Sociedade

Diário muda para valer e bate forte
nas omissas associações comerciais

DANIEL LIMA - 13/05/2015

O Diário do Grande ABC está dando provas mais que suficientes nos últimos tempos de que tem muito orgulho do passado de 57 anos de atividades, mas nenhum compromisso com os erros cometidos ao longo dos tempos. E um dos erros foi de alguma forma proteger instituições inúteis, defasadas no tempo, entre as quais as chamadas associações comerciais que incorporam indústrias na nomenclatura, embora não tenham nenhuma afinidade com o setor produtivo. Aliás, essas entidades contam com baixíssima inserção nos segmentos comerciais, supostamente representados. Diretorias são eleitas ao sabor de conveniências particulares.


 


O desmonte desse compadrismo diretivo regional marcará uma das grandes rupturas editoriais do Diário do Grande ABC se efetivamente concretizado. E não se deve duvidar que se concretize depois que o jornal assumiu em extenso artigo de primeira página na última segunda-feira o que chamou de mea-culpa sobre a pouca importância, quando não a negação, do processo de desindustrialização na região.


 


Levará tempo para que as associações comerciais sejam enquadradas num compartimento de extroversão social de inquietude com o quadro econômico. Não se derruba um palacete de improdutividades num passe de mágicas. Haverá de chegar o dia em que esses espertalhões que adoram se aproximar do Poder Público de forma acumpliciada serão escorraçados pela lógica da insurgência da classe que dizem representar.


 


Petardo na Acisa


 


A manchetissimazinha do Diário do Grande ABC de hoje (manchetíssimazinha é a segunda mais importante manchete de primeira página, a qual chamo de manchetíssima) é contundente: “Vendas decepcionam os lojistas e associações comerciais se omitem”. Muito provavelmente o título dispense o conteúdo do material jornalístico, mas vale a pena citar que uma entidade protegidíssima pelo jornal no passado, por ter fortes relações com dirigentes-acionistas e dirigentes executivos da publicação, quase todos não mais integrantes da empresa, foi diretamente atingida pelo petardo.


 


Trata-se da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), modelo bem acabado de um arcaísmo que remonta a meados do século passado. Não custa lembrar que o presidente da Acisa, nada diferente dos antecessores em fragilidade programática, é Evenson Dotto, acionista minoritário do Diário do Grande ABC. Não há notícia de que tenha se alinhado à nova filosofia editorial do jornal que seu pai, Maury Dotto, ajudou a fundar. Possivelmente esteja em campo antagônico, a julgar pelo alvo direto do noticiário desta quarta-feira.


 


Se Evenson Dotto sabia antecipadamente que o Diário do Grande ABC iria distribuir bordoadas mais que justas à entidade que preside e também às congêneres da região isso não tem muita importância, exceto ao ambiente interno daquela empresa. Mas é sintomático que a nova fase editorial do Diário tenha chegado já de imediato às associações comerciais. A medida sinaliza claramente que outras instituições vão dançar o tango de cobranças jamais formuladas porque poderão ser igualmente alvos de investidas providenciais.


 


Mais lenha para queimar


 


Mais que isso: possivelmente a iniciativa que colhe as associações comerciais num contrapé histórico de dispersão e oportunismo como agentes de cidadania e responsabilidade social seja apenas o primeiro capítulo de novas iniciativas. O estoque de ineficiência daquelas entidades não se limita e nem se esgota num acerto de contas de uma única matéria jornalística. Muito pelo contrário: há um encadeamento natural a novas cutucadas em nome de uma sociedade que reclama em silêncio a ausência de lideranças que alterem o rumo de desgaste da economia da região.


 


É provável que os atuais ocupantes de cargos nas entidades de classe da região propaguem a terceiros incautos que este jornalista e o Diário do Grande ABC estão unidos contra eles. Pura bobagem. O que há em matéria de união está do outro lado do balcão, institucional, ou seja, a atuação daquelas entidades, sempre em detrimento da sociedade.


 


Em novembro de 2006, portanto há quase 10 anos, escrevi um dos muitos textos sobre a institucionalidade da região, a propósito de uma entrevista histórica na edição de outubro daquele ano com Hermano Tavares, reitor da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) nas páginas da revista LivreMercado, publicação que criei e dirigi editorialmente por duas décadas. Declarou o dirigente da UFABC que não só descartava a regionalização temático-desenvolvimentista daquela instituição como enfatizou que o fluxo pedagógico e de pesquisas seria direcionado a interesses gerais do País. “Uma postura que fere de morte o próprio discurso de Lula da Silva durante debates do segundo turno, quando enfatizou o papel das novas instituições federais como polo de desenvolvimento econômico regional”, escrevi naquela oportunidade.


 


Teste de regionalidade


 


Mais fiz ainda sobre o assunto: enviei 18 cartas protocoladas como espécie de teste de regionalidade a instâncias públicas e privadas desta Província. O teste consistia em saber qual seria a posição dos ocupantes das principais organizações locais quanto à constatação de que a UFABC estava mais para “no” Grande ABC do que para “do” Grande ABC, um jogo de preposições que ia muito além de eventual truque semântico. “No” Grande ABC significava uma UFABC com sede em Santo André mas olhos, coração e alma educacionais voltados para o Brasil, como afirmou o reitor Hermano Tavares. “Do” Grande ABC uma UFABC não só fisicamente na região, mas com um coquetel de propostas e ações curriculares que colocasse os sete municípios como prioridade de retorno dos investimentos para potencializar a economia local.


 


Das sete associações comerciais e industriais da região, manifestaram-se apenas Marcos Soares, titular em Mauá, e Zoilo de Souza Assis, de Santo André. Das quatro unidades do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), apenas Cláudio Musumeci, de São Caetano, também se posicionou. Das secretariais municipais de Desenvolvimento Econômico, três titulares destacaram ponto de vista: Luiz Cláudio Brescini, de Santo André, Flávio Lemos Silva, de Rio Grande da Serra, e Marcelo Menato, de Ribeirão Pires. Também respondeu ao questionamento o então diretor da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Silvio Minciotti.


 


O resultado final do teste de regionalidade mostrou que os agentes privados defenderam fortemente uma UFABC comprometida com a região, enquanto os agentes públicos procuraram dar revestimento de complementariedade entre as duas posições sem, entretanto, deixar de defender o discurso do reitor da instituição. A manifestação de Zoilo de Souza Assis, da Acisa, foi burocrática, sem sequer resvalar na essência do temário, preferindo o dirigente ater-se sobre questões constitucionais sem nenhuma importância.


 


Passar a limpo


 


Já passou da hora de se passar a limpo a atuação da UFABC na Província do Grande ABC. Como bem definiu também numa entrevista à revista LivreMercardo o especialista educacional Valmor Bolan, não passamos de barriga de aluguel. As entidades de classe têm toda a culpa no cartório de indiferença da UFABC à geoeconomia regional entre outros motivos porque vivem à sombra dos poderes públicos municipais mancomunadas pragmaticamente com a ideologia de supostamente produzir cérebros para exportação, enquanto morremos à mingua tecnológica.  


 


Os veículos de comunicação da região que seguirem a velha toada de aceitar o oficialismo dos poderosos de plantão como sentença a ser bovinamente transformada em reportagem tendem a perder a razão de ser.


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