainda a nota ministerial que nada havia de errado no comportamento dos órgãos oficiais, relativamente aos brasileiros que, no estrangeiro, estavam tendo problemas de renovação de seus documentos, o que lhes dificulta a própria subsistência – escreveu Fausto Polesi. 

MAIS EDITORIAL 

Além da manifestação do Ministério da Justiça, nada aconteceu até agora no sentido da revisão dos excessos cometidos pela Revolução, na sanha de punir os “subversivos”. Em torno da anistia, o que se vem ouvindo é de lamentar, embora as diversas opiniões contra a concessão do benefício reflitam o estado de coisas do regime, ou seja, a falta de parâmetros de ação. Há muita gente dizendo, por exemplo, que o momento não é propício para o governo fazer as aberturas pleiteadas pelos que condenam as injustiças; com argumentos simplistas – naturalmente porque as punições não lhes dizem respeito e nem a familiares – colocam o problema da reparação dos erros praticados na categoria dos assuntos que sofrem as oscilações momentâneas, algo assim como jogar ou não jogar na Bolsa, aguardar o tempo certo para investir neste ou naquele papel – escreveu Fausto Polesi.

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Ora, corrigir uma injustiça, cometida contra alguém, é obrigação permanente de quem a praticou. Não há por que esperar momento mais condizente, condições psicológicas favoráveis; a vítima da injustiça é um ser independente de fatores externos à sua pessoa. Por outro lado, moralmente falando, o que puniu injustamente carrega em si o estigma da perversão de poderes que usou, enquanto não se redimir do pecado. Se a Revolução cometeu excessos, puniu inocentes ou aplicou penas rigorosas demais para faltas de pequeno grau, o seu permanente dever é refazer o ato impróprio—escreveu Fausto Polesi. 

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Portanto, dizer que o momento não é o mais oportuno para falar-se em anistia é o mesmo que defender o arbítrio, como arma indispensável aos governantes. Está comprovado que a Revolução cometeu erros e com isso há muitos brasileiros sofrendo penas injustas. Não importa se se trata apenas de um cidadão ou de 10 mil; o que deve imperar no ânimo do governo é o desejo de reparar as suas falhas, tão logo estas são denunciadas e provadas –escreveu Fausto Polesi. 

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Claro que o governo revolucionário não pode ser injusto consigo próprio, ipso facto, com a sociedade brasileira, anistiando criminosos confessos, marginais contumazes. Mas um único brasileiro encerrado numa cela por punição injusta, consequência da obscuridade e violência de algum mentecapto dotado de poder, será o bastante para incriminar o governo. Pois se errar é reflexo da falibilidade humana, persistir no erro, mantendo injusta situação a inocentes, é usar do poder, arbitrariamente – escreveu Fausto Polesi. 

MILITANTE NO COMANDO 

Em 6 de maio de 2014 ouvi o experiente jornalista Milton Saldanha e produzi uma Entrevista Especial que vale a pena ser revisitada.  Milton Saldanha foi militante de esquerda e amealhou vasta carreira em grandes e médios veículos. Pois ele afirmou categoricamente que, no período de 10 anos do semanário News Seller, embrião do Diário do Grande ABC, o jornal não confrontou as forças que depuseram o governo João Goulart. 

Dada a importância da questão, reproduzimos aquele Entrevista Especial sob o título “Saldanha também opõe-se  à versão de que o Diário desafiou a “ditadura”. 

CAPITALSOCIAL  -- O Diário do Grande ABC, desde os tempos de News Seller, se comportou como publicação que ergueu barricadas contra o regime militar ou atuou mais ou menos no recorte dos jornais conservadores? 

Milton Saldanha – Não sei como era a linha do News Seller, que agora estou curioso em pesquisar depois de conversa informal que tive que o professor Antonio Andrade, da Universidade Metodista. Ele já vem fazendo essa pesquisa há algum tempo. Não vou comentar nada sobre as conclusões dele porque não estou autorizado para isso. Quero apenas saber melhor sobre aquele período, que talvez tenha sido diferente das outras fases do jornal, a conferir. 

Para o leitor entender, esclareço que trabalhei no Diário em três períodos completamente diferentes, tanto do porte do jornal, como da situação política que se vivia em cada momento. A visão de cada pessoa sobre o jornal pode ser bem diferente. Ora, militei contra a ditadura, fui contra ela desde o dia do golpe em 1964, quando iniciava no jornalismo; meu jornal foi fechado e tive que me esconder, em Porto Alegre; atuei na política estudantil de esquerda; fiz jornais estudantis, de oposição; colaborei com a imprensa alternativa como associado, pagante, do Coojornal, de Porto Alegre; militei em trabalho político clandestino durante a ditadura; fui preso político no DOI-Codi. Logo, não posso concordar, do que acompanhei do Diário, que o jornal tenha confrontado a ditadura. 

