Sociedade

Que tamanho teria o desencanto
com a Província? Enorme, enorme

DANIEL LIMA - 11/12/2014

É uma pena que não exista na Província nenhuma fonte confiável para tomar o pulso da autoestima pessoal, da confiança coletiva, do entusiasmo econômico e de tantas outras variáveis que de alguma forma integram um elenco de requisitos que expressam o estado geral de espírito de uma comunidade. Não estamos descolados do mundo próximo ou distante. Temos preocupações específicas que deveriam ser medidas e analisadas com rigor.


 


Houvesse institucionalidade de fato na região, o Clube dos Prefeitos seria a instância ideal para providenciar a medição de nossas alegrias e inquietações. Desde, claro, que os dados não fossem manipulados e maquiados, submetidos portanto a monitoramento e fiscalização de representantes da comunidade sem rabo preso com interesses políticos, partidários e econômicos.


 


Basta o Clube dos Especuladores Imobiliários para nos jogar na cara estatísticas furadas sem que autoridades tomem providências judiciais mais que apropriadas porque são assaltos contínuos ao bolso dos crédulos. Uma Lei de Responsabilidade Informativa especifica para o mercado imobiliário tão transgressor seria espetacular. Mas isso é outro assunto.


 


Escrevo a propósito da sugestão de criar um sistema detector de nossas angústias e alegrias porque nos tempos de revista LivreMercado ouvia de vez em quando a voz rouca dos conselheiros editoriais e de leitores da publicação. Foram várias as iniciativas, todas resguardadas no acervo deste CapitalSocial.


 


Como estou a transferir permanentemente o material de LivreMercado para CapitalSocial, irmãs siamesas porque sob a gestão editorial do mesmo jornalista, de vez em quando me chama a atenção algumas análises que encontro nas curvas desses translados.


 


Dando voz ao Omita


 


Um exemplo é o texto da edição de maio de 2001 – portanto há quase 14 anos – que chama a atenção sobre o momento institucional e econômico na região. Se aqueles resultados foram altamente preocupantes na enquete que envolveu formadores de opinião, e se desde então entre outros pontos a mobilidade social foi comprometida neste território quando se trata de classe média de verdade, o que estaria reservado a estes dias se sondagem semelhante fossem realizadas?


 


Não tenho dúvida alguma de que esta revista digital expressa com absoluta fidelidade o estado de ânimo da sociedade regional. Expomos nestas páginas o pensamento médio do que chamo de Omita Grande ABC, que são uma larga maioria da população insatisfeita com os rumos econômicos e sociais locais. A diferença é que o Omita, como o próprio nome diz, se cala, enquanto CapitalSocial se expõe.


 


Naquela “Pesquisa LM”, como foi chamado o projeto de LivreMercado sob a coordenação desta jornalista, a Província do Grande ABC vivia situação econômica pior que a atual, mas a institucionalidade era bastante superior. Celso Daniel ainda vivia e com ele os mandamentos da integração regional não pareciam um conto da Carochinha. Hoje começamos a sofrer as durezas do prélio da queda da ficha de que o boom automotivo acabou e deixou sequelas perturbadoras. O Custo ABC, principalmente no mercado de trabalho das montadoras, vai provocar muitas transformações. O noticiário está aí para confirmar que as multinacionais do setor instaladas na região não vão mais conviver com excesso de pessoal e abundância de privilégios – sempre comparando os dois indicadores com a concorrência mais dinâmica que aportou no País principalmente na última década. 


 


Naquela Pesquisa LM de 2001, quando indagamos sobre a integração institucional na região, os desconfiados representaram 68,8% ao assumirem a seguinte resposta: “Houve melhora, sem dúvida, nas relações entre prefeitos e seus secretários municipais, que passaram a entender o que significa integração regional, mas ainda temos muito caminho a percorrer”. Já os céticos representaram 24,4% das respostas. Eles optaram pelo seguinte enunciado: “Integração regional é só marketing. Na verdade, prefeitos e assessores estão mesmo é preocupados com seu caixa, com seu programa de governo, com seu Município. Região é abstração”. Os otimistas que optaram pela alternativa “a” foram apenas 6,66% do total de 90 participantes da enquete. Eles ficaram com a seguinte resposta: “Sem dúvida (acredito no sucesso da integração). Entendo que os poderes públicos da região estão finalmente integrados, prontos para darem, juntos, um salto de qualidade nas ações intermunicipais e também junto ao governo estadual.


