Imprensa

BARCAÇA DA CATEQUESE E O
GATABORRALHEIRISMO (13)

DANIEL LIMA - 12/12/2025

Não será uma tempestade de negacionismos e tampouco uma enxurrada de palpites que me retirarão da fortaleza conclusiva sedimentada há muito tempo: o transplante metodológico do banco de horas da linha de montagem industrial de montadoras de veículos para a Redação do Diário do Grande ABC se constituiu uma das maiores aberrações operacionais que já vivenciei numa linha de montagem intelectual.

Mesmo que o Diário do Grande ABC não fosse o que quase sempre foi, uma barcaça de rotatividade de recursos humanos temperada pelo gataborralheirismo cultural por conta da vizinhança com a Cinderelesca São Paulo, mesmo assim, não teria sentido tamanho disparate. Imagine então ter encontrado como encontrei o banco de horas em ação.

Fiquei espantado quando desembarquei no Diário do Grande ABC naquele julho de 2004, depois de atuar pouco antes como ombudsman interno, com o que encontrei de descompasso entre o que se pretendia como fórmula de eficiência e o que se traduzia como estupidez de improdutividades. 

EXCEÇÃO, NÃO REGRA

Somente no começo de outubro daquele ano, três meses depois de meter a mão na massa como diretor de Redação, dei-me conta de que estava começando a encontrar os resultados desejados. Aliás, escrevi sobre isso na newsletter que produzi durante todo o tempo de 11 meses à frente daquela Redação e que contava com o público-alvo formado não só pela Redação, mas também acionistas e executivos de outras áreas. 

Naquele sete de outubro de 2004 escrevi sobre o banco de horas, lembrando que se tornara uma montanha de problemas que nos dois últimos meses chegara ao estágio que pretendíamos: estávamos debelando o incêndio da má gestão e aquecendo os motores da produtividade.

Lembrava aquele texto-comunicado que nada se tornara mais interessante. A nova situação fortalecia os profissionais agregados à Redação e revelava o quanto estávamos comprometidos com o produto final sem acrescentar custos.

Para que não me chamassem de radical, expressei a iniciativa de, diante de eventuais situações especiais, como no caso da cobertura das eleições, sacar o banco de horas para fortalecer o produto. Só não poderíamos, entretanto, fazer da modalidade rotina em casos convencionais. 

SALDO POSITIVO

Resumidamente, conseguimos nos 30 últimos dias vencidos em 18 de setembro de 2004 não só acabar de vez com o saldo negativo do banco de horas como alcançar 142 dias de saldo positivo. Por saldo positivo se entenda o que a Redação deixou de incorporar de carga suplementar ao congelamento do banco de horas.

Em verdade, no segundo mês em que foram adotadas medidas de acompanhamento do banco de horas, a Redação simplesmente reverteu o processo porque a média anterior acusava exatamente números semelhantes, mas como dias negativos.

Admiti naquele comunicado que talvez estivesse utilizando equivocadamente os verbetes “positivos” e “negativos”, que poderiam expressar juízo de valor, mas não era o caso. Utilizei-os apenas para simplificar a abordagem. O banco de horas  -- argumentava --  poderia e deveria ser apenas positivo, desde que bem gerenciado. Tratava-se de uma ferramenta como a faca de cozinha, que, sob o controle de mãos hábeis, garantiria um churrasco inigualável mas, de posse de um facínora, provocaria desgraças.

As respostas que a Redação oferecia nos animavam porque se davam como desdobramentos de um período inicial de inconformidades. Lembrava que ainda estávamos distantes do produto de qualidade que balizava meus sonhos, mas sem dúvida a reação conjunta era alentadora. A cobertura das eleições era prova disso. Contávamos com um grupo de profissionais numericamente muito inferior ao de quatro anos  antes, mas os resultados foram bem mais interessantes.

MARTELANDO, MARTELANDO

A insistência com que batia na tecla de planejamento e conceituação das atividades estava encontrando respostas. Esperava que principalmente a Secretaria e as Editorias não perdessem a percepção de que sem diagnóstico, planejamento, execução e controle — exatamente nessa ordem — jamais conseguiríamos superar os desafios. Tudo que nos propuséssemos a fazer exigia esses quatro estágios. Quando se desdenhasse qualquer uma dessas medidas, haveria o risco de descarrilamento.  