O que se tinha eram brechas, usadas por alguns editores, como eu, para plantar o que fosse possível, com prudência, sem avançar demais o sinal. E isso fazia toda a diferença quando se comparava com os jornais da Capital: o Estadão e Jornal da Tarde sob severa censura, e a Folha de S.Paulo tão aliada com a ditadura que sequer precisou de censor. 

Além disso, o Diário era pequeno, como qualquer jornal de interior, mesmo sendo regional. Não chamava a atenção da censura, que nunca nos incomodou. Ela se dedicava a tentar destruir os pequenos jornais, alternativos, que faziam o verdadeiro combate ao regime. A Folha de S.Paulo, quando falar mal da ditadura já era chutar cachorro morto, com hiperinflação e muita corrupção, adotou uma sensacional estratégia de marketing e liderou a campanha das Diretas Já, nos anos 1980. Hoje, tenta passar a mentira de que foi sempre assim. Todavia, isso foi oportuno e muito bom para a retomada do processo democrático. 

A linha editorial do Diário mudou na campanha das Diretas Já, pegando carona na jogada da Folha. Eu era editor-chefe e tive a felicidade de convencer o Fausto Polesi, o diretor de redação, da necessidade de inserir o jornal na campanha. Só vai entender que isso foi verdade quem perceber que o Fausto Polesi, que era um ótimo sujeito e meu amigo, inclusive tentou nos ajudar no episódio da prisão, era um jornalista-patrão, capitalista, com os anseios e ambições normais de qualquer patrão. A luta ideológica para ele não era uma prioridade. Seus editoriais eram moralistas, o que é diferente de ser engajado. 

Eu, ao contrário, era um editor altamente politizado, com essa história de vida e profissional que resumi acima. Os primeiros anos da minha carreira, mal saindo da adolescência, foram num jornal de esquerda, que apoiava João Goulart e Leonel Brizola, na contramão da mídia inteira, exceto a Última Hora, no Rio Grande do Sul. Sofremos a violência do golpe, Santa Maria é um poderoso centro militar, o dono do jornal foi preso, eu me escondi, com apoio da minha família. Havia prisões por toda a parte. No dia do golpe, 1º de abril, falei no rádio, pela Rede da Legalidade, ao lado do meu amigo Tarso Genro, atual governador gaúcho. Poucas horas depois, o Exército ocupou a cidade e calou a Rede. Mesmo sendo garotos, éramos figuras públicas na cidade. O jornal, “A Cidade”, tinha só o dono, Clarimundo Flôres, e eu, além de meia dúzia de gráficos. 

Nas Diretas Já a ditadura já definhava, desgastada pela grave crise econômica, com hiperinflação, e muita corrupção. Assim que sai da reunião com o Fausto Polesi, reuni a redação e outras áreas sob minha responsabilidade e fiz o anúncio, com estas palavras mesmo, de que o jornal a partir daquele momento estava engajado pelas Diretas Já. Considero isso um grande momento da minha carreira de 50 anos no jornalismo. Estou com 68 anos. Depois deixei o Diário e fui trabalhar na chefia de reportagem da Rede Globo, em São Paulo. Lá o papo era outro, como conto no meu livro de memórias, em detalhes. 

CAPITALSOCIAL – O senhor era chefe da Sucursal do Estadão quando Lula começou a emergir no noticiário. O Diário do Grande ABC insiste em propagar que a grande imprensa foi omissa naquele período, que só descobriu Lula bem depois. O senhor admite que, trabalhando na região, não percebeu o movimento sindical desabrochar ou o Diário do Grande ABC constrói um enredo que lhe favorece certo exclusivismo? 

Milton Saldanha – Primeiro, é preciso entender como funciona uma sucursal. A gente produzia matérias, previstas num roteiro da manhã, mais as imprevistas ao longo do dia, e jogava tudo no telex, para o Estadão, Jornal da Tarde, Agência Estado e Rádio Eldorado. O aproveitamento fugia do nosso controle, era critério de cada editor das diferentes áreas. A agência resumia tudo e distribuía, sempre, usando telex e teletipos. 

Prova do meu interesse pelo setor sindical é que “roubei” do Diário uma repórter da área, que chamava minha atenção, a Valdir dos Santos. Tornou-se a setorista da sucursal. Quando o sindicalismo abeceano explodiu como assunto nacional e internacional, eu já tinha uma repórter lá dentro, com ótimas fontes. E olha que minha equipe não passava de seis jornalistas, portanto não podia me dar ao luxo de ter setorista em algo que não fosse realmente importante. Ela foi a única repórter que entrou na Scania, com o delegado do Trabalho, na eclosão da primeira greve, que começou lá, em 1978. Foi essa greve que projetou Lula. 