 


Miriam Belchior moderada


 


Naquela série com leitores de LivreMercado sob a marca “Pesquisa LM”, os nomes e as respostas dos participantes foram autorizados ou não à publicação. A maioria optou pela transparência. Até a já há algum tempo ministra petista Miriam Belchior participou da enquete publicada em maio de 2001. Sua resposta sobre o sucesso da integração regional foi catalogada na categoria de moderados, ou seja, a opção “b”.


 


Outras duas indagações com direito à escolha de uma das três alternativas também foram respondidas por Miriam Belchior, assim como pelos demais participantes. Sobre o futuro econômico da região, Miriam Belchior preferiu a seguinte enunciando: “Ainda temos muito que construir para reencontrar o caminho do desenvolvimento econômico. Perdemos o rumo com a globalização, sofremos muito com isso, mas não há como duvidar de que já surgiram clareiras a abrir novos horizontes”. A maioria dos votos (66,6%) sacramentou essa mesma resposta. Miriam Belchior desprezou a alternativa otimista (“Estamos em franca corrida desenvolvimentista. Há um ambiente jamais visto para investimentos produtivos nas mais diversas áreas e que nos recolocarão na trilha do progresso que perdemos apenas por alguns anos de reestruturação macroeconômica”).


 


Apenas 6,6% dos votantes ficaram com esse anunciado. Outros 26,5% preferiram: “Quem acha que o Grande ABC está no caminho do desenvolvimento certamente não conhece nossa realidade. Estamos de mal a pior. Nossa matriz automotiva está se descentralizando e enxugando pessoal e ainda não conseguimos encontrar alternativa que ofereça o mínimo de segurança para o futuro. Comércio e serviços não nos garantem a riqueza que a indústria sempre criou”.


 


Notem os leitores que aqueles 26,6% de supostos céticos eram um contingente razoavelmente forte. Quantos seriam hoje, quando estamos na boca do leão da crise do governo Dilma Rousseff?


 


Agora, mais confiante


 


Se a mais tarde ministra Miriam Belchior, então secretária do prefeito Celso Daniel, perfilou entre os moderados nos dois primeiros cenários sugeridos pela Pesquisa LM, no terceiro e último abraçou o tom otimista sobre o modelo institucional ideal para a região do futuro. Miriam Belchior esteve entre os 12,2% dos leitores que optaram pelo seguinte enunciado: “As principais instituições, casos da Câmara Regional, do Consórcio de Prefeitos, da Agência de Desenvolvimento Econômico e do Fórum da Cidadania, dão ao Grande ABC uma configuração muito especial na qual todos têm de apostar. É só dar tempo ao tempo que tudo se encaixa”.


 


Miriam Belchior desprezou a alternativa considerada moderada, à qual se juntaram maciçamente 63,3% dos 90 leitores que responderam à iniciativa. “O modelo institucional que temos no Grande ABC, com Câmara Regional, Consórcio de Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e Fórum da Cidadania, está em ritmo muito aquém de nossas necessidades econômicas e sociais, embora sejam instrumentos importantíssimos. De alguma forma, é preciso agilizar e muito todos esses organismos”.


 


O grupo dos céticos que se manifestaram na Pesquisa LM sobre o modelo institucional da região chegou a 24,4% do total. O enunciado escolhido por seus representantes: “Nada do que temos no Grande ABC hoje em matéria de instituições voltadas para o conjunto dos municípios funciona adequadamente. A melhor saída é lutar politicamente para que o Grande ABC seja uma região metropolitana como Campinas e Santos, de forma a ter verba e instrumentos próprios de relacionamento mais concreto e perene com o governo estadual”.


 


O que pergunto mais uma vez é sobre o resultado de consulta análoga quase 14 anos depois. Como os leitores se manifestariam sobre os resultados da pretendida integração regional, sobre o desenvolvimento econômico e também sobre o modelo institucional que oferecemos a sociedade? Não tenho dúvidas de que os números seriam ainda piores, com maior incidência da alternativa de desencanto e a desidratação dos cenários otimistas. Menos nos casos em que os leitores tenham algum parentesco político-ideológico com Miriam Belchior porque quando se é governo tudo tende a turvar os sentidos.


 


Daí a importância da democracia e da liberdade de imprensa. Elementar, elementar, para desgosto do bolivarianismo político e empresarial.


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