A pregação insistente daquela newsletter fazia parte do show de reformismo da Redação do Diário do Grande ABC. Somente um diagnóstico que levasse em conta o dia-a-dia de produção conseguiria aferir sem maiores riscos o grau de eficiência, de eficácia e de ineficiência do jornal. “A diferença entre eficácia, eficiência e ineficiência é a mesma entre um goleador que marca gols em profusão mas inúteis contra adversários de baixo nível e sempre nega fogo quando se vê confrontado com a imperiosidade de decidir; um goleador que distribui artilharia harmoniosamente, sempre nos momentos mais delicados, sempre quando um gol faz a diferença de pontos preciosos; e um goleador em fim de carreira, incapaz de recuperar a velha forma e que, portanto, vive única e exclusivamente do passado” – explicava.

DOGMA DA EFICIÊNCIA

Como Diretor de Redação procurava disseminar o que, inclusive por razões de uso tecnológico impossível no passado, senti fragilidade nos 16 anos em que estive no jornal nos anos 1970-1980. Martelava: eficiência é fazer o melhor com mais agilidade, com alta rentabilidade individual, com amplo compartilhamento coletivo. “Os artilheiros mais confiáveis são aqueles para os quais não converge toda a atenção de seus companheiros, mas são capazes de integrar-se de tal forma ao conjunto que extraem dessa simbiose os melhores resultados”.

Lembrava a ojeriza de apressar o passo sobretudo quando não contava com fluxo de informações que consubstanciassem argumentos. Disse que nos últimos dias, por força das circunstâncias e depois de receber relatório com nomes, datas de contratação, funções e salários dos profissionais da área de conteúdo do Diário do Grande ABC, cheguei a algumas conclusões precárias mas que, nos primeiros 30 dias de trabalho, poderiam configurar-se autênticas veredas sobre as quais introduziríamos metodologia.

Aparentemente, havia número desproporcional de profissionais de áreas-fim em relação às áreas-meio. Profissionais de áreas-fim são aqueles cujos nomes podem diariamente ser identificados pelos leitores, porque têm trabalhos assinados. Profissionais de áreas intermediárias estão na retaguarda. Suas identidades raramente chamam a atenção dos leitores porque o mercado consumidor é implacável com as aparências: não se compra um produto editorial pela retaguarda operacional, mas pelo pelotão de frente dos formuladores de textos e fotografias. 

BUROCRACIA DEMAIS  

Esse desbalanço — insistia em dizer que se tratava de constatação sujeita a revisão durante o período de diagnóstico — poderia denunciar o enquadramento da área de conteúdo do Diário do Grande ABC na saia justa de um verbete que causa calafrios em quem procura encurtar sempre e sempre e de forma pragmática a distância entre dois pontos: burocratismo.

E repetia: isso mesmo. Havia cheiro de burocratismo no ar — ou melhor, no relatório que recebia e que esperava que não reunisse a amplitude que inicialmente vislumbrava. Não conseguia entender — e jamais cederia à tentação de me convencer de algo absolutamente sem nexo — que jornalistas contratados para escrever e exercer outras funções correlatas não davam  o recado inteiro.

Estava claro que havia profissionais no Diário do Grande ABC que simplesmente desapareceram dos radares de identificação explícita do produto. Bastava lançar mão da coleção no arquivo e confrontar as assinaturas dos autores das matérias e das fotografias com o quadro de colaboradores.

É claro que trabalhavam, porque senão não estariam na empresa, mas trabalhavam provavelmente mal: exatamente por serem os mais experientes não conseguiam se comunicar diretamente com os leitores, expondo conhecimentos em forma de matérias, de artigos, de posicionamentos que ajudariam a dar personalidade ao produto.

MULTIFUNCIONALIDADE

Afinal, o que se passava? Na medida em que escrevia, mais arriscava garantir que havia um emaranhado funcional no setor de conteúdo do Diário do Grande ABC que afrontava os critérios de produtividade. Por mais que o cotidiano fosse intenso — e o era realmente numa redação de jornal diário — não existia justificativa sustentável para o editor desaparecer das páginas — exceto a burocracia, evidentemente. 