O Diário tem razão. Era um parto, no Estadão, conseguir aproveitamento das nossas matérias sindicais. Mas a Agência Estado distribuía para cerca de 170 veículos do país, seus assinantes. Entre eles o Diário, que deu muitas das nossas matérias, e sem elas teria sido furado. Naquele espírito competitivo normal, das redações, isso nos deixava furiosos. Porque saia no Diário e não em nosso próprio jornal, o Estadão. 

Eu tinha trabalhado na Agência, era amigo de todos lá, e certo dia pedi que cortassem do Diário o fornecimento desse tipo de matéria, que tornava as coisas fáceis para eles. Pô, a turma do Diário tinha que trabalhar! O Diário custou um pouco para perceber, levou vários furos enquanto isso, até que reclamou e foi religado. Afinal, era um cliente, pagante. Foi uma besteirinha, coisa da competição, éramos todos jovens. 

Essa resistência do Estadão à cobertura sindical, e que a Sucursal não seguia, continuava mandando matérias todos os dias, só mudou a partir dessa greve de 1978, porque aí se tratava de notícia obrigatória e qualidade do jornalismo. O ABC era notícia, e mais do que isso, manchete todo dia. E, modéstia à parte, a Sucursal, só com seis repórteres, e dois reforços que pedi à matriz, deu show de cobertura. Tenho até hoje guardados os elogios, por escrito, dos editores, principalmente do Miguel Jorge, que era o editor-chefe.    

CAPITALSOCIAL  – Qual a sua avaliação histórica sobre a direção empresarial do Diário do Grande ABC, levando-se em conta os três períodos nos quais trabalhou na redação? 

Milton Saldanha – O Diário começou micro, dizem que Édison Danilo Dotto entregava o jornal de casa em casa, com carrinho de mão. Fausto Polesi foi empalhador de cadeiras. Eram muito jovens, e só puderam pagar a gráfica, na primeira edição do News Seller, graças a um anúncio, acho que de um banco. O jornalista e pesquisador Ademir Medici é quem conhece bem essas histórias. A transição para uma empresa de grande sucesso financeiro e comercial foi muito rápida. A grande receita vinha dos Classificados. Isso, pelo menos na teoria, dá independência ao jornal, que não fica exposto às pressões dos grandes anunciantes, entre eles órgãos públicos. 

Em 30 anos, o jornal já era uma potência e tinha seu nome conhecido também fora do ABC. Trabalhar no jornal, na primeira fase, recém-diário, final dos anos 1960, foi uma delícia. Um dos melhores períodos de toda a minha carreira. Tínhamos pouca experiência, mas uma vibração incrível. Cheguei a dormir na redação, sobre papel jornal, para sair na madrugada com Pedro Martinelli, o Pedrão, para reportagens de aventuras, nas matas da Billings. A equipe era muito unida. Foi maravilhoso! 

Dos quatro sócios, o único jornalista era Fausto Polesi, mas sem experiência de reportagem, nem de jornal anterior. Aprendeu tudo na marra, de forma empírica. Quando meu irmão, Rubem Mauro, e eu, assumimos a redação, tivemos que treinar todo o pessoal, principalmente em texto, porque ninguém conhecia regras básicas. O jornalista Renato Campos é desse tempo, que ele chamava como “escolinha”, é testemunha disso. Dirceu Pio e Hildebrando Pafundi, também. 

Os donos tinham objetivos empresariais e muita ambição. Eram, antes de tudo, empresários, com um olho no custo e outro no lucro. Mas não nos pagavam tão mal, comparando com a média salarial dos jornais da Capital. Nos meus empregos anteriores, Diário Popular e Shopping  News, como repórter, eu ganhava menos. Se tivessem ficado unidos, teriam construído um império de comunicação, até com TV, como é hoje a RBS, no Sul, que começou de forma parecida. Naqueles primeiros anos a gente previa isso, principalmente quando compraram a Rádio Independência, em São Bernardo, que virou Rádio Diário do Grande ABC. Mas não aconteceu. 

Os conflitos deles e os problemas sucessórios estancaram o crescimento empresarial. Um detalhe interessante: essa Rádio Independência certo dia foi tomada por Carlos Marighella, que deixou um gravador repetindo um manifesto contra a ditadura. O Diário da Noite, dos Associados, reproduziu o manifesto, como manchete, e isso custou a cabeça do seu diretor de redação, o Hermínio Sachetta, um comunista histórico e que foi meu chefe. 

CAPITALSOCIAL – Como interpreta o mea-culpa da TV Globo por conta das Diretas Já? 

