Economia

Sindicalismo vs. FHC

DANIEL LIMA - 22/01/2008

Ainda ouço aqui e ali, principalmente de leitores do “Estadão”, cada vez mais envelhecidos pelo tempo e pelas idéias, definições cáusticas sobre a ação do sindicalismo no Grande ABC.


Atribui-se sem dó que o esvaziamento econômico da região se deu por conta dos sindicalistas bravios e dos operários indomáveis que emergiram com o chamado Novo Sindicalismo, Lula da Silva à frente.


Ainda outro dia, na semana de descanso que tive nas férias, porque nos outros dias, até retomar oficialmente este espaço, tive de me virar como empreendedor que procura colocar a casa em ordem, ainda outro dia, no Litoral, ouvi de um interlocutor circunstancial de mesa de padaria a sentença fatal:


“Os sindicalistas acabaram com o ABC”.


Diferentemente de outras situações, de situações normais, nas quais por temperamento e por vocação aceito o debate franco, não respondi. Fiz ouvidos de mercador.


Estava em férias, esqueceram?


Não iria quebrar a tentativa de fugir do estresse diário do ano inteiro numa única semana em que me dei ao luxo de descansar de fato, porque quando estico demais o descanso acabo me cansando.


Silenciei porque o debate não se definiria com apenas algumas frases certamente desconsideradas por aquele senhor de 82 anos de vitalidade tão impressionante quanto de posições ideológicas rígidas e às vezes agressivas contra o governo petista.


Confesso que também pesou na decisão de calar-me a idade provecta daquele aposentado confessadamente em busca de uma companhia, de uma mulher mais jovem, bonita, atraente, decidida a se casar com ele sem estar de olho nos rendimentos de ex-servidor público. Restava saber, pensei com meus botões, se seria possível tanta dádiva e ainda mais um presente celestial — como dar conta do recado depois de duas cirurgias de próstata?


Por que me daria ao trabalho de explicar ao velho Rui — sim, o nome dele é Rui, paulistano de Vila Mariana, se não me engano — que a responsabilidade do sindicalismo cutista na quebra do dinamismo econômico do Grande ABC é bem menor que os anos de chumbo de abertura econômica destrambelhada (e de outras travessuras microeconômicas e macroeconômicas) do governo Fernando Henrique Cardoso, combinada com a leniência do governo estadual e o autarquismo dos prefeitos locais.


Poderia dizer ao velho Rui de guerra, pai de dois filhos, um dos quais delegado de polícia, que já me debrucei sobre os números do comportamento da economia do Grande ABC no período mais ebulitivo das ações sindicais. Poderia ter dito também que comparei os dados com semelhante período do mais dócil desempenho classista da Força Sindical em São Paulo e concluí, sempre com base em números reais, de participação do Valor Adicionado na Capital e nos sete municípios do Grande ABC, que não há praticamente nenhuma diferença expressiva entre uma situação e outra.


Ou seja: o sindicalismo cutista no Grande ABC, que carregou carga exagerada de hostilidade ao capital, não diferiu nos anos pré-abertura econômica do que se observou na supostamente mais civilizada atividade da Força Sindical na Capital.


Sei que os antipetistas figadais vão detestar estas linhas. Provavelmente me atribuirão adjetivos desclassificatórios aos quais simplesmente darei o destino da lata do lixo, porque já passou o tempo em que aceitava provocações.


Entretanto, essa é a pura realidade. Fui a campo, mergulhei em estudos, embrenhei-me por caminhos nunca antes percorridos por jornalistas e produzi, já faz tempo, um arrazoado sobre as diferenças econômicas entre os cutistas na região e a Força Sindical na Capital.


Até que cheguei à conclusão repetida agora sem toda a numeralha daquela ocasião, porque o espaço de informação é diferente, mais de interpretação do que de comprovação tácita.


Já na sequência dos estudos, que detalhou a influência da abertura da economia tanto no território regional quanto na Capital, principalmente nos oito anos de FHC, os números foram flagrantemente desfavoráveis ao Grande ABC. Perdemos muito mais que a Capital.


Fernando Henrique Cardoso e seus oito anos de despautérios econômicos para o Grande ABC foram infinitamente mais complicados que os cutistas-petistas durante período mais longo. E não há o menor risco de o primeiro período sindicalista ter contaminado os números do período fernandohenriquista porque, como se sabe, os trabalhadores praticamente congelaram mobilizações durante o Plano Real que, à custa de tantos outros custos, domou a inflação. Não foram obra do acaso os 100 mil empregos industriais que se perderam no Grande ABC entre 1990 e 2000.


Tudo isso para desgraça dos radicais da Imprensa que não conseguem raciocinar sem colocar ideologia e interesses partidários à frente.


Gente que provavelmente vai tentar manipular a objetividade deste texto atribuindo ao autor a negativa de efeitos danosos do sindicalismo nas atividades econômicas locais. O que seria, convenhamos, uma idiotice.


Da mesma forma que seria estupidez negar que há outro lado da moeda da ação sindical regional que precisa ser considerado:
antes dos cutistas, as relações trabalhistas na região beiravam a escravatura.


O ambiente descontraído daquela padaria do Guarujá onde me espalho pela cadeira enquanto leio os jornais do dia não era exatamente o lugar mais adequado para um debate com o velho Rui. Preferi esticar o pescoço a todo instante em busca de uma sugestão de companhia feminina para ele deixar a solidão que confessadamente tanto o assola.


Por mais que tentasse ajudá-lo, percebi que perderia meu tempo. O velho aposentado tem o gosto refinado dos bons anos de glória e o senso crítico de desconfiar que moçoilas o querem apenas para raspar o tacho de suas parcas economias.


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