Economia

Do inferno aos céus

DANIEL LIMA - 07/07/2007

Afinal, de que classe média o Banco Goldman Sachs está falando?


Segundo levantamento de economistas desse que é um dos mais antigos bancos de investimentos do mundo, uma nova classe média vai brotar no Brasil, na China, na Índia e na Rússia, o chamado Bric. O resultado seria a transformação do comportamento de empresas de todo o mundo. Dois bilhões de pessoas vão saltar para uma nova escala social, garante o estudo, contra apenas 200 milhões atuais.


Segundo o levantamento, publicado burocraticamente nos jornais de terça-feira, o número de pessoas vivendo com mais de US$ 3 mil por ano vai dobrar no Brasil e na Rússia até 2015; vai se multiplicar por 14 na Índia e por 10 na China no mesmo período.


Os jornais, repito, publicaram a notícia sem contextualizá-la.
Para variar. Os leitores que se danem.


Bastaria os editores irem aos arquivos para registrar que em 12 de maio deste ano, portanto há menos de dois meses, o mesmo Estadão que encheu a bola daquela instituição financeira elevou à manchete principal de página interna: “Estudo mostra encolhimento da classe média”.


O texto daquela reportagem é claro: estudo divulgado por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) mostra que a redução do ritmo de crescimento econômico e a queda da mobilidade social no Brasil foram os principais motivos para o encolhimento da classe média entre 1981 e 2005. Segundo o estudo produzido pelos professores Marcio Pochmann e Eduardo Fagnani, naquele período o crescimento médio anual do PIB foi de 2,5%, ante 7% entre 1945 e 1980.


Vejam o que disse Marcio Pochmann: “Nas últimas duas décadas e meia, houve sinais crescentes de desproletarização dos trabalhadores urbanos, que perderam a possibilidade de exercer atividade assalariada, e há também a perda da posição relativa e da efetividade em gastos de maior valor unitário e a redução do status social da classe média”.


Outro especialista, André Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, em artigo publicado em novembro do ano passado no mesmo Estadão, denunciou:


“Se a economia deu uma baita desaceleração, aquela que tinha sido, até ali, a sua locomotiva, literalmente emperrou: segundo o Ipeadata, o crescimento acumulado do PIB na cidade de São Paulo entre 1980 e 2003 foi de quase menos 3%. Isso mesmo: o PIB andou para trás em termos per capita, a retração neste período foi em torno de 25%”.


Também à frente da revista LivreMercado nos últimos 17 anos, e sempre preocupado com desenvolvimento econômico sustentado, denunciei em inúmeras reportagens a perda do potencial de consumo da população regional, principalmente a partir da metade dos anos 1990, quando a abertura econômica atingiu diretamente o setor automobilístico, coração dos sete municípios locais.


Numa Reportagem de Capa publicada em dezembro de 2002 mostramos que o total de trabalhadores desalojados de empregos de alto nível, de classe média, com carteira assinada, lotaria duas vezes o Estádio Bruno Daniel, ou uma vez o Pacaembu. Em outras faixas salariais mais próximas da classe média também houve expressivos declínios.


Exceto se a metodologia do Banco Goldman Sachs for uma bola de cristal, o que temos é mais um caso de informação inconsequente de uma organização estrangeira que apanha jornalistas gataborralheirescos, sempre prontos a aceitar tudo que lhes transmitem.


Ou então, friamente, quando se colocam os números que duplicam o contingente de classe média do Brasil até 2015, tudo não passa de um jogo de cena numérico, diante da carga pesadíssima do déficit do mercado de trabalho que precisa criar 1,5 milhão de empregos por ano para atender ao crescimento da População Economicamente Ativa. Quanto, afinal, seria o dobro do atual universo de classe média do Brasil? Quantos, em contrapartida, seriam, até 2015, os trabalhadores que engrossariam o caldo de empobrecimento e elevariam a participação relativa dos menos afortunados na grade de incluídos economicamente?


Há muito tempo mobilidade social virou expressão inócua para os brasileiros, depauperados em salários, em renda, em qualidade de vida. O que temos como sinal dos tempos não passa de mobilidade corporativa, na forma de integrantes de castas sindicais de trabalhadores, empresários, educadores e tantos outros que se mobilizam para escapar das garras de um Brasil que faz jus à gênese colonialista.


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