A multifuncionalidade que constava do Planejamento Estratégico Editorial que carreguei debaixo do braço ao assumir o cargo de diretor de Redação contribuiria imensamente para recolocar as peças nos devidos lugares. Alertava que editor que não escrevesse seria algo como pedreiro que não assentasse tijolo, como cantor que não cantasse, como piloto que não dirigisse; ou seja, era a negação descarada da função.

Provavelmente, muito provavelmente, por força dessas mais que evidentes anomalias estruturais em que se privilegiava sobremodo o tecnicismo funcional em detrimento da exploração do potencial de cada profissional, o Diário do Grande ABC apresentava a singela marca de conferir a boa parte dos colaboradores um sistema de banco de horas que premiava enormemente a mão-de-obra e sacrificava terrivelmente o produto.

Admitia então que me enganara ao afirmar anteriormente que havia funcionário da área de conteúdo que já gozara de férias de 60 dias por conta do banco de horas. Desconhecia até então situações mais alarmantes — um colaborador teria descansado quase 120 dias corridos.

DESPREZO AO LEITOR

Não seriam apenas os dias corridos que corrompiam e desmantelavam qualquer enunciado voltado à qualidade do produto. Também havia operações pinga-pinga, bate-volta, de três, quatro, cinco dias de descanso remunerado. Essa intermitência funcional era quase tão danosa quanto os casos de turismo remunerado.

O Diário do Grande ABC talvez tivesse se esquecido da lógica acaciana de que, ao desprezar o consumidor de informação em favor de vantagens funcionais de colaboradores, o mesmo consumidor surrupiado pela imprecisão das informações também pode — e geralmente o faz — esquecer o jornal.

E segui com críticas ao lembrar que, fossem as férias curtas ou longas no campo editorial uma ousada inovação de se tirar o chapéu, as telenovelas da Globo provavelmente se inspirariam nesse modelo de reformismo funcional, retirando de cena durante vários capítulos importantes personagens de seus dramalhões sempre bem dirigidos.

E insisti na cantilena reprovadora ao destacar que um jornal não é outra coisa senão uma grande telenovela, com a vantagem de que havia novos personagens a cada dia a acrescentar mais interesse dos leitores.

Reiterava que um jornal com uma equipe de colunistas de peso regional, por exemplo, segura a audiência. Como descartar que entre os colunistas estejam os editores, por exemplo? 

CONTROLE GERAL

Ainda sobre a questão das férias prolongadas ou intermitentes decorrentes do banco de horas, algumas conclusões saltavam menos como especulação e mais como experiência prática. Primeiro: se havia profissional cuja dispensa dos afazeres pelos quais foi contratado incide perfil tão escandalosamente antiprodutivo, é sinal de que não faria parte das necessidades vitais da empresa. Segundo: a negativa dessa avaliação, ou seja, de que o profissional em constante vacância funcional não estaria na lista dos improdutivos, requereria da estrutura funcional urgente modificação.

Então, qual seria a solução? Garanti que controlaria todos os setores de conteúdo da empresa num primeiro instante e, em seguida, repassaria aos responsáveis por área os conceitos que seriam imediatamente aplicados e que, em resumo, constariam do seguinte enunciado: em situação de normalidade, nenhum profissional deve gozar de período de férias ou de qualquer malabarismo de descanso que ultrapasse os limites convencionais ditados pela legislação, pelo bom senso e pelo dogma de que o produto está em primeiro lugar.

Longe de mim imaginar que ao assumir o cargo estaria em franca evolução na área de conteúdo do Diário do Grande ABC uma grande fuzarca funcional em que, deliberadamente, se construiu um banco de horas cuja finalidade principal seria sangrar a qualidade do produto. Embora essa suspeita  fosse apenas especulação, não conseguimos encontrar justificativas e explicações para o saqueamento permanente da engrenagem editorial.

Quem seria capaz de opor-se à projeção que deslocaria maliciosamente o banco de horas do Diário do Grande ABC para a passarela carnavalesca da locupletação geral e irrestrita dos colaboradores? Como estabelecer e exigir valores laborais à fixação e à manutenção de um núcleo editorial cujo amanhã fosse a continuidade do ontem se parte dos colaboradores desapareceria da linha de produção e, dadas as peculiaridades do descanso, acabaria mesmo sem querer se desvinculando do compromisso social do produto?



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