Milton Saldanha – Não foi por conta das Diretas Já e sim da ditadura. A Globo apoiou a ditadura e foi apoiada por ela. Serviu como instrumentos dos militares no poder para fazer a apologia do Brasil potência, fase do chamado milagre e outros quetais. Todo mundo sabe disso, não estou dizendo nenhuma novidade. Nas Diretas Já, demorou muito para fazer uma cobertura com qualidade. No meu livro conto sobre essa parte e das pressões que nossa redação, em São Paulo, fez sobre o comando, no Rio. 

Não se pode apagar a História, nem a reinventar. Isso vale para a Globo, Diário, Folha, Estadão e outros. Mas do ponto de vista político acho excelente que a Globo tenha feito esse pedido de desculpa. Isso quebrou sua tradicional imagem de arrogância e agrega uma notável contribuição ao processo democrático, porque é uma atitude pedagógica. Os jovens devem perceber: se a Globo pede desculpa, é porque a ditadura foi um grande erro, lesivo ao país. Ruim seria se ela insistisse em justificar o injustificável. 

CAPITALSOCIAL – Se o senhor fosse diretor de redação do Diário do Grande ABC durante mais de quatro décadas, como Fausto Polesi, e decidisse lançar um livro que reunisse os editoriais mais importantes da trajetória da publicação, todos feitos por você, o período do regime militar seria mais que minimizado, substancialmente omitido como época de constrangimentos legais? O livro que o senhor escreveu é um retrato de sua vida profissional. Por que o livro de Fausto Polesi não seria e, portanto, não anularia qualquer tentativa de transformar o Diário do Grande ABC, numa linha histórica, não circunstancial, em paladino antimilitares? 

Milton Saldanha – Não tenho como falar pelo Fausto Polesi. A vida dele, e a minha, tiveram trajetórias completamente diferentes, só unidas circunstancialmente pelo fato de eu ter sido empregado na empresa dele em alguns momentos. Fui na missa de sétimo dia do Fausto, em Santo André. No final não me contive e chorei, sem conseguir falar, abraçado a seu filho e meu amigo Alexandre Polesi, hoje dono de jornal em Guarulhos. 

Eu gostava do Fausto. Ele sempre foi afetivo comigo, e me respeitava muito profissionalmente. Não teria me confiado tanta autoridade na redação se não fosse assim. Foi me buscar em outro emprego, onde eu estava bem, com um projeto de melhorar a edição. Ficamos três meses negociando, em sigilo, com encontros no Terraço Itália, regados a vinho. Mas éramos cabeças diferentes. E cada vida, a seu modo, teve emoções, e também frustrações, diferentes. Sempre vi o Fausto como uma pessoa de direita moderada, mais liberal. Em hipótese alguma um homem de enfrentamento contra a ditadura. Mesmo que tenha feito alguma eventual crítica ao regime, de forma velada ou ostensiva. 

Como já comentei, seus editoriais eram moralistas, o que nada tem a ver com contestação ao regime. O moralismo não é ideológico, pode estar tanto na direita, como na esquerda. Eu, ao contrário, sempre vislumbrei o jornalismo como uma trincheira para a luta política. No Estadão? Na Globo? será lícito questionar. Sim, porque todas as empresas são iguais, capitalistas. Em todas, sem ser tolo nem louco, eu tinha família para sustentar, procurei ocupar os espaços possíveis, sem perder o senso da realidade. 

Muitas vezes, espaços que só um jornalista de esquerda tinha olho crítico para perceber. Isso explica, por exemplo, porque remei contra a postura interna do Estadão na questão sindical. Só eu sei o trabalhão que me deu, na coordenação da cobertura das grandes greves dos metalúrgicos, lidar com um editor que era reconhecido por todos como de direita e patronal, o Itaborai Martins, já falecido. Ele foi colocado lá justamente para frear nossos eventuais arroubos. Havia cordialidade e respeito no diálogo, mas era difícil. Tudo, na cabeça dele, parecia perigoso. O pior jornalismo é o medroso. Mesmo assim a cobertura do Estadão foi impecável, e ganhava de lavada da concorrente Folha. 

O Fausto Polesi não me passava a imagem de ter esse medo, mas também não era arrojado. Não sei como foi com outros editores, mas no meu caso ele respeitava minha bagagem profissional. O Estadão tinha sido minha tremenda escola, e levei para o Diário tudo que tinha aprendido com grandes feras do jornalismo, a começar pelo rigor da apuração. Assumi o Diário no auge de uma briga infernal com um prefeito de Santo André, o Lincoln Grillo. Havia matérias sem critério, tolices até para falar de buracos de ruas, e aquilo desmoralizava o jornal. Dei um basta: denúncias, só fortes, documentadas e bem apuradas. Se o Fausto me desautorizasse, juro que pediria a conta. Emprego bom não me faltaria, como nunca faltou.



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