Toda a vez que leio nos jornais da Capital (como nesta quinta-feira) informações sobre desdobramentos da Máfia do ISS de São Paulo, mais lamento o fato de que a Província do Grande ABC é de lascar em matéria de obscuridades. Não se tem ação análoga das prefeituras e do Ministério Público. Nada mais lamentável.
Não existe distinção entre as falcatruas de servidores públicos e empresários bandidos na vizinha tão poderosa e o que encontramos no território regional. Basta investigar. Investigar é pouco. Também é preciso punir. O escândalo do Semasa foi descoberto há quase três anos e até agora não deu em nada. A mídia simplesmente o enfiou na gaveta. Quem tem obrigação de apurar não se manifesta. Vive-se ambiente de impunidade completa.
O Estadão de hoje mostra que a Máfia do ISS denunciada pela Secretaria Municipal de Finanças de São Paulo e pelo Ministério Público Estadual é apenas um pedaço do bolo de roubalheiras no setor imobiliário. Agora há novo grupo de fiscais e auditores corruptos que atuaram também nos setores de fiscalização do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e do ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis). As investigações foram conduzidas pelo Gedec (Grupo Especial de Delitos Econômicos) do MPE. Os empresários, assim como no escândalo da Petrobras, vão mandar advogados dizer que foram vítimas, quando, na maioria dos casos, não passam de parceiros que se lambuzaram em milhões de reais.
Cadê Luiz Marinho?
Fosse o prefeito dos prefeitos da Província do Grande ABC Luiz Marinho, titular oculto do Clube dos Prefeitos, administrador comprometido com os recursos públicos, teria tomado medidas para o envolvimento de todos os paços municipais na caça às roubalheiras da Máfia Imobiliária. Mas o que esperar de Luiz Marinho se nem para marcar o gol mais fácil em muitas temporadas, com a bola quicando no caso Marco Zero, ele se dignou a agir em nome da moralidade pública?
Mais que isso: Luiz Marinho deu completa cobertura às irregularidades cometidas pela MBigucci, conglomerado do presidente do Clube dos Especuladores Imobiliários, ao sonegar documentos à apuração dos fatos denunciados por este jornalista. Documentos, os quais, diga-se de passagem, eram até mesmo desnecessários, ante o calhamaço que apresentei ao Ministério Público. Marinho preferiu encobrir os malfeitos e logo mais adiante virou prefaciador do livro (livro?) do empresário Milton Bigucci, arrematador irregular daquele terreno.
Tanto quanto na Capital, o mais correto mesmo é se referir à Máfia Imobiliária em vez de Máfia do ISS, Máfia do IPTU e Máfia do ITBI. A atuação dos marginais públicos e privados é extensa, ampla, completa e absoluta, com ramificações nessas três esferas arrecadadoras de impostos. Muito financiamento eleitoral escuso, na escuridão do caixa dois, quando não do caixa três, se deu nos últimos anos e continuará a se dar nos próximos, com dinheiro público não recolhido do mercado imobiliário. Os tentáculos são enormes, os apadrinhamentos frondosos e os arrecadadores são múltiplos na capacidade de amealhar recursos financeiros.
Aferição fácil
Quando o denunciante do escândalo do Semasa em Santo André, advogado Calixto Antônio Júnior, declarou que os estragos nos cofres públicos de Santo André poderiam ser facilmente detectados com revisão completa da aprovação de licenças imobiliárias nos 40 principais empreendimentos lançados em Santo André nos então três últimos anos, o mínimo a esperar de instâncias públicas, municipais, policiais e do Ministério Público, é que se seguisse criteriosamente a sugestão daquele especialista no assunto.
Calixto disse com todas as letras que fora instalado como representante do prefeito Aidan Ravin no topo de deliberações daquela autarquia de água e saneamento justamente para dar conta das ambições materiais do grupo que controlava o Paço Municipal. Não se tem uma notícia sequer sobre a reação das autoridades constituídas para fazer algo semelhante ao que o juiz Sérgio Moro e uma força-tarefa do Ministério Público Federal vêm empreendendo na Operação Lava Jato. O caso Semana virou espécie de Operação Abafa.
Enquanto isso, além de revelar novos focos de corrupção, a Controladoria-Geral do Município de São Paulo empenha-se no processo de refiscalização dos empreendimentos imobiliários que tiveram Habite-se liberado pela máfia. Até parece que seguiram a sugestão de Calixto Antônio. Resultado: mesmo com o mercado imobiliário em situação tenebrosa nos últimos tempos, com abundância de ofertas e redução drástica de demanda, a gestão de Fernando Haddad anuncia que a arrecadação do ISS e Habite-se cresceu mais de 70%.
É bastante conservadora a estimativa de que a Máfia do ISS, a primeira a ser descoberta, desviou mais de R% 500 milhões durante um par de anos. Está certo que os valores não fazem cócegas ao rombo da Petrobras, mas, guardadas as devidas proporções orçamentárias da Prefeitura, podem produzir enorme diferença ao conjunto de investimentos públicos.
Mais visibilidade
O tratamento que deveria ser reservado à Máfia Imobiliária da Capital, inclusive para disseminar em outros municípios interesse pelo desmonte de operações semelhantes, poderia ser análogo ao escândalo da Petrobrás. Bandidos engravatados dos dois lados do balcão -- fiscais, auditores e empresários -- já deveriam ter sido enjaulados semelhantemente àqueles da carceragem da Polícia Federal de Curitiba.
Delações premiadas deveriam ser incentivadas. Aliás, sobre isso, o noticiário de hoje do Estadão não é explícito, mas deixa patente que um dos fiscais acusados de integrar a Máfia do ISS, Luiz Alexandre Cardoso de Magalhães, está colaborando imensamente com o Ministério Público Estadual. Partiram dele as informações sobre o foco de corrupção dos fiscais e auditores nas áreas de IPTU e ITBI. Há Magalhães esparramados por todas as prefeituras da Província do Grande ABC. Basta apertar o cerco que eles confessam crimes cabeludos.
Por enquanto, o risco maior de quem se opõe às máfias imobiliárias na Província do Grande ABC é do jornalismo independente. Denunciei a barbaridade do Residencial Ventura, construído completamente à margem da legislação, e o que ganhei de presente foi um processo criminal. O Ministério Público de Santo André simplesmente não investigou o caso porque sofre com a falta infraestrutura pessoal e material. Só não fui condenado porque houve erro processual. Há quase dois anos espero pelo resultado das falcatruas licitatórios do terreno onde se está construindo o empreendimento Marco Zero, do campeão de irregularidades imobiliárias na região, Milton Bigucci, e nada se efetivou em forma de investigação.
Até que me provem o contrário, no setor imobiliário da região o crime é mais que compensador – além de lucrativo é a porta aberta à punição ou à tentativa de punição a quem ousa enfrentar os delinquentes